Sociedade das Nações: porque falhou a paz?

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Criada para prevenir novas guerras, a Sociedade das Nações falhou perante as agressões das grandes potências. O seu legado influenciou a criação da ONU.

Economia

Elian Morvane
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Elian Morvane é analista do Arcana News, onde escreve sobre geopolítica, poder e relações internacionais. É autor de mais de trezentos artigos de análise e contexto, com foco nas dinâmicas europeias, na política institucional e nos processos de influência que raramente chegam às manchetes.
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Em 1939, quando a Alemanha invadiu a Polónia, a Europa voltou a entrar em guerra. Vinte anos antes, os vencedores da Primeira Guerra Mundial tinham procurado construir uma ordem internacional que evitasse precisamente esse desfecho. A Sociedade das Nações, criada no âmbito dos acordos de paz de 1919 e em funcionamento a partir de 1920, deveria oferecer aos Estados mecanismos de negociação, arbitragem e segurança coletiva. Em vez de considerarem a guerra um instrumento normal de resolução de disputas, os governos deveriam aceitar compromissos comuns, recorrer a procedimentos internacionais e reconhecer que uma ameaça à paz dizia respeito a toda a comunidade de Estados. A organização não conseguiu cumprir essa ambição. A Segunda Guerra Mundial demonstrou que os compromissos assumidos depois de 1918 não tinham impedido o regresso de uma guerra generalizada.

A Sociedade das Nações surgiu num continente profundamente transformado. A Primeira Guerra Mundial provocara milhões de mortos, destruíra economias e contribuíra para o desaparecimento dos impérios alemão, austro-húngaro, russo e otomano. Novas fronteiras foram desenhadas e vários Estados adquiriram ou recuperaram a independência. A paz de 1919 procurava responder a problemas distintos. Era necessário estabelecer condições para os países derrotados, organizar territórios, reconhecer novas entidades políticas e encontrar uma forma de impedir que as rivalidades europeias voltassem a desencadear uma guerra. O presidente norte-americano Woodrow Wilson foi um dos principais defensores de uma associação internacional de Estados. No último dos seus Catorze Pontos, apresentados em janeiro de 1918, propôs a criação de uma organização destinada a oferecer garantias de independência política e integridade territorial aos seus membros. A proposta assentava numa convicção: a estabilidade internacional não poderia depender exclusivamente de alianças militares ou de equilíbrios temporários entre grandes potências. Contudo, o novo sistema nasceu associado aos tratados de paz negociados pelos vencedores. Para os países que consideravam injustas as condições impostas depois da guerra, a organização podia parecer menos uma instituição universal do que um instrumento de conservação da ordem estabelecida em 1919. A tensão entre a defesa da paz e a preservação dos resultados da guerra acompanharia toda a sua existência.

Porque falhou a Sociedade das Nações na prevenção de uma nova guerra mundial?

Sala de conferências em Genebra em 1930
Sala de conferências anexa ao Palais Wilson, Genebra, em 1930. Fotografia de Walter Mittelholzer. Domínio público.

O Pacto da Sociedade das Nações estabelecia compromissos destinados a reduzir a possibilidade de conflitos armados. Os Estados membros deveriam respeitar a integridade territorial e a independência política uns dos outros, submeter determinados diferendos a arbitragem ou apreciação internacional e aceitar procedimentos que dificultassem o recurso imediato à guerra. A organização dispunha de uma Assembleia, na qual estavam representados os membros, de um Conselho com responsabilidades particulares na manutenção da paz e de um Secretariado permanente, sediado em Genebra. O sistema previa igualmente a possibilidade de sanções contra Estados que recorressem à guerra em violação das obrigações assumidas. Não se tratava, porém, de um governo mundial. A Sociedade das Nações não possuía soberania sobre os seus membros nem forças armadas próprias que pudesse mobilizar autonomamente. A sua eficácia dependia da vontade dos governos de cumprir decisões, aceitar custos económicos e políticos e, em circunstâncias extremas, participar em medidas coercivas contra outros Estados.

Uma das maiores contradições da Sociedade das Nações surgiu antes de a organização começar a funcionar plenamente. Woodrow Wilson defendera a sua criação, mas os Estados Unidos nunca se tornaram membros. O Senado norte-americano recusou ratificar o Tratado de Versalhes, ao qual estava associado o Pacto da Sociedade das Nações. A oposição refletia, entre outras preocupações, o receio de que compromissos internacionais limitassem a liberdade de decisão dos Estados Unidos e os envolvessem em conflitos europeus. A ausência norte-americana teve consequências importantes. A organização perdeu a participação de uma das principais potências económicas e políticas do mundo, precisamente quando procurava estabelecer um sistema de segurança coletiva. A sua ausência reduziu a capacidade política e económica de resposta da organização. A Alemanha só foi admitida em 1926, abandonando a organização em 1933. A União Soviética entrou em 1934 e foi expulsa em 1939, depois da invasão da Finlândia. O sistema internacional que pretendia ser universal permaneceu, assim, marcado por ausências, exclusões e mudanças de participação.

Sociedade das Nações: limites da segurança coletiva

A Sociedade das Nações procurava garantir a soberania dos seus membros. Uma das formas encontradas foi a adoção da regra da unanimidade para grande parte das decisões substantivas. O princípio protegia os Estados contra decisões tomadas sem o seu consentimento. Contudo, tornava especialmente difícil alcançar posições comuns quando existiam interesses divergentes. Esta dificuldade era particularmente grave em situações de crise. Uma organização destinada a reagir a ameaças internacionais precisava de decisões suficientemente rápidas e eficazes. Mas o seu funcionamento favorecia negociações prolongadas e compromissos entre governos. O Pacto previa exceções e procedimentos específicos. Ainda assim, o modelo institucional refletia uma contradição: pretendia-se construir uma autoridade internacional sem retirar aos Estados o controlo fundamental sobre as decisões.

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Discurso de Dollfuss na Sociedade das Nações
Engelbert Dollfuss intervém na Sociedade das Nações em 1933. Fotografia de arquivo Agence Meurisse. Domínio público.

A história da Sociedade das Nações não foi uma sucessão ininterrupta de fracassos. Durante a década de 1920, a organização contribuiu para resolver determinados conflitos internacionais, incluindo a disputa pelas ilhas Åland, entre a Suécia e a Finlândia, e o incidente fronteiriço entre a Grécia e a Bulgária, em 1925. Estes episódios demonstraram que a mediação internacional podia funcionar quando os governos aceitavam os procedimentos e os resultados. A Sociedade das Nações desenvolveu igualmente atividades em domínios que ultrapassavam a segurança militar. Trabalhou em questões de saúde pública, refugiados, tráfico de pessoas, cooperação económica e controlo de substâncias perigosas. O seu legado administrativo e técnico contribuiu para a formação de instituições internacionais posteriores. O problema estava na diferença entre resolver disputas relativamente limitadas e enfrentar a política expansionista de uma grande potência.

Em setembro de 1931, o Japão iniciou uma intervenção militar na Manchúria, região do nordeste da China. A ocupação colocou a Sociedade das Nações perante um desafio decisivo. A China procurou apoio internacional. A organização examinou a situação e promoveu uma investigação, mas não conseguiu obter a retirada japonesa. Em 1933, o Japão abandonou a Sociedade das Nações. O episódio revelou uma limitação fundamental: a condenação diplomática não bastava para alterar o comportamento de um Estado disposto a utilizar a força. O Japão demonstrara que podia desafiar a ordem internacional sem enfrentar uma resposta coletiva suficientemente forte para inverter a ocupação. A credibilidade da organização ficou comprometida.

As crises que enfraqueceram a organização

Em outubro de 1935, a Itália fascista invadiu a Etiópia, então frequentemente designada Abissínia. Ao contrário de conflitos anteriores, a agressão envolvia uma potência europeia e um Estado africano independente, ambos membros da Sociedade das Nações. A organização reconheceu a agressão e foram adotadas sanções económicas contra a Itália. Contudo, as medidas revelaram-se insuficientes para impedir a conquista. A crise expôs as hesitações das principais potências europeias. A França e o Reino Unido tinham de conciliar a defesa dos compromissos internacionais com os seus próprios interesses estratégicos. A segurança coletiva exigia que os governos aceitassem custos para defender outro Estado. Quando esses custos se tornaram politicamente inconvenientes, a disposição para agir enfraqueceu. O resultado ultrapassou a derrota diplomática da Sociedade das Nações. Demonstrou que as regras internacionais podiam ser aplicadas de forma desigual, dependendo do poder e dos interesses dos Estados envolvidos.

Conselho da Sociedade das Nações em 1936
Stanley Bruce preside ao Conselho da Sociedade das Nações em 1936. Fotografia histórica, domínio público.

A Grande Depressão, iniciada em 1929, agravou as tensões internacionais. A contração económica, o desemprego, o protecionismo e a instabilidade política contribuíram para enfraquecer a cooperação entre os Estados. Na Alemanha, a ascensão do nacional-socialismo colocou no centro da política externa a revisão da ordem territorial europeia. A Itália fascista intensificou as suas ambições imperiais. O Japão prosseguiu uma política de expansão na Ásia. A Sociedade das Nações enfrentava, assim, governos que não partilhavam necessariamente os princípios em que a organização assentava. As conferências sobre desarmamento também não produziram os resultados esperados. A Conferência Mundial do Desarmamento, realizada entre 1932 e 1934, fracassou num período em que a corrida aos armamentos se tornava cada vez mais preocupante. O sistema de segurança coletiva dependia da cooperação entre Estados que começavam a preparar-se para novas confrontações.

A resposta exige distinguir duas dimensões. A primeira diz respeito à arquitetura institucional. A Sociedade das Nações não dispunha de instrumentos próprios suficientes para impor decisões contra grandes potências. Dependia dos seus membros para executar sanções e assegurar qualquer resposta militar. A segunda dimensão era política. Mesmo os instrumentos previstos no Pacto não poderiam funcionar sem governos dispostos a utilizá-los. O artigo 16.º estabelecia consequências económicas e financeiras para os Estados que recorressem à guerra em violação de determinadas obrigações. Previa também que o Conselho recomendasse as contribuições militares necessárias à defesa dos compromissos assumidos. O problema era transformar essas disposições em medidas efetivas, coordenadas e suficientemente fortes.

Da Sociedade das Nações à ONU

O início da Segunda Guerra Mundial, em setembro de 1939, confirmou a incapacidade da Sociedade das Nações para impedir uma nova guerra europeia de grandes proporções. Algumas atividades administrativas e técnicas continuaram durante o conflito. Entretanto, os Aliados começaram a preparar uma nova instituição internacional. A Organização das Nações Unidas foi formalmente criada em 1945. A Sociedade das Nações seria dissolvida em abril de 1946, depois de ambas terem coexistido durante alguns meses. A nova organização incorporou algumas das experiências anteriores, mas introduziu alterações importantes. Entre elas, a criação de um Conselho de Segurança com poderes para adotar decisões vinculativas em determinadas circunstâncias. O sistema de votação também foi modificado. A unanimidade geral que caracterizara muitas decisões da Sociedade das Nações não foi reproduzida na Assembleia Geral da ONU. Contudo, a atribuição do direito de veto aos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança demonstrou que a nova organização continuava a reconhecer um papel especial às grandes potências.

Comissão internacional da Sociedade das Nações
Membros da comissão sobre o Muro Ocidental em 1930. Arquivo da Sociedade das Nações. Domínio público.

A Sociedade das Nações não conseguiu alcançar o seu principal objetivo: impedir uma nova guerra mundial. Mas a sua experiência contribuiu para transformar a maneira como os Estados concebiam a cooperação internacional. A ideia de uma organização permanente, dotada de órgãos próprios, procedimentos de negociação e responsabilidades na manutenção da paz, sobreviveu ao desaparecimento da instituição.

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