A corrida para o Senado no Michigan custou 278 milhões de dólares só em publicidade televisiva e digital, segundo a AdImpact, e quem ganhou foi Abdul El-Sayed, o candidato com menos dinheiro. O New York Times escreve que Abdul El-Sayed foi superado nos gastos tanto nas primárias como na eleição geral. Muito desse dinheiro serviu para levar os eleitores a olhar para o nome dele, para a religião e para as ligações que lhe atribuíam. Na noite da vitória, Abdul El-Sayed respondeu com uma frase sobre o preço da gasolina.
Ganhou com 52,4% dos votos quando estavam contados 95%, e a Associated Press deu a corrida por decidida às 2h27 de quarta-feira, hora da costa leste dos Estados Unidos. Sucede a Gary Peters. Sobre a composição do Congresso e a disputa eleitoral, o Arcana News publicou anteriormente uma análise das eleições intercalares. Como os dois lugares do Michigan no Senado já eram democratas, a vitória não altera o equilíbrio da câmara. Muda quem lá se senta, porque nunca antes tinha sido eleito um muçulmano.

Quem é Abdul El-Sayed antes do Senado
Nasceu a 31 de outubro de 1984, em Rochester Hills, no Michigan, filho de imigrantes egípcios, e o nome de registo é Abdulrahman Mohamed El-Sayed. Licenciou-se em Biologia e Ciência Política na Universidade do Michigan em 2007, foi bolseiro Rhodes, doutorou-se em Saúde Pública em Oxford e concluiu Medicina em Columbia, onde foi professor assistente de Epidemiologia. Em 2015, aos 30 anos, o presidente da câmara de Detroit, Mike Duggan, nomeou-o responsável pela saúde da cidade, o mais novo numa grande cidade americana nessa altura. Ficou até 2017 e saiu para disputar o governo do Michigan.
Perdeu essas primárias de 2018 para Gretchen Whitmer e ficou em segundo lugar. De 2023 a 2025 dirigiu o departamento de saúde, serviços humanos e veteranos do condado de Wayne e, em abril de 2025, lançou a candidatura ao Senado, sem dinheiro de comités de ação política e com um sistema público de saúde para todos como bandeira. Venceu as primárias de 4 de agosto com 48,5% dos votos, depois de Mallory McMorrow se retirar. Nunca tinha ocupado um cargo eleito.
Os ataques foram pelo nome e pela religião
Os ataques seguiram outro caminho. Trump chamou-lhe jihadista num comício em Port Huron e em publicações nas redes sociais, e sugeriu que teria de passar por um detetor de metais antes de entrar no Senado, segundo o Daily Beast. Ted Cruz chamou-lhe jihadista e membro da Irmandade Muçulmana. El-Sayed disse à Fox que nunca foi membro e que nunca será. A AP regista que Trump e outros republicanos procuraram ligá-lo a organizações terroristas sem provas e puseram em causa a sua lealdade aos Estados Unidos. Rogers, antigo agente do FBI, criticou ainda o que El-Sayed dissera sobre Israel e o Irão e sobre o 11 de setembro, e a sua ligação ao streamer Hasan Piker, segundo a CBS. Os republicanos tentaram também explorar tensões entre árabes e negros em Detroit, e Trump disse que qualquer negro ou judeu que o apoiasse estava louco, segundo a Al Jazeera. Os primeiros resultados mostraram El-Sayed com bom desempenho entre os eleitores negros da cidade.
Durante a campanha, Abdul El-Sayed não fez da possibilidade de ser o primeiro muçulmano no Senado um tema, segundo a Michigan Public. Na noite da vitória, falou da sua fé. E disse, segundo a AP, que o nome e a fé dele não eram a razão por que os eleitores não conseguiam pagar a gasolina.
A frente foi também dentro do Partido Democrata
Dentro do próprio campo democrata, a frente foi outra. Na primária, um grupo associado à AIPAC gastou mais de 30 milhões de dólares para tentar elevar Haley Stevens acima dele, sem êxito, e voltou ao Michigan nas últimas semanas da eleição geral. Dias antes do voto, Stevens exigiu que El-Sayed condenasse o anúncio de um grupo externo que ligava a ajuda militar a Israel ao aumento dos preços dos alimentos, e classificou-o de antissemita. Abdul El-Sayed respondeu que o anúncio não era dele e que discordava do conteúdo. No domingo, Stevens, que prometera apoiar o vencedor das primárias, apareceu ao lado de Rogers numa igreja de Detroit e anunciou o apoio a ele. Escreveu depois que fora uma decisão de consciência. Segundo o Daily Beast, a campanha de El-Sayed angariou nesse dia 2,4 milhões de dólares, o melhor dia do ciclo, número que não encontrei noutra fonte. O New York Times descreve a oposição de eleitores judeus e de democratas moderados à posição dele sobre Israel, e essa oposição não impediu a vitória.
O que os números dizem e o que não dizem
Os números do voto ajudam a separar o que se sabe do que se supõe. Os muçulmanos são cerca de 2% dos eleitores do Michigan, e cerca de nove em cada dez votaram nele, segundo o inquérito AP Voter Poll a mais de 4500 eleitores, que dá também perto de sete em dez entre os eleitores de origem árabe ou do Médio Oriente. Em Dearborn, onde vive a maior concentração de árabes americanos do país, a participação ultrapassou os 56%. Numa conta simples, e supondo que o resto votou em Rogers, 2% do eleitorado com nove décimos para um lado dão perto de um ponto e meio de vantagem. A vantagem rondava os seis pontos quando as televisões deram a corrida por decidida. A maior parte veio, portanto, de eleitores que não são muçulmanos e que votaram num candidato a quem o Presidente chamava jihadista.
Porquê? Nenhum destes números responde. Abdul El-Sayed ligou Rogers às tarifas e à guerra no Irão, que, segundo a NBC, fizeram subir os preços, e a CBS descreve um ambiente difícil para os republicanos, com uma guerra impopular e a gasolina cara. Rogers tentou afastar-se de ambas. Leio esta eleição como um caso em que a explicação que o nome oferecia perdeu para a que os preços ofereciam, e não consigo demonstrá-lo com o que está publicado: falta uma análise de voto que separe quem mudou de campo por causa do custo de vida de quem o fez por outra razão.
O Arcana News analisou também a nova relação de forças no Congresso.
Em janeiro, Abdul El-Sayed toma posse do lugar de Peters. O juramento será prestado perante o vice-presidente J. D. Vance, que preside ao Senado e atacou El-Sayed durante a campanha. Na noite da vitória, El-Sayed lembrou-lhe, segundo a AFP, que está constitucionalmente obrigado a fazê-lo.
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