A ordem surgiu horas antes do início do Ulchi Freedom Shield e mistura a relação de Trump com Pyongyang, a pressão sobre Seul por causa do Irão e a tentativa de recuperar uma diplomacia que fracassou no primeiro mandato. O exercício começou como previsto, mas Washington e Seul discutem agora que componentes serão reduzidos.
Trump manda reduzir os exercícios militares com a Coreia do Sul enquanto tenta reabrir canal com Kim Jong-un
Donald Trump ordenou no domingo, 16 de agosto, ao Pentágono que reduzisse substancialmente os exercícios militares conjuntos com a Coreia do Sul, poucas horas antes do início do Ulchi Freedom Shield. A decisão alterou uma das principais rotinas militares da aliança Washington-Seul. No dia seguinte, Trump afirmou também que Kim Jong-un tinha respondido às suas recentes iniciativas de aproximação, embora não tenha divulgado o conteúdo da resposta.
O exercício começou na segunda-feira, 17 de agosto, como previsto, e deverá prolongar-se até 27 de agosto. A ordem presidencial não determinou o cancelamento do exercício nem especificou quais as atividades a eliminar. Em 18 de agosto, o comandante das Forças dos Estados Unidos na Coreia, general Xavier Brunson, reuniu-se com responsáveis sul-coreanos para discutir a aplicação da diretiva.
Trump apresentou a relação com Kim, o custo dos exercícios e a posição de Seul sobre o Irão como razões para a decisão.
O que Trump ordenou — e o que ainda não mudou
O Ulchi Freedom Shield é um dos principais exercícios anuais dos Estados Unidos e da Coreia do Sul. O treino combina exercícios de posto de comando, simulações computacionais e atividades de campo e pretende testar a capacidade das forças aliadas para responder a diferentes cenários de crise e conflito na península. Este ano, cerca de 18 mil militares sul-coreanos participam no exercício. (reuters.com)
A presença militar americana na Coreia do Sul é muito maior do que o contingente diretamente envolvido no exercício. Cerca de 28.500 militares americanos estão permanentemente estacionados no país. Essa cifra não deve, portanto, ser confundida com o número de participantes no Ulchi Freedom Shield.
A ordem de Trump também não equivale a uma redução da presença militar americana na península. O que está em causa é a escala e a composição do treino conjunto.
A diretiva deixou margem para várias possibilidades: a redução de atividades de campo, alteração da participação de unidades, diminuição de determinados exercícios ou manutenção de uma parte substancial do treino através de simulações e exercícios de comando. Em 18 de agosto, não tinha sido divulgada uma lista definitiva das atividades canceladas.
O exercício começou na data prevista e continua a decorrer enquanto os dois aliados definem como executar a ordem americana.
A justificação de Trump coloca Seul no centro da disputa
Trump apresentou mais do que uma razão para a decisão.
Disse que os exercícios são dispendiosos, considerou que enviam um sinal hostil à Coreia do Norte e voltou a invocar a relação pessoal que mantém com Kim Jong-un. Na sua publicação, o presidente americano sustentou que Pyongyang tem mantido uma postura que considera pouco ameaçadora durante a sua presidência.
Mas Trump também ligou a decisão à guerra com o Irão.
Segundo o presidente americano, Washington pediu a Seul que participasse nos esforços dos Estados Unidos relacionados com o conflito e recebeu uma resposta negativa. Essa explicação deve ser atribuída a Trump. A Reuters confirmou que ele apresentou a recusa sul-coreana em participar nas ações americanas contra o Irão como uma das razões para reduzir os exercícios.
A posição sul-coreana é mais complexa. Seul tem procurado equilibrar a aliança militar com Washington, a situação na península e as suas próprias restrições políticas e jurídicas relativamente ao envolvimento no conflito iraniano.
A formulação mais rigorosa é, portanto, que Trump apresentou a falta de participação sul-coreana nos esforços americanos contra o Irão como uma das razões para a sua decisão de reduzir os exercícios.
A outra metade da decisão está em Pyongyang
A decisão teria importância mesmo sem qualquer iniciativa diplomática. Torna-se mais significativa porque Trump está simultaneamente a tentar recuperar a relação pessoal que construiu com Kim Jong-un no primeiro mandato.
Em 17 de agosto, Trump disse que Kim respondeu às suas aberturas diplomáticas. Não explicou, porém, o conteúdo da resposta, o canal utilizado ou se houve qualquer compromisso para iniciar negociações formais.
Trump não revelou o conteúdo da resposta e não foi anunciada qualquer nova reunião entre os dois líderes nem qualquer compromisso de Pyongyang sobre o seu programa nuclear.
A Presidência sul-coreana reagiu com cautela. O governo de Lee Jae-myung disse esperar que a relação entre Trump e Kim possa conduzir a um diálogo significativo entre Washington e Pyongyang e contribuir para a estabilidade da península.
Seul não está, portanto, a rejeitar a diplomacia com o Norte. O problema é saber em que condições essa diplomacia será conduzida e qual será o papel da aliança americana durante o processo.
Trump já tentou suspender os exercícios para abrir espaço a Kim
Durante o primeiro mandato, Trump encontrou-se três vezes com Kim Jong-un, em Singapura, Hanói e na zona desmilitarizada entre as duas Coreias. Depois da cimeira de Singapura, em 2018, os Estados Unidos suspenderam alguns exercícios militares de grande escala com a Coreia do Sul como parte da tentativa de reduzir as tensões e criar espaço para negociações.
A estratégia produziu uma aproximação política inédita, mas não conseguiu um acordo duradouro sobre o programa nuclear norte-coreano.
As negociações de Hanói, em 2019, terminaram sem entendimento. Pyongyang não aceitou a proposta americana de desmantelamento nuclear nos termos apresentados e o processo diplomático entrou posteriormente em colapso.
O significado da redução dependerá do que acontecer nas conversações com Pyongyang. Sem uma contrapartida norte-coreana, Washington terá reduzido parte do treino aliado sem obter, pelo menos publicamente, uma concessão em troca.
Kim Jong-un negoceia a partir de uma posição diferente
O país expandiu o seu arsenal nuclear e desenvolveu sistemas de mísseis capazes de ameaçar alvos muito distantes do território norte-coreano. Estimativas independentes apontam para várias dezenas de ogivas nucleares, embora o número exato permaneça desconhecido.
Ao mesmo tempo, Pyongyang aprofundou a relação com Moscovo e Pequim.
A Coreia do Norte enviou militares para apoiar a Rússia na guerra contra a Ucrânia e reforçou a cooperação estratégica com Moscovo. A relação com a Rússia dá a Kim Jong-un uma fonte adicional de apoio económico, militar e diplomático num momento em que as relações com Washington continuam bloqueadas. A aproximação entre Pyongyang e Moscovo voltou a ser destacada por ambos os lados em agosto.
A China continua igualmente a ser um parceiro essencial.
Em 2018, Washington ainda procurava fazer da desnuclearização o centro do acordo. Hoje, Kim negoceia com um arsenal maior e com relações mais estreitas com Moscovo e Pequim. Isso reduz a margem americana para esperar que a simples oferta de melhores relações leve Pyongyang a abandonar as suas armas.
O próximo problema será definir o objetivo de uma negociação
Uma futura negociação poderá tentar alcançar a desnuclearização completa, mas também poderá começar por objetivos mais limitados: congelar a produção de material nuclear, limitar a expansão do arsenal, estabelecer mecanismos de comunicação militar, reduzir o risco de escalada ou criar medidas de controlo sobre determinados sistemas de mísseis.
Nada disso significa que Washington tenha abandonado oficialmente o objetivo de desnuclearizar a Coreia do Norte.
Não existe ainda informação suficiente para afirmar qual será a fórmula de negociação que Trump pretende propor a Kim.
Essa questão será decisiva para avaliar se a nova abertura é apenas uma repetição da estratégia de 2018 ou uma tentativa de negociar com uma realidade nuclear que entretanto mudou.
A redução dos exercícios também tem um custo potencial para Seul
Para a Coreia do Sul, os exercícios não são apenas uma mensagem política dirigida a Pyongyang.
São também uma forma de manter as forças americanas e sul-coreanas preparadas para operar conjuntamente em caso de crise.
Os exercícios permitem testar procedimentos, cadeias de comando, comunicações e respostas a diferentes cenários. Também desempenham um papel na preparação da futura transferência do controlo operacional em tempo de guerra para uma estrutura liderada pela Coreia do Sul.
O presidente sul-coreano Lee Jae-myung reafirmou a importância da aliança com os Estados Unidos e, ao mesmo tempo, defendeu o reforço da capacidade de defesa autónoma do país. Lee tem apoiado uma maior responsabilidade sul-coreana pela própria defesa, incluindo a evolução da estrutura de comando militar.
Se Seul concluir que o calendário e a dimensão dos exercícios podem ser alterados unilateralmente por Washington, ganha força o argumento a favor de uma maior autonomia militar sul-coreana.
Não há, contudo, evidência de uma rutura da aliança. A cooperação militar entre os dois países continua.
O Irão revela uma estratégia americana mais transacional
Trump está a gerir simultaneamente duas crises nucleares de natureza diferente.
No caso iraniano, Washington optou por uma estratégia de forte pressão e ação militar. No caso norte-coreano, o presidente americano está a tentar reduzir uma fonte de tensão militar e a recuperar o diálogo pessoal com Kim.
Há uma diferença importante entre os dois dossiês: no caso da Coreia do Norte, a administração Trump está a lidar com um Estado que já possui armas nucleares e cuja capacidade militar se consolidou; no Irão, Washington continua a tentar impedir ou limitar a possibilidade de Teerão alcançar uma capacidade nuclear militar.
O problema surge quando Trump usa a segurança de uma aliança existente como instrumento de pressão sobre essa mesma aliada.
Foi isso que aconteceu agora com Seul: uma questão relacionada com o Irão foi incorporada numa decisão sobre a arquitetura militar da península coreana.
A dimensão económica também pesa
A relação entre Washington e Seul não se resume à defesa.
Trump tem insistido na ideia de que os aliados dos Estados Unidos devem assumir uma parcela maior dos custos da sua própria segurança. A Coreia do Sul tornou-se também um parceiro importante nos investimentos industriais americanos.
Os dois governos anunciaram, em 2025, um pacote de compromissos sul-coreanos nos Estados Unidos avaliado pela Casa Branca em 350 mil milhões de dólares. O acordo inclui investimentos em setores como a construção naval, energia, tecnologia e indústria. A dimensão e a execução desses compromissos têm sido objeto de disputa política entre os dois governos.
Não existe prova pública de que Trump tenha reduzido os exercícios especificamente porque considera insuficiente a execução desses investimentos.
O que existe é uma relação em que segurança, comércio, custos militares e investimento aparecem frequentemente ligados na abordagem do presidente americano aos aliados.
O que muda agora
O Ulchi Freedom Shield continua a decorrer. Não houve retirada das forças americanas da Coreia do Sul nem um cancelamento integral do exercício. A ordem de Trump obrigou os comandos americano e sul-coreano a rever a dimensão de algumas atividades, e as discussões para executar a diretiva começaram esta semana.
O efeito estratégico dependerá do que acontecer depois de 27 de agosto.
Uma redução limitada a determinadas atividades de campo terá um impacto diferente de uma alteração que passe a orientar os exercícios seguintes. Se estiver ligada a uma negociação efetiva com Pyongyang, a medida poderá também funcionar como concessão americana.
Por enquanto, não sabemos se essa troca existe.
O próximo passo é perceber o que Kim respondeu
Trump diz ter recebido uma resposta de Kim Jong-un. Falta saber o que Pyongyang respondeu e se existe a disponibilidade para retomar negociações.
O conteúdo dessa resposta será decisivo para perceber se a redução dos exercícios faz parte de uma estratégia diplomática ou se ficará limitada à relação entre Washington e Seul.
Para já, o Ulchi Freedom Shield continua a decorrer, embora com a sua dimensão a ser revista. A presença militar americana na Coreia do Sul mantém-se e não foi anunciado qualquer compromisso norte-coreano sobre o arsenal nuclear.
Washington e Pyongyang terão agora de mostrar se o contacto retomado produz uma negociação concreta. Sem isso, a redução dos exercícios continuará a ser sobretudo uma decisão americana, tomada antes de estar demonstrado que Kim Jong-un está disposto a fazer uma concessão em troca.
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