Cerco de Lisboa de 1147
Os habitantes negociaram a entrega da cidade depois de meses de cerco. O relato mais completo da conquista mostra como mudaram as propostas, o que ficou acordado e a violência que acompanhou a entrada dos vencedores.
A 21 de outubro de 1147, com uma torre de cerco a poucos pés da muralha, os defensores de Lisboa baixaram as armas e pediram tréguas até ao dia seguinte. Entregaram cinco reféns. Durante a noite, decidiriam se aceitavam entregar a cidade.
O De expugnatione Lyxbonensi, relato escrito a partir do lado dos cruzados anglo-normandos, acompanha as discussões que se seguiram. Os sitiados propuseram entregar Lisboa ao rei português e deixar ouro, prata e outros bens aos cruzados. Mais tarde, procuraram conservar os bens do alcaide, o chefe da cidade, e os alimentos dos restantes habitantes. Entre os vencedores, o destino desses bens provocou desacordo.
Para a entrada, o cronista apresenta condições severas: os moradores reuniriam os seus haveres na fortaleza, os cruzados procurariam bens ocultos e quem os escondesse poderia ser morto. Depois de despojados, os habitantes sairiam em paz. O autor descreve ainda casas invadidas, agressões e a morte do bispo cristão que vivia em Lisboa. Atribui esses atos aos homens de Colónia e da Flandres e afirma que os do seu grupo permaneceram nos lugares designados.
O cerco de Lisboa de 1147 e a recompensa da frota

Afonso Henriques tinha conquistado Santarém em março. Meses depois, procurou o apoio de uma frota de cruzados vinda do norte da Europa, a caminho do Mediterrâneo oriental no contexto da Segunda Cruzada. Ingleses, normandos, flamengos e homens da região de Colónia participaram no cerco de Lisboa, iniciado no verão. Os contingentes tinham chefes próprios e nem sempre concordavam sobre a condução da campanha.
O acordo entre o rei e os cruzados, tal como aparece no De expugnatione, atribuía a estes os bens tomados ao inimigo e os resgates dos prisioneiros. Se conquistassem Lisboa, poderiam conservá-la enquanto procedessem à busca e à recolha do saque. Depois, entregá-la-iam a Afonso Henriques. O texto apresenta ainda outras vantagens, incluindo isenções comerciais. A transcrição desse compromisso chegou-nos dentro da narrativa de um participante, sem que se conserve à parte um documento régio com o mesmo teor.
Lisboa resistiu durante meses. O relato descreve ataques aos arrabaldes, minas abertas junto às muralhas e uma grande torre móvel levada até às defesas próximas do rio. Nos últimos dias, os defensores tentaram incendiá-la. O cronista fala também de fome e de dificuldades para sepultar os mortos dentro da cidade.
Atribui à cidade 60 mil famílias tributadas e 154 mil homens, além de mulheres e crianças. São números sem valor de recenseamento. O próprio retrato dos moradores inclui acusações religiosas e morais que pertencem ao olhar dos sitiantes. Na cidade vivia, porém, uma comunidade cristã, cujo bispo reaparece no relato quando os vencedores entram.
O que os sitiados propuseram
Após o pedido de tréguas de 21 de outubro, representantes dos defensores reuniram-se com Afonso Henriques e os chefes cruzados. A primeira proposta descrita no relato entregava a cidade ao rei e os bens dos habitantes aos homens da frota. A negociação prosseguiu. Noutra formulação, o alcaide conservaria os seus bens e cada morador ficaria com os alimentos que possuísse. Os ingleses e normandos, segundo o cronista, mostraram-se dispostos a aceitar. Homens de Colónia e da Flandres opuseram-se a deixar haveres aos sitiados.
Mais de quatrocentos homens do lado anglo-normando terão procurado Hervey de Glanville de armas na mão. Contestavam as negociações e a distribuição do dinheiro; Glanville entregara ao rei reféns que alguns entendiam dever ficar nas mãos dos cruzados. O número provém do De expugnatione. O motim, tal como ali é narrado, não combina com a imagem de um contingente unido e obediente que o mesmo autor apresentaria ao descrever a entrada na cidade.
Também houve tensão com os homens de Colónia e da Flandres em torno dos reféns e das condições oferecidas pelo rei. Depois de novos compromissos entre Afonso Henriques e os chefes cruzados, decidiu-se que entrariam primeiro 140 homens do grupo anglo-normando e 160 dos outros dois contingentes. Ocupariam a fortaleza enquanto os habitantes aí reuniam dinheiro e haveres. Seguir-se-ia uma busca pela cidade. Quem tivesse escondido bens, segundo o texto, pagaria com a vida. Os restantes sairiam em paz depois de despojados.
A possibilidade de os moradores conservarem alimentos e a exceção pedida para o alcaide tinham figurado numa proposta anterior. A descrição do procedimento de entrada já não as apresenta nesses termos. Também não sabemos se todos os bens foram recolhidos de acordo com as regras anunciadas.
A entrada na cidade

O autor afirma que os homens de Colónia e da Flandres obtiveram autorização para ser os primeiros a entrar e introduziram mais de duzentos elementos além dos designados. Outros passaram por aberturas nas muralhas. Seguiu-se a entrada do rei e dos chefes, acompanhados por autoridades religiosas. Afonso Henriques percorreu as muralhas da fortaleza.
Nas ruas, segundo a mesma narrativa, homens dos contingentes de Colónia e da Flandres saquearam casas, arrombaram portas, agrediram moradores e subtraíram bens que deveriam integrar a partilha comum dos vencedores. O cronista relata agressões a mulheres, a captura do alcaide e a apropriação de uma égua que este possuía. Diz ainda que cortaram o pescoço ao bispo da cidade, um homem idoso. Não identifica quem o matou.
Esse bispo pertencia à comunidade cristã que vivia na Lisboa governada por muçulmanos. A sua morte é condenada pelo autor do De expugnatione. Os moradores não deixaram um testemunho comparável sobre o que se passou durante a ocupação, e o relato cruzado não indica quantos deles morreram.
O cronista afirma que os ingleses e normandos permaneceram nos postos atribuídos, sem participar na pilhagem. Escreve a partir desse grupo, que mostrara antes dividido por causa dos reféns e do dinheiro. Não dispomos de confirmação independente para a conduta de todos os seus homens durante a entrada.
Depois do saque, os habitantes saíram por três portas, desde a manhã de sábado até à quarta-feira seguinte, segundo o De expugnatione. A fonte não indica quantas pessoas sofreram agressões antes de partir nem quantas morreram durante a ocupação. Refere uma saída prolongada da cidade, após a perda dos bens.
Quem escreveu a versão que chegou até nós?
O De expugnatione Lyxbonensi é o testemunho mais extenso do Cerco de Lisboa de 1147. Sobrevive num único manuscrito, conservado na Parker Library, em Cambridge. Há décadas que os historiadores discutem o nome do autor, o momento da redação e a possibilidade de o texto recebido ter sido ampliado depois dos acontecimentos.
Harold Livermore identificou o autor referido pela inicial «R.» com Raul, um padre cruzado documentado em 1148 numa doação ao mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. Maria João Branco questionou essa identificação e admitiu a possibilidade de o texto estar ligado a Roberto, futuro deão da Sé de Lisboa. Jonathan Wilson propôs que a versão sobrevivente reunisse uma narrativa inicial de «R.» e acrescentos posteriores produzidos em Portugal. Pedro Picoito examinou as três leituras: considerou que a hipótese de Raul continuava a ter argumentos fortes e contestou a proposta de uma redação portuguesa dos acrescentos.
Picoito inclui os termos da rendição entre as passagens que suscitam perguntas sobre a composição do De expugnatione. Contêm pormenores ausentes da tradição de cartas ligada aos contingentes germânicos e flamengos. Sem outro registo igualmente detalhado das negociações, não é possível conferir cada condição que o cronista lhes atribui.
A chamada Carta de Lisboa chegou-nos em versões relacionadas. Susan Edgington comparou-as com outros registos e concluiu que o texto original terá sido enviado pelo padre Winand ao arcebispo de Colónia. Essas versões permitem conhecer notícias da conquista que circularam noutros meios cruzados. Pela relação que mantêm entre si, não constituem testemunhos independentes para confirmar, ponto por ponto, o relato anglo-normando.
No dia 21 de outubro houve um pedido de tréguas. Seguiram-se propostas, recusas e conflitos entre os vencedores. Pedro Picoito situa a entrada em 24 de outubro e assinala a diferença em relação à tradição que consagrou o dia 25. A tradução portuguesa consultada também regista a discrepância.
O procedimento que conhecemos previa a entrega dos haveres, uma busca e a saída em paz. Foi registado pelo mesmo autor que descreveu os abusos durante a entrada e absolveu os homens do seu contingente. Para a dimensão da violência e a responsabilidade de cada grupo, continua a faltar uma testemunha independente com igual pormenor.
Este é mais um artigo do espaço História do Arcana News. Sobre outro episódio recente da mesma rubrica, ver A carga de munições do Lusitania.
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