Análise · História · Portugal / Guiné-Conacri · António Lobato, cativeiro e segredo de Estado
António Lobato, o cativeiro e a fuga que nunca aconteceu
Na manhã de 22 de maio de 1963, sobre o Tombali, o segundo-sargento piloto-aviador António Lobato pediu ao colega de esquadrilha um favor comum entre os pilotos que voam em par: que passasse por baixo do seu T-6 para lhe verificar o intradorso, atingido momentos antes por fogo vindo de terra. Era uma manobra de precaução, pensada para o proteger. Os dois aparelhos colidiram no ar. O outro piloto despenhou-se na selva e morreu. Lobato, com o avião danificado, conseguiu ainda fazer uma aterragem de emergência numa bolanha — um desses campos alagados, próprios do cultivo do arroz, que pontuam a paisagem da Guiné como espelhos de água parda.
Não teve tempo de sair sozinho do cockpit. A população local, próxima do PAIGC, chegou primeiro. Foi atingido por dois golpes de catana, um na testa, outro nas costas, antes de ser entregue a um grupo de guerrilheiros. A pé, ferido, foi conduzido para o território da vizinha República da Guiné-Conacri — um país que, oficialmente, Portugal nem sequer reconhecia estar em guerra com ele.
Tinha vinte e cinco anos. A mulher, Maria dos Anjos, com quem casara oito meses antes, ficou em Bissau sem saber se era viúva.
Depois de conduzido até Sansalé, onde recebeu tratamento aos ferimentos, Lobato foi levado a bordo do Bandim — um barco da Sociedade Comercial Ultramarina capturado pela guerrilha — até Boké, onde foi sujeito a um interrogatório prolongado. Queriam saber sobre o regime político em Portugal, a situação nas colónias, o estado de espírito das tropas. Deu o nome, a patente, o número; para o resto, escolheu o silêncio. Ferido na cabeça e nas costas, sem saber ainda se sairia vivo daquela sala, começava a exercer a disciplina que o acompanharia durante os anos seguintes.
Em Bissau, não havia morte confirmada nem captura confirmada — apenas um avião que não regressara e um marido que, segundo Maria dos Anjos viria a recordar-se, passara a noite anterior a conversar com ela sem saber que se despedia.
Foram sete anos e meio de cativeiro na Guiné-Conacri, sob o regime de Sékou Touré, primeiro em Boké, depois numa prisão em Kindia, onde a cela de Lobato tinha um número gravado na porta de ferro — o sete que daria, décadas depois, o título a uma série sobre a sua vida. A história costuma ser contada como uma história de resistência. Lobato teve também de aprender a nunca vacilar sobre quem era, mesmo quando vacilar teria sido mais fácil, mais barato e, nalgumas ocasiões, a única forma de escapar.
Foi-lhe oferecida a liberdade mais do que uma vez. Bastava assinar uma declaração contra a guerra portuguesa em África. O próprio dirigente máximo do PAIGC, Amílcar Cabral, que o visitou na prisão, chegou a propor-lhe asilo no estrangeiro em troca do repúdio público das missões que tinha cumprido. Lobato recusou sempre. A frase que usava para explicar a recusa não invocava a pátria em abstrato nem o juramento de bandeira, embora ambos contassem. Invocava uma praça concreta, numa aldeia concreta: «Com que cara é que eu apareceria no largo da minha aldeia?»
Um homem preso a sete mil quilómetros de casa, sem jornais fiáveis, sem correio regular, sem forma de confirmar que a aldeia ainda pensava nele, recusava a liberdade em nome da forma como seria recebido numa praça que talvez já nem se lembrasse do seu nome. Mantinha uma única versão de si próprio perante um interlocutor com todo o poder para a destruir e todo o incentivo para o convencer de que já não importava.
Geraldino Marques Contino, o Dino, companheiro de cárcere, preso durante três anos na mesma Guiné-Conacri, escolheu outra forma de atravessar a prisão. Contaria mais tarde, a rir, que nunca sequer pensara em fugir — para onde fugiria, perguntava ele próprio. A sua estratégia fora aligeirar: aceitar o quotidiano da prisão como um contratempo a atravessar com a menor dureza possível, não como um campo de batalha para uma versão de si mesmo. Lobato escolheu o oposto. Não porque a via de Dino fosse cobarde — Lobato não descreveu o cativeiro como uma sucessão de torturas físicas sistemáticas, embora tenha relatado maus-tratos, subnutrição, isolamento e ameaças de morte contínuas por parte de agentes do regime de Sékou Touré; a relação com os homens ligados ao PAIGC foi, nas suas próprias memórias, mais contraditória do que uma simples divisão entre vítima e carrascos —, mas porque a ideia de ceder, mesmo um milímetro, parecia-lhe custar mais do que os anos que isso lhe pouparia.
Três vezes tentou fugir. As duas primeiras terminaram depressa, capturado a poucos quilómetros da prisão. A terceira durou uma semana inteira — quase noventa quilómetros a pé, pela selva, através da cordilheira do Futa Djalon, a comer o que a mata oferecesse, a dormir sem saber se a próxima aldeia seria refúgio ou denúncia, a tentar alcançar a Guiné Portuguesa antes de ser reconhecido e devolvido à prisão. Foi reconhecido ao sexto dia. Seguiu-se mês e meio de isolamento total, sem contacto, sem luz suficiente, sem confirmação de que alguém, algures, ainda soubesse que ele existia — o preço de ter tentado, mesmo sabendo as probabilidades, escrever um final diferente para a sua própria história antes de alguém o escrever por ele.
A Operação Mar Verde combinava a libertação dos militares portugueses detidos em Conacri com a tentativa de desarticular política e militarmente o PAIGC, capturar Amílcar Cabral e favorecer a substituição do regime de Sékou Touré. Acabaria por falhar em vários dos seus objetivos estratégicos. Na madrugada de 22 de novembro de 1970, uma frota comandada pelo capitão-tenente Alpoim Calvão desembarcou na capital guineense disfarçada ao pormenor mais absurdo: fardas copiadas às do exército de Sékou Touré, armamento estrangeiro, meios navais descaracterizados, para que, se algo corresse mal, Portugal pudesse continuar a negar tudo com uma cara direita. Depois de uma noite de combates, com alvos falhados e objetivos parcialmente cumpridos, a frota retirou-se sem derrubar o regime que tinha ido desestabilizar. Libertou, porém, vinte e seis prisioneiros portugueses. Lobato, de longe o prisioneiro português há mais tempo detido, foi mencionado nominalmente nas comunicações trocadas durante a operação.
Já a bordo do LFG Dragão, por volta das quatro e meia da madrugada, um marinheiro colocou-lhe diante um enorme bife — uma das primeiras refeições a sério depois de anos de subnutrição.
Levaram-no depois ao palácio do governador da Guiné portuguesa. Deram-lhe banho e roupa lavada. O próprio Spínola, então governador, mandou-o vestir uma camisola de gola alta e uma gabardine, avisando-o de que ia para Lisboa, onde era inverno, e pedindo-lhe que devolvesse a gabardine depois, à sua mulher.
Quando o corpo começava a reaprender o que era comer, vestir e ser tratado como pessoa livre, explicaram-lhe que, oficialmente, a operação nunca tinha acontecido.
O Estado Novo não podia admitir ter invadido o território de um país com quem, no papel, não estava em guerra. Ordenou-se aos militares resgatados que contassem publicamente uma história diferente: tinham fugido, sozinhos ou em pequenos grupos, por meios próprios. Não uma operação secreta, mas uma fuga bem-sucedida. Lobato acabara de passar sete anos e meio a recusar-se a mudar a sua história para agradar a um captor e regressava a casa para descobrir que o próprio país lhe pedia que mudasse a história — desta vez para proteger não uma verdade, mas um segredo de Estado.
Não há registo de que tenha hesitado visivelmente perante o pedido. Contou a versão que lhe pediram para contar e manteve-a durante anos. A disciplina que o ajudara a sobreviver em Kindia servia agora o propósito inverso: já não resistir a uma mentira imposta de fora, mas sustentar uma mentira imposta pelos seus.
Durante o cativeiro, dizer a verdade sobre si próprio — a sua lealdade, o seu juramento, o seu país — era o ato de resistência. Depois do cativeiro, dizer a verdade sobre como fora libertado teria sido resistir ao poder a que permanecera leal. Essa verdade, agora, era ele quem tinha de calar.
Não se conhece nenhuma citação sua a comentar diretamente esta inversão — nem sequer no livro de memórias que escreveria décadas mais tarde, já depois da queda do Estado Novo. Em 1996, Lobato apareceu num programa da RTP dedicado à Operação Mar Verde e contou, com o próprio rosto e a própria voz, o que lhe tinha acontecido naquela madrugada de novembro. Um ano depois, uma reportagem do Expresso reuniu, em Lisboa, dezasseis dos outros militares que tinham estado presos consigo em Conacri. Havia vinte e sete anos que tantos deles não se sentavam à mesma mesa; já todos tinham o cabelo branco e alguns eram quase irreconhecíveis uns para os outros. Lobato publicara as memórias em 1995 e testemunhara na RTP em 1996, mais de duas décadas depois de fisicamente livre.
O livro chama-se, com uma economia que talvez não seja acidental, Liberdade ou Evasão. As duas palavras ficam lado a lado, sem que o título escolha entre elas, como se Lobato, ao sentar-se para escrever, ainda não tivesse decidido qual descrevia melhor o que lhe acontecera naquele dia de novembro: se fora libertado ou se apenas lhe tinham trocado a evasão que já vinha tentando havia anos por uma evasão finalmente bem-sucedida, só que executada por outros.
No fim das suas memórias, Lobato citaria o filósofo Emmanuel Mounier: falta uma dimensão ao homem que não conheceu a prisão. A experiência acrescentara uma forma de perceção, adquirida ao sustentar durante anos uma linha sob pressão e ao descobrir, depois, que a pressão podia vir também do poder a que se permanecera leal.
Depois de Kindia e dos anos em que sustentou publicamente a versão oficial, Lobato não se fixou numa única vida nova. Chegou a major antes de passar à reserva, mas também foi, em anos sucessivos, empresário, jornalista e gestor de uma empresa imobiliária. Quem passa sete anos e meio proibido de ser mais do que uma coisa — prisioneiro leal, nome, patente, número, nada mais — talvez precise, depois, de experimentar ser várias.
Lobato aceitou uma comissão civil nos Transportes Aéreos de Cabo Verde, onde viveu com Maria dos Anjos até 1975. Foi lá que voltou a cruzar-se com homens do PAIGC ligados ao movimento que o tinha mantido prisioneiro. Em plena avenida da Cidade da Praia, já com os dois filhos pequenos, reconheceu um grupo de cinco ou seis antigos guerrilheiros. Ambos os lados se abraçaram e conversaram. Um homem que recusara ceder um milímetro da sua história aos homens do movimento que o mantivera prisioneiro tratava agora antigos adversários como conhecidos, quase como se a firmeza sobre quem era não exigisse fixar para sempre quem os outros tinham sido.
Também nunca soube dizer se preferia que lhe chamassem herói. Repetia, com uma teimosia que os jornalistas notavam sempre, que a sua história «não tinha nada de especial» — como se ter sido mantido prisioneiro durante mais de sete anos, ter sido libertado por uma operação secreta que o seu país negou durante décadas e ter depois andado aos abraços com antigos adversários do PAIGC numa avenida de Cabo Verde fossem coisas que acontecem, de vez em quando, a qualquer pessoa. Passara sete anos e meio a resistir a um poder que lhe pedia que mudasse publicamente de posição e regressara para descobrir que o poder a que permanecera leal também precisava de que ele dissesse uma coisa diferente da que sabia ter acontecido.
Talvez fosse menos modéstia do que a última aplicação da mesma disciplina: a recusa em ceder à tentação de se deixar tornar, finalmente, numa história diferente daquela que sempre tinha sido a sua, mesmo que essa história nova fosse mais confortável, mais gloriosa, mais fácil de contar num largo de aldeia. Morreu em 2024, a escassos dias de completar oitenta e seis anos, sem nunca ter resolvido publicamente qual das duas versões — a fuga que contou primeiro, a libertação que só depois pôde revelar — lhe pareceu, no fim, a mais verdadeira sobre si próprio. Só a porta que Lobato descreveu nas suas memórias continua, na história que deixou escrita, com o número sete gravado no centro, sem precisar de decidir coisa nenhuma — a única testemunha daqueles anos que nunca teve de escolher, nem uma vez, entre contar a verdade e sobreviver a ela.
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