ANÁLISE · Geopolítica e Poder · Cuba / Estados Unidos · Pressão económica e sobrevivência de regime
Cuba e EUA: pressão máxima e sobrevivência do regime
O essencial deste artigo
Cuba e EUA: por que a pressão americana não derruba o regime
- A política americana para Cuba alternou entre o isolamento, abertura limitada e a pressão máxima sem produzir a mudança de regime esperada.
- A abertura de Obama procurou corroer o sistema por contacto, não reconciliar Washington e Havana sem condições.
- A crise cubana de 2026 combina o colapso energético, emigração, escassez, perda de legitimidade revolucionária e enfraquecimento dos aliados externos.
- O modelo aplicado à Venezuela não se transfere facilmente para Cuba: o regime cubano é mais coeso, menos transacional e menos dependente de um único líder.
- O problema central é a distância entre os objetivos americanos e os meios disponíveis para os atingir.
Em dezembro de 2014, Barack Obama e Raúl Castro anunciaram em simultâneo, de Washington e de Havana, o fim de mais de meio século de hostilidade declarada entre os dois países. Era a primeira vez desde 1959 que um presidente americano e um líder cubano falavam diretamente para chegar a um acordo. A notícia surpreendeu o mundo. Surpreendeu também muita gente dentro dos próprios governos.
Onze anos depois, Cuba está na pior crise económica da sua história recente. Os EUA voltaram à política de pressão máxima. E o regime que Washington tem tentado derrubar, conter, seduzir, sancionar e isolar durante seis décadas e meia continua no poder.
Como se chegou aqui
A política americana em relação a Cuba foi, desde o início, construída sobre uma premissa: que a pressão económica e o isolamento diplomático criariam condições internas que forçariam a mudança. Durante a década de 1960, essa premissa foi combinada com operações encobertas, culminando no desastre da Baía dos Porcos em 1961. A Crise dos Mísseis de 1962 trouxe um elemento novo: Kennedy comprometeu-se a não invadir Cuba como parte do acordo que pôs fim à confrontação nuclear. A opção militar direta saiu formalmente da mesa.
Nos anos 1970, as administrações republicanas e democratas exploraram graus variados de aproximação — a de Carter foi a mais determinada nessa direção. O padrão dominante manteve-se: embargo económico, isolamento diplomático e a expectativa de que o regime acabaria por ceder ou colapsar sob o peso das suas contradições.
Cuba sobreviveu ao fim da União Soviética, atravessando o Período Especial dos anos 1990 — uma crise de privação severa que reduziu drasticamente o consumo, o transporte e a disponibilidade de bens básicos. Sobreviveu também às tentativas de cooptação regional e ao escrutínio crescente dos seus próprios cidadãos.
A aposta de Obama
Por volta de 2014, a administração Obama chegou a uma conclusão diferente das anteriores: o isolamento estava a isolar os Estados Unidos mais do que Cuba. A ilha tinha encontrado parceiros alternativos — Venezuela, China, Rússia — e o embargo funcionava mais como argumento de legitimidade para o regime do que como alavanca de mudança.
A teoria por detrás da abertura não era de reconciliação incondicional. Era de pressão por outra via — criar condições para que os cubanos sentissem o poder corrosivo do acesso à normalidade, gerando uma procura interna por abertura que o governo cubano teria dificuldade em ignorar.
A visita de Obama a Havana em março de 2016 foi o ponto alto dessa aposta — e o momento que o regime cubano considerou demasiado longe. Fidel Castro identificou a iniciativa como uma ameaça e escreveu sobre isso publicamente. O governo cubano aceitou a normalização porque era extraordinariamente popular entre a população, mas resistiu em doses — não implementou as reformas económicas que o momento exigia e acabou por gerir a abertura com a mesma prudência defensiva com que sempre geriu qualquer sinal de mudança.
O que falhou — e de que lado
A janela Obama durou pouco mais de dois anos antes de a eleição de 2016 alterar o curso. O primeiro mandato de Trump reverteu progressivamente grande parte do que tinha sido negociado, com o endurecimento mais significativo a partir de 2019. Os sinais de deterioração eram já visíveis antes disso.
A pandemia reduziu o PIB em 10% só em 2020. O turismo desapareceu da noite para o dia. Uma reforma cambial mal executada agravou a inflação e a escassez. Em 2021, ocorreram os maiores protestos em Cuba em décadas. A emigração acelerou de forma sem precedentes — aproximadamente um em cada dez cubanos deixou o país, retirando ao tecido social da ilha precisamente as pessoas com mais energia e redes para alimentar qualquer processo de mudança interna.
A Venezuela, que fornecia cerca de 100.000 barris de petróleo por dia em condições subsidiadas, foi reduzindo esse apoio à medida que a sua própria economia colapsava. Quando, em janeiro de 2026, Nicolás Maduro foi capturado numa operação americana, Cuba perdeu cerca de 60% do seu fornecimento externo de petróleo. O México cortou igualmente. Cuba produz os seus próprios 40.000 barris diários, mas de qualidade demasiado baixa para funcionar eficientemente nas centrais elétricas.
O que a administração Trump está a fazer
A administração Trump chegou ao início de 2026 com a euforia do sucesso venezuelano. Rapidamente ficou claro que Cuba é um caso diferente. A Venezuela tinha fações em competição, uma eleição perdida que minava a legitimidade interna de Maduro, e interesses económicos que tornavam o cálculo transacional possível. Cuba tem 67 anos de poder unificado, nenhum recurso que motive interesse comercial americano imediato, e uma estrutura de Estado que não depende de um único indivíduo.
As sanções secundárias anunciadas a 1 de maio de 2026 são sem precedente no contexto cubano — pela primeira vez, investidores internacionais são ameaçados com perda de acesso ao sistema financeiro americano se mantiverem negócios com Cuba. A retórica militar oscilou. O secretário de Estado Marco Rubio sinalizou em fevereiro que as reformas económicas poderiam ser suficientes para melhorar a relação. Semanas depois, o presidente voltava a falar em “tomar Cuba”. Do ponto de vista de Havana, é uma política que oscila entre a negociação implícita e a ameaça explícita sem um mapa claro.
Os EUA mantêm a embaixada em Havana e os voos comerciais continuam. As remessas de cubanos no exterior continuam a ser uma linha de vida essencial para milhões de famílias.
O estado atual
A crise que Cuba atravessa em 2026 é considerada pior do que o Período Especial dos anos 1990 — não apenas pelos números, mas pela psicologia. As reservas de legitimidade do projeto revolucionário estão no nível mais baixo de que há memória. A geração que cresceu depois do colapso soviético não tem a mesma ligação sentimental às origens da revolução.
O governo aprovou medidas de abertura económica em 2022 e 2023 — autorização de pequenas empresas privadas com até 100 trabalhadores e liberalização parcial do setor privado — que chegam tarde e são implementadas num contexto de colapso energético e escassez generalizada. Raúl Castro, com 95 anos, mantém a presença nos bastidores. A liderança formal é coletiva mas sem figuras com autoridade suficiente para articular uma visão de futuro.
A China contribui principalmente com painéis solares para o setor energético. A Rússia tem a história mais longa mas não está em posição de travar uma confrontação com Washington para defender Havana. Nenhum dos dois lutará por Cuba.
O que fica é um Estado que sobreviveu a tudo o que lhe foi lançado durante 67 anos, numa situação económica sem paralelo recente, sem aliados capazes de o sustentar, sem a reforma interna suficiente para aliviar a pressão sobre a população, e perante uma política americana que ainda não encontrou a articulação entre os seus objetivos e os meios disponíveis para os atingir.
Imagem: – PeterKraayvanger / Pixabay
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