Moscovo e Kiev concordam sobre Oleshky numa coisa. O Kremlin, numa declaração ao New York Times, reconheceu uma catástrofe humanitária genuína na cidade, e Kiev descreve a mesma catástrofe. Mesmo assim, segundo a reportagem do jornal, nem sequer foi possível organizar um corredor humanitário em Oleshky.
Segundo as autoridades ucranianas, a responsável é a Rússia: ataca os drones que largam ajuda, intimida os residentes que recolhem o que chega e confisca comida. A acusação de usar os civis como escudos humanos é feita também por pessoas que saíram de Oleshky. Segundo o Kremlin, são as forças armadas ucranianas que impedem as pessoas de sair e usam drones para travar as entregas de comida e de água.
Corredor humanitário em Oleshky: as acusações
Se qualquer das versões fosse tomada à letra, o corredor humanitário em Oleshky teria um destinatário, a parte que fecha a saída. O ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano, Andrii Sybiha, dirigiu o seu pedido à ONU e ao Comité Internacional da Cruz Vermelha, a quem exigiu que encontrassem forma de retirar os civis em segurança. O Kremlin pronunciou-se em declaração ao próprio jornal. Nenhuma das duas formulações chega, nos factos disponíveis, à parte que cada uma acusa.
A reportagem diz ser impossível saber quem lançou as minas que ladeiam as rotas de saída: as forças ucranianas, para travar movimentos de tropas russas, as russas, para impedir que os civis partam, ou ambas. A hipótese de ambas as partes terem minado, que a reportagem não exclui, tornaria as duas acusações compatíveis quanto ao percurso que o corredor humanitário em Oleshky teria de seguir.

Minas, drones e entregas de ajuda
Kiev diz ter tentado entregar comida e medicamentos por drone, e tropas ucranianas afirmam que a Rússia intercetou parte dos lançamentos. Moscovo diz que os drones ucranianos servem para perturbar as entregas. A reportagem refere que as forças russas montaram em Oleshky posições de artilharia e de drones para atacar Kherson, e que as ucranianas atacam Oleshky a partir de Kherson. Os dois lados operam drones sobre a mesma cidade, e um drone avistado sobre Oleshky não indica, por si só, se leva comida ou se vem impedir que ela chegue. Kiev atribui a permanência dos cerca de 2.000 civis, 40 deles crianças, ao uso de escudos humanos. O Kremlin atribui-a ao facto de as forças ucranianas os impedirem de sair.
No debate sobre o corredor humanitário em Oleshky, Kiev diz que a fome está a ser usada como instrumento de coação. Segundo funcionários ucranianos, os russos confiscaram comida à medida que as reservas das suas próprias tropas diminuíam, e os residentes contam que por vezes viram soldados russos a revolver caves desabadas à procura de restos.

Uma catástrofe reconhecida pelos dois lados
Kiev e Moscovo reconhecem a catástrofe, cada um atribui ao outro o bloqueio da saída, e o corredor humanitário em Oleshky continua sem destinatário. Quem minou o caminho, de quem são os drones sobre a cidade, porque ficam os civis, se a fome é coação ou escassez: em todos estes pontos a reportagem dá factos compatíveis com mais de uma leitura ou declara a questão indeterminável. A matéria disponível não permite, neste momento, dizer qual das acusações é a verdadeira, nem se alguma o é. Segundo Tetiana Hasanenko, líder exilada da cidade, a última entrega de comida por estrada foi a 26 de maio.
O que exige uma passagem segura
Segundo o Comité Internacional da Cruz Vermelha, uma passagem segura depende de um acordo entre as partes sobre uma zona e um período determinados. Para o corredor humanitário em Oleshky, reconhecer a catástrofe é apenas o ponto de partida: falta assegurar condições concretas para a saída dos civis.
Para enquadrar a dimensão militar e diplomática da guerra, leia também o dossiê Rússia em guerra: adaptação e defesa europeia e a notícia sobre a proposta de cedência de Donetsk à Rússia.
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