Linha editorial: Contexto · História · Estados Unidos · 250 anos da independência americana
O voto de 2 de Julho de 1776 e os seis lugares da independência americana
250 anos depois, a data errada continua a ser celebrada
Os Estados Unidos celebram o 4 de Julho, mas a independência foi decidida a 2 de Julho. Foi nesse dia, na Pennsylvania State House — o edifício que hoje se conhece como Independence Hall —, que o Segundo Congresso Continental votou favoravelmente a separação das treze colónias da coroa britânica. O texto que formalizava essa decisão, a Declaração de Independência, só foi formalmente adoptado dois dias depois, a 4 de Julho, depois de sucessivas revisões ao rascunho de Thomas Jefferson. A leitura pública do documento aconteceu ainda mais tarde: a 8 de Julho. Três datas, três atos distintos, um só edifício — e é o primeiro desses atos, o voto, que faz hoje exatamente 250 anos.
O essencial deste artigo
- A independência dos EUA foi votada a 2 de Julho de 1776, não a 4.
- A Declaração de Independência foi adoptada a 4 de Julho, e lida publicamente pela primeira vez a 8 de Julho.
- O rascunho da Declaração foi escrito na Graff House, não em Independence Hall.
- A independência decidiu-se também pela força, em Lexington (1775) e no Forte Sullivan (1776).
- O mesmo edifício, Independence Hall, acolheu também a Constituição dos EUA, em 1787.
Onze anos depois, o mesmo edifício voltaria a ser palco de uma decisão de peso equivalente. Em 1787, os delegados dos estados reuniram-se ali para substituir os Artigos da Confederação, que se tinham revelado insuficientes para governar a nova nação, por uma constituição federal. Cinquenta e cinco delegados participaram nos debates; trinta e nove assinaram o documento final, a 17 de Setembro de 1787.
Onde a independência se decidiu por via política
Em Setembro de 1774, quase dois anos antes do voto, os delegados de doze das treze colónias — só a Geórgia ficou de fora — reuniram-se no Carpenters’ Hall para o Primeiro Congresso Continental, convocado em resposta ao bloqueio britânico do porto de Boston e às chamadas Leis Intoleráveis. Entre os presentes contavam-se John Adams, Samuel Adams, Patrick Henry e George Washington. Desse encontro resultaram os Suffolk Resolves — uma lista formal de queixas contra a coroa —, um embargo comercial britânico, um pedido de revogação das Leis Intoleráveis dirigido ao próprio Rei Jorge III, e uma declaração de direitos coloniais.
Quase dois anos depois, foi ainda no Carpenters’ Hall que a Conferência Provincial da Pensilvânia declarou formalmente a separação do Império Britânico, dando origem à Commonwealth da Pensilvânia — um ato que também celebra em Junho de 2026 os seus 250 anos.
A poucos metros de Independence Hall fica a Graff House, também chamada Declaration House, uma casa georgiana de três pisos arrendada a Jacob Graff Jr. Foi ali, e não em Independence Hall, que Thomas Jefferson escreveu o rascunho da Declaração de Independência. A distância física entre os dois edifícios é curta; a distância simbólica costuma desaparecer da memória pública, que tende a atribuir a Independence Hall também a autoria do texto, e não apenas a sua aprovação.
Boston contribuiu para a independência por uma via distinta: a da justiça. A 5 de Março de 1770, uma confrontação entre colonos e soldados britânicos junto à Custom House de Boston terminou com as tropas a disparar sobre a multidão, matando cinco pessoas, entre elas Crispus Attucks. O julgamento dos soldados decorreu na Old State House, e coube a John Adams a defesa dos militares acusados, numa cidade que exigia a retribuição imediata. Adams venceu o caso, com um argumento que se tornaria o princípio estrutural do sistema judicial americano: “É de maior importância para a comunidade que a inocência seja protegida do que que a culpa seja punida.“
Onde a independência se decidiu pela força
A 18 de Abril de 1775, o general britânico Thomas Gage, governador de Massachusetts e comandante de mais de três mil soldados, recebeu ordens para desarmar os colonos rebeldes e prender os líderes do movimento. Paul Revere cavalgou nessa noite para avisar a população de que “os britânicos vinham”. Na manhã seguinte, a 19 de Abril, as forças britânicas encontraram a milícia colonial em Lexington Common. O capitão John Parker terá encorajado os seus homens com a frase “Mantenham a posição; não disparem a menos que disparem sobre vós, mas se querem a guerra, que comece aqui.” Um tiro partiu — a origem exata continua disputada entre historiadores britânicos e americanos até hoje — e desencadeou a batalha que ficaria conhecida como “o tiro ouvido em todo o mundo”.
Já depois do voto, a 28 de Junho de 1776, as forças navais britânicas tentaram cercar Charleston, na Carolina do Sul, através do assalto ao Forte Sullivan. O coronel William Moultrie comandou a defesa; a decisão determinante tinha sido tomada meses antes — construir o forte com troncos de palmito, suficientemente flexíveis para absorver o impacto dos canhões navais britânicos sem se estilhaçarem. A batalha durou dez horas; a frota britânica foi forçada a retirar-se para Nova Iorque. A palmeira passou a integrar a bandeira da Carolina do Sul. Entre os combatentes estava Francis Marion, que depois desta batalha passaria a liderar uma guerrilha nos pântanos da região, ao ponto de o general britânico Banastre Tarleton o ter apelidado de “raposa do pântano” — alcunha que a história reteve como “Swamp Fox”.
Cronologia — a independência americana
- 5 de Março de 1770 — Massacre de Boston.
- Setembro de 1774 — Primeiro Congresso Continental, Carpenters’ Hall.
- 18–19 de Abril de 1775 — Batalha de Lexington.
- 2 de Julho de 1776 — Voto da independência, Independence Hall.
- 4 de Julho de 1776 — Adopção da Declaração de Independência.
- Junho de 1776 — Declaração da Commonwealth da Pensilvânia, Carpenters’ Hall.
- 28 de Junho de 1776 — Batalha do Forte Sullivan.
- 8 de Julho de 1776 — Primeira leitura pública da Declaração.
- 17 de Setembro de 1787 — Adopção da Constituição dos EUA, Independence Hall.
Hoje, 2 de Julho de 2026, passam exactamente 250 anos sobre o primeiro desses actos — o voto, não a assinatura, não a leitura pública, apenas a decisão, tomada numa sala da Pennsylvania State House, de que treze colónias deixariam de responder perante uma coroa a quase seis mil quilómetros de distância.
Imagem: – Pexels / Pixabay
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