A carga de munições do Lusitania
A 1 de maio de 1915, ao meio-dia, o Lusitania largou de Nova Iorque rumo a Liverpool. O manifesto de carga entregue à alfândega norte-americana não mencionava qualquer carga de munições do Lusitania. Quatro dias depois, já o transatlântico atravessava o Atlântico, a Cunard entregou um segundo manifesto. Nesse apareciam 4200 caixas de cartuchos Remington .303, cerca de 1250 caixas de projéteis de shrapnel, sem carga explosiva, e milhares de espoletas de percussão.
Apresentar um manifesto antes da partida e outro depois era prática corrente nos portos britânicos da época. Isso não impediu que o segundo documento se tornasse um dos elementos mais persistentes da controvérsia. Para os críticos do Reino Unido, provava que Londres tinha alguma coisa a esconder.
A memória pública ocidental fixou sobretudo a imagem de um paquete civil desarmado, afundado sem aviso por um submarino alemão, com quase 1200 mortos. A Alemanha sustentou em 1915 que o Lusitania funcionava, na prática, como transporte de guerra sob a aparência de um navio de passageiros.
Os dois manifestos sobreviveram. Também o diário de bordo do comandante do submarino e o inquérito britânico de 1915. Mais tarde surgiriam documentos do Foreign Office, libertados em 2014, e os resultados de vários mergulhos ao casco.
O que ia a bordo
Segundo os registos disponíveis nos Arquivos Nacionais dos Estados Unidos, a carga da última travessia incluía cerca de 52 toneladas de projéteis de shrapnel, mais de três mil espoletas de percussão e 4200 caixas de cartuchos para espingarda fabricados pela Remington.
As fontes que trabalharam diretamente sobre o manifesto suplementar apresentam por vezes os mesmos itens de maneira diferente, contando caixas em vez do peso. Daí os números entre 1250 e 1271 caixas de projéteis que aparecem na documentação sobre o caso.
O comércio de material de guerra entre um país neutro, os Estados Unidos, e um beligerante, o Reino Unido, era legal segundo o direito internacional então em vigor, desde que fosse declarado. Os cartuchos de espingarda e os projéteis de shrapnel sem carga explosiva cabiam nessa categoria. A controvérsia ficou sobretudo ligada ao momento em que a carga se tornou pública, através de um manifesto apresentado quando o navio já tinha zarpado, e às negações britânicas posteriores sobre a existência de munições em quantidade relevante.
O Lusitania fora construído em 1906 com um subsídio do Almirantado britânico para poder ser convertido em cruzador auxiliar em caso de guerra e figurava nas listas navais de reserva publicadas pela própria Marinha britânica. Nunca chegou a ser armado nem formalmente incorporado na Marinha. Continuou a operar como paquete civil de passageiros. O estatuto de reserva estava documentado. Os seus efeitos sobre a condição do navio enquanto operava desarmado permaneceram no centro da disputa.
O aviso e o ataque
No próprio dia da partida, a embaixada alemã em Washington publicou um aviso em cerca de cinquenta jornais norte-americanos. Recordava que existia um estado de guerra entre a Alemanha e o Reino Unido e advertia que quem viajasse em navios britânicos nas águas em redor das ilhas britânicas o fazia por sua conta e risco.
Em vários jornais de Nova Iorque, o aviso apareceu na mesma página do anúncio da Cunard para a partida do Lusitania.

Seis dias mais tarde, a cerca de vinte quilómetros da costa sul da Irlanda, o submarino alemão U-20, comandado pelo capitão-tenente Walther Schwieger, avistou o Lusitania.
O diário de bordo de Schwieger regista um tiro de proa a cerca de 700 metros. O torpedo atingiu o costado a estibordo, junto à ponte. Seguiu-se uma detonação muito forte e uma grande nuvem de fumo. Schwieger registou ainda uma segunda explosão, mas não soube identificar a sua origem. Poderia ter vindo de uma caldeira, do carvão ou de pólvora.

O Lusitania afundou-se em dezoito minutos.
Dos cerca de 1959 passageiros e tripulantes a bordo, morreram, consoante a fonte e o critério de contagem, entre 1195 e 1201. O inquérito britânico, concluído em julho de 1915, fixou o número em 1198. As listas de passageiros incompletas, os corpos nunca recuperados e as mortes posteriores provocadas por ferimentos ajudam a explicar a variação.
Duas leituras oficiais
O inquérito britânico foi presidido por Lord Mersey, comissário de naufrágios, e decorreu entre junho e julho de 1915. O relatório final, datado de 17 de julho, atribuiu a perda do navio e das vidas aos torpedos disparados por um submarino alemão. Considerou também que o ataque fora realizado com a intenção de afundar o navio e de causar a morte das pessoas a bordo.
A carga recebeu pouca atenção. A Cunard e o comandante Turner foram ilibados de responsabilidade.
O biógrafo de Mersey escreveria mais tarde que nunca foi provada a existência de um encobrimento deliberado. A conclusão do inquérito era também politicamente conveniente para Londres.
A 28 de maio de 1915, o governo imperial alemão contestou formalmente a primeira nota de protesto norte-americana. Invocou o facto de o Lusitania ter sido construído com fundos governamentais para poder servir como cruzador auxiliar e de constar da lista naval publicada pelo Almirantado britânico.
Em declarações públicas paralelas, nomeadamente nas do representante alemão Bernhard Dernburg nos Estados Unidos, esse estatuto apareceu associado à carga de munições do Lusitania como justificação para o ataque.
Londres deu pouco relevo a uma carga de guerra que existia e era legal. O argumento alemão foi mais longe e utilizou o estatuto de reserva naval e a presença de munições na defesa da legitimidade de atacar o paquete sem aviso. O navio continuava desarmado e transportava perto de duas mil pessoas, na maioria civis.
O que os destroços confirmaram
Em 1982, quando uma operação privada de salvamento se preparava para trabalhar nos destroços, Noel Marshall, responsável pelo departamento norte-americano do Foreign Office, escreveu memorandos internos sobre as munições. Os documentos, hoje nos Arquivos Nacionais em Kew e tornados públicos em 2014, reconheciam que sucessivos governos britânicos tinham sustentado que não existiam munições a bordo do Lusitania. Marshall registava, porém, que havia uma quantidade considerável de munições nos destroços e que parte delas podia ser perigosa.
Avisar a empresa de salvamento significaria, escreveu, o primeiro reconhecimento oficial desses factos pelo governo britânico.
Em 1993, Robert Ballard mergulhou no local do naufrágio, procurando esclarecer a origem da segunda explosão. A equipa encontrou o paiol de munições intacto. Encontrou também grandes quantidades de carvão espalhadas pelos destroços, numa zona onde o casco fora aberto junto de um dos depósitos de carvão.
Ballard avançou a hipótese de o torpedo ter atingido um depósito quase vazio e levantado uma nuvem de pó de carvão que, misturada com o ar, se teria incendiado. O estado do paiol não forneceu evidência física de que a carga declarada tivesse provocado a segunda explosão.
Entre 2008 e 2011, uma nova série de mergulhos, financiada pelo empresário norte-americano Gregg Bemis, então proprietário dos destroços, encontrou e recuperou munições .303 numa zona do navio onde não se julgava ter sido transportada carga.
Bemis defendia havia anos que o Lusitania constituía um alvo legítimo e apresentou a descoberta como confirmação dessa posição. Não ficou estabelecido se as munições encontradas pertenciam a uma carga adicional ausente dos dois manifestos ou se faziam parte da carga conhecida e se tinham deslocado dentro do casco durante as décadas passadas no fundo do mar.
O Lusitania era um paquete civil numa rota comercial regular. Transportava um carregamento de munições destinado ao esforço de guerra britânico, declarado num segundo manifesto e permitido pelo direito então vigente. Tinha sido concebido para poder servir como cruzador auxiliar, mas nunca foi armado nem incorporado na Marinha.
Décadas depois do afundamento, documentos internos britânicos confirmaram a presença de uma quantidade considerável de munições nos destroços. Os mergulhos encontraram cartuchos .303. Encontraram também intacto o paiol que poderia ter sustentado a hipótese de uma explosão da carga declarada.
A existência das munições deixou, por isso, de ser a parte incerta do caso. Permanecem outras questões, entre elas a origem exata da segunda explosão e a natureza das munições encontradas fora da zona onde se julgava estar a carga.
Nada do que foi encontrado nos destroços alterou um dado anterior aos mergulhos: quando o U-20 disparou, o Lusitania transportava passageiros civis, não estava armado e não tinha sido incorporado na Marinha. A presença de material de guerra a bordo e as condições em que um submarino podia atacar o navio sem aviso eram questões distintas.
Este é mais um artigo do espaço História do Arcana News. Sobre outro episódio recente da mesma rubrica, ver O rosto que falta às grutas de Longmen.
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