Os portugueses que aparecem quando a América ainda estava a nascer
Há uma forma fácil de contar esta história, e é quase sempre a pior: escolher meia dúzia de nomes portugueses, colocá-los ao lado da Revolução Americana, acrescentar Jefferson, Franklin, as rotas da caça à baleia, a maçonaria, judeus sefarditas, marinheiros açorianos, e concluir que Portugal esteve escondido na fundação dos Estados Unidos.
Portugueses na América inicial ciência diáspora e mar
Portugal não esteve no centro da fundação americana. Não escreveu a Declaração da Independência, não comandou exércitos continentais, não decidiu a Constituição de Filadélfia. Aparece nas margens vivas da jovem república: na diplomacia, na ciência, na comunidade judaica, no Atlântico baleeiro, nos portos, nos nomes mal preservados de marinheiros e soldados que raramente chegam às grandes narrativas nacionais.
O nome mais sólido é José Francisco Correia da Serra. Nasceu em Serpa, em 1750, foi padre, botânico, geólogo, fundador da Academia Real das Ciências de Lisboa e uma das inteligências portuguesas mais cosmopolitas do seu tempo. Viveu em Londres, passou por Paris, conheceu alguns dos grandes nomes científicos e políticos da Europa, e chegou aos Estados Unidos em 1812, quando a república americana ainda procurava definir o seu lugar no mundo.
Correia da Serra não chegou como emigrante anónimo nem como aventureiro. Chegou com capital intelectual. Tinha cartas de apresentação, reputação científica e uma curiosidade que parecia feita para Thomas Jefferson. A relação entre ambos tornou-se uma daquelas afinidades improváveis que só o século XVIII tardio e o início do século XIX pareciam capazes de produzir: um antigo presidente americano, agricultor, filósofo político e colecionador de ciência, fascinado por um abade português que trazia consigo livros, plantas, conversas e uma Europa inteira condensada numa cabeça.
Jefferson viu nele uma espécie de biblioteca viva. Monticello ainda guarda a memória dessa relação: há um quarto associado ao Abade Correia, sinal raro de uma intimidade intelectual que atravessou a cortesia diplomática. O português que ali entrava não representava apenas um reino distante. Representava uma cultura científica europeia que os Estados Unidos admiravam e queriam absorver.
Em 1816, Correia da Serra tornou-se ministro plenipotenciário de Portugal em Washington. Não era uma figura decorativa. Era o representante formal de uma monarquia atlântica antiga junto de uma república nova, num momento em que a América espanhola começava a romper com os impérios ibéricos e em que o Brasil se aproximava da independência. Portugal enviava a Washington um homem brilhante para defender os interesses imperiais num país onde crescia a simpatia pela emancipação das colónias americanas.
Correia da Serra estava entre dois tempos: o mundo imperial português, com o Brasil ainda no horizonte, e a ordem americana que começava a tratar o hemisfério como espaço próprio de influência. O seu mandato foi atravessado por neutralidade, corsários, navios, rebeliões e independências, no momento em que o Atlântico português começava a perder o equilíbrio.
A presença portuguesa na América inicial também passa pela comunidade judaica sefardita. Mordecai Manuel Noah, nascido em 1785, foi uma das figuras judaicas mais visíveis dos primeiros Estados Unidos: jornalista, político, diplomata, homem de teatro público, defensor de uma ideia precoce de refúgio territorial judaico na América. A sua ligação ao mundo português não deve ser inflacionada, mas também não deve ser apagada. A genealogia sefardita que chega à sua família passa por expulsão, conversão forçada, fuga da Inquisição e reconstrução de vida no Atlântico.
A figura decisiva nessa memória é Samuel Nunes, médico judeu de origem portuguesa que fugiu da Inquisição e chegou à Geórgia colonial no século XVIII. A partir dessa família, a herança portuguesa-sefardita entrou na história judaica americana. Não entrou como bandeira nacional. Entrou como sobrevivência: nomes, linhagens, práticas religiosas, redes familiares, memória de perseguição e capacidade de recomeçar.
Nem toda a herança sefardita é automaticamente presença portuguesa em sentido político. Mas a história dos judeus portugueses no Atlântico é uma das formas pelas quais Portugal, mesmo sem o querer, ficou inscrito na formação social e religiosa da América colonial e republicana. A Inquisição expulsou, perseguiu ou empurrou para a clandestinidade comunidades que depois reapareceram em Londres, Amesterdão, Curaçau, Nova Iorque, Filadélfia, Charleston e Savannah. O que Portugal perdeu como liberdade interna regressou ao mundo como diáspora.
Antes de haver uma grande comunidade portuguesa organizada em New Bedford, antes dos bairros açorianos, antes da imigração em massa ligada à baleação tardia e à indústria, já havia portugueses e homens das ilhas portuguesas a bordo de navios americanos. Açores, Madeira e Cabo Verde estavam nas rotas atlânticas. Os baleeiros americanos passavam, reabasteciam, recrutavam. Os homens embarcavam. Alguns regressavam. Outros ficavam. A história raramente preservou as suas biografias completas.
Esta parte exige mais cuidado do que entusiasmo. Nomes que aparecem em listas revolucionárias, registos de pensões, documentos militares ou reconstruções genealógicas não devem ser transformados automaticamente em heróis nacionais portugueses. Um apelido pode enganar. Uma origem atribuída pode estar incompleta. Uma classificação feita dois séculos depois pode juntar provas fortes e conjeturas frágeis na mesma página.
O Atlântico da Revolução Americana não era branco, inglês e terrestre. Era marítimo, mestiço, instável, povoado por marinheiros, escravizados fugidos, indígenas, africanos livres, trabalhadores portuários, homens das ilhas e tripulações que cruzavam impérios sem pedir licença aos mapas oficiais. Nesse mundo, a presença portuguesa não precisa de ser inventada. Precisa de ser procurada com método.
Correia da Serra existe na luz forte da correspondência, da diplomacia e da ciência. Podemos segui-lo quase passo a passo: Serpa, Roma, Londres, Paris, Washington, Monticello. A linhagem sefardita existe noutro regime de prova: genealogia, migração, religião, perseguição, reconstrução familiar. Os marinheiros e homens de cor associados a origens portuguesas existem muitas vezes num terceiro nível, feito de fragmentos: um nome, um navio, um registo de serviço, uma pista aberta por investigadores posteriores.
Colocar tudo no mesmo saco empobrece a história. Separar as camadas torna-a mais forte.
A presença portuguesa nos primeiros Estados Unidos não foi uma coluna triunfal. Foi uma constelação. Um cientista que encantou Jefferson. Uma diáspora judaica marcada pela memória portuguesa da perseguição. Homens do mar que entraram na América por portos, convés e registos incompletos. Uma diplomacia portuguesa obrigada a negociar com uma república que já pensava o hemisfério de maneira diferente dos velhos impérios.
É história atlântica: irregular, documentada em partes, perdida noutras, cheia de nomes que aparecem onde não esperávamos e de ausências que nenhum entusiasmo deve preencher à força.
Portugal não fundou os Estados Unidos. Alguns portugueses, descendentes de portugueses e homens vindos do mundo português estiveram lá quando a América ainda estava a decidir o que queria ser. Uns deixaram cartas. Outros deixaram linhagens. Outros deixaram apenas nomes. A tarefa séria não é transformá-los todos em monumento. É ouvi-los na escala certa.
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