História · Arcana News · Grutas de Longmen · Elian Morvane
Na Gruta Central de Binyang, em Longmen, há uma parede que guarda desde os anos trinta do século passado o desenho fantasma de uma cerimónia que já ali não existe. Os visitantes param diante dela sem perceberem bem o que veem: um retângulo de pedra mais lisa do que o resto, cercado por sulcos de cinzel que já não desenham nada, porque aquilo que desenhavam foi arrancado. Não há legenda que explique o vazio. Há apenas um contorno, e o eco do que ali esteve.
A poucos passos dali, ao anoitecer, o grande Buda Vairocana acende-se. Luzes escondidas na rocha sobem devagar pela pedra, como se o calcário se lembrasse, noite após noite, de ter sido esculpido. Dezassete metros de altura, um sorriso talhado há treze séculos, hoje emoldurado por um sistema de iluminação que Longmen vem aperfeiçoando desde 2007 e que se tornou, nos últimos anos, uma das principais razões pelas quais viajantes estrangeiros escolhem parar em Luoyang, ajudados por uma política chinesa de trânsito sem visto que multiplicou as chegadas de fora do país. Só em 2024, o sítio recebeu mais de sete milhões de visitantes.
As duas cenas pertencem à mesma história. A falésia que hoje se ilumina para ser fotografada foi, há um século, desmontada para ser vendida. Mudou também quem decide o que os estrangeiros veem.
Longmen ocupa cerca de um quilómetro de falésia calcária ao longo do rio Yi, a sul de Luoyang, capital sucessiva de treze dinastias e reivindicada como berço da civilização do Rio Amarelo. A escavação das primeiras grutas começou por volta de 494, quando o imperador Xiaowen, da dinastia Wei do Norte, transferiu ali a capital e trouxe consigo o mesmo impulso escultórico que já animava as grutas de Yungang, mais a norte, e que a China viria a completar, com as grutas de Mogao em Dunhuang, no triângulo clássico da escultura rupestre budista. A escolha de Longmen teve também uma dimensão política. Os Wei do Norte não eram etnicamente han: eram uma dinastia de origem estepária que, ao deslocar a corte para o coração cultural chinês, procurava legitimar-se aos olhos da população que governava. Longmen nasceu de devoção e de cálculo político.
Ao longo dos quatro séculos seguintes, sob dinastias sucessivas até à Tang, artesãos sem nome conhecido abriram mais de 2.345 grutas e nichos, talharam perto de cem mil estátuas budistas e gravaram mais de 2.800 inscrições na rocha. A UNESCO viria a inscrever o conjunto, em novembro de 2000, como um dos expoentes máximos alcançados pela escultura em pedra chinesa.
O momento mais ambicioso desse projeto coletivo pertence à dinastia Tang. Entre 672 e 675, sob o imperador Gaozong, foi escavado o Templo Fengxian, a maior e mais imponente das grutas de Longmen, dominada pelo próprio Vairocana. A tradição local atribui a obra, em larga medida, a uma mulher que na altura ainda era consorte imperial, mas já concentrava mais poder do que qualquer outra figura na corte: Wu Zetian, que terá custeado a escultura com uma soma que alguns cálculos atuais equiparam a mais de seis milhões de yuan. Há quem veja no rosto plácido e ligeiramente cheio do Buda um retrato dissimulado da própria imperatriz, então com quarenta e quatro anos.
A coincidência, se o for, estende-se ao nome. Vairocana significa, em sânscrito, algo como esplendor que ilumina. Duas décadas mais tarde, quando Wu Zetian se tornaria a única mulher da história chinesa a reinar em nome próprio, escolheria para si um carácter que os cronistas traduzem como o sol e a lua no céu. A dinastia Tang usava o mesmo instrumento que os Wei do Norte tinham usado dois séculos antes, a iconografia budista, já não para se legitimar perante os han, mas para afirmar a soberania de um império no auge. Em Longmen, o poder esteve sempre talhado à vista de todos.
A escavação e a escultura de Longmen cessaram depois da dinastia Tang. No final do século XIX, estudiosos ocidentais percorreram uma China enfraquecida e sob pressão das potências estrangeiras, redescobriram as grutas e publicaram os primeiros estudos fotográficos do conjunto. Essas publicações despertaram fora da China um interesse internacional pela qualidade artística de Longmen. Décadas depois, esse interesse criaria a procura capaz de tornar o desmonte de Binyang um negócio viável.
A Gruta Central de Binyang, aberta por volta do ano 500 por ordem do imperador Xuanwu em memória dos pais recém falecidos, o imperador Xiaowen e a imperatriz-mãe Wenzhao, guardava nas suas paredes dois grandes relevos que os retratavam em procissão solene rumo ao Buda: de um lado Xiaowen e o seu séquito, do outro Wenzhao e o dela. Sobreviveram intactos cerca de mil e quatrocentos anos, através de dinastias, guerras e do abandono comum a quase todo o património chinês fora dos grandes centros administrativos. Não sobreviveram à década de 1930.
Foi então, num país fragmentado por senhores da guerra e sem autoridade central capaz de proteger os próprios monumentos, que um antiquário de Pequim chamado Yue Bin recebeu encomendas de compradores estrangeiros e organizou o desmonte sistemático dos dois relevos. Picados a marreta e a cinzel, os painéis foram reduzidos a mais de seis mil fragmentos.
Cerca de quatro mil atravessaram o Pacífico e acabaram divididos entre dois museus norte-americanos, o Metropolitan, em Nova Iorque, que ficou com o essencial da procissão de Xiaowen, e o Nelson-Atkins, em Kansas City, que recebeu a maior parte da procissão de Wenzhao. Os restantes, mais de dois mil pedaços, ficaram em armazéns em Longmen. Estavam incompletos demais para permitir a reconstituição dos relevos, mas foram preservados pela sua importância.
Durante quase um século, essa dispersão pareceu definitiva. As duas procissões passaram a existir como peças de museu, catalogadas, iluminadas em vitrines próprias, admiradas por visitantes que muitas vezes desconheciam de onde vinham exatamente ou o que faltava do outro lado do oceano. Em Longmen, a parede continuou vazia.
Na última década, a digitalização tridimensional tornou possível reunir virtualmente os fragmentos sem alterar a sua posse.
Desde 2017, a Academia de Longmen associou-se à Universidade de Harvard e ao próprio Metropolitan Museum para um projeto de digitalização tridimensional de todos os fragmentos conhecidos, esteja onde estiver cada um. À parceria juntaram-se depois a Universidade de Chicago e a Universidade Jiaotong de Xi’an. Nos armazéns do Nelson-Atkins, um braço laser percorre lentamente a superfície de um fragmento de calcário do tamanho de uma mão, milímetro a milímetro, registando cada sulco que um cinzel deixou há mil e quinhentos anos e cada fratura que uma marreta deixou há menos de cem. A máquina não distingue entre as duas violências. Regista apenas a forma.
Fotografias antigas, algumas tiradas por sinólogos e colecionadores ocidentais nas primeiras décadas do século XX, antes ou durante o saque, servem hoje de referência para reconstituir traços que já não existem em pedra nenhuma. Em 2023, a procissão de Wenzhao tornou-se o primeiro dos dois relevos a ser recomposto desta forma, não fisicamente, mas em modelo digital. Mais recentemente, um fragmento impresso em resina foi encostado, pela primeira vez fora de um ecrã, à parede esculpida quinze séculos antes, e o encaixe correspondeu em mais de nove décimos à superfície original, um resultado que os próprios investigadores descreveram como o mais próximo a que alguma vez chegaram de ver a gruta inteira outra vez.
A colaboração contém uma contradição. Algumas das instituições que hoje ajudam a reunir digitalmente os fragmentos são as mesmas que os compraram há um século, quando a China não tinha meios nem margem diplomática para recusar. Nenhuma pedra regressou fisicamente a Longmen. A academia chinesa recebe imagens, medições e modelos reconstituídos; os museus conservam as peças. É uma reunião sem restituição, e o projeto não alterou a posse dos relevos.
Longmen também não deu origem a um dos grandes litígios de restituição que dominam o debate internacional sobre património, como os mármores do Partenon ou os bronzes do Benim. Não há uma exigência formal de devolução nem um processo diplomático conhecido. A Academia de Longmen colabora tecnicamente com as instituições americanas que guardam os fragmentos. A opção permite reconstituir os relevos e deixa a questão da propriedade por resolver.
Entretanto, a China passou a controlar de forma mais deliberada a apresentação ao mundo do património que permanece em Longmen: as luzes desenhadas para o Vairocana, os corredores multilingues, os vistos facilitados a quem entra em trânsito e as estatísticas de visitantes divulgadas com orgulho. Há um século, compradores estrangeiros determinavam o que saía das grutas. Hoje, Pequim organiza a forma como os visitantes chegam e aquilo que encontram.
Ao anoitecer, junto ao Vairocana, um visitante levanta o telemóvel e fotografa o sorriso iluminado. A poucas grutas dali, a parede de Binyang continua vazia. Os relevos voltaram a encaixar num ecrã, entre Nova Iorque, Kansas City e Luoyang, mas não regressaram à pedra.
Funcionalidade Google
Fontes preferidas disponíveis em Portugal.
A nova opção permite selecionar publicações para surgirem com maior frequência em pesquisas noticiosas relevantes.



Comentar como Convidado