Coreia do Sul: o corte pode ser sobre munições, não Kim

A capacidade americana de manter três compromissos simultâneos (Irão, Ucrânia, península coreana) já não é dada como garantida, nem sequer pelos próprios.

Economia

Elian Morvane
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Elian Morvane é analista do Arcana News, onde escreve sobre geopolítica, poder e relações internacionais. É autor de mais de trezentos artigos de análise e contexto, com foco nas dinâmicas europeias, na política institucional e nos processos de influência que raramente chegam às manchetes.
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Na quarta-feira, Seul e Washington confirmaram o que Donald Trump já tinha anunciado no Truth Social no domingo: o exercício conjunto Ulchi Freedom Shield 2026, que arrancou a 17 de agosto para durar 11 dias, termina esta sexta-feira, ao fim de cinco. Vários treinos de fogo real foram convertidos em simulações. É o maior corte a um exercício bilateral entre os dois países desde que Trump, no seu primeiro mandato, suspendeu os “war games” a seguir à cimeira de Singapura com Kim Jong Un, em 2018.

Cortar o exercício, poupar o arsenal: o que falta na explicação de Trump sobre a Coreia do Sul

A justificação oficial, nas palavras do próprio Presidente, tem três componentes: o custo do exercício; a recusa de Seul em participar no esforço americano contra o Irão; e uma relação pessoal “muito boa” com Kim Jong Un, que tornaria o exercício um sinal “totalmente inapropriado e hostil” à Coreia do Norte. O Pentágono confirmou a redução “por direção do Presidente e do Secretário da Guerra”, sem acrescentar critério nenhum sobre como a decisão foi tomada.

Esta é, literalmente, a segunda vez que Trump usa a mesma combinação de argumentos para o mesmo tipo de decisão. Em 2018, depois de Singapura, anunciou a suspensão dos exercícios dizendo que isso “pouparia uma quantidade tremenda de dinheiro” e classificando-os de “provocadores”. A poupança financeira e o gesto a Pyongyang não são inventados agora; são o guião que já usou uma vez. As razões podem ser verdadeiras e, ainda assim, não constituírem a explicação completa: um guião repetido tende a ser a versão que se apresenta ao público, não necessariamente a que pesou mais na decisão.

O gesto nem sequer produziu o efeito diplomático anunciado. Kim Yo Jong, irmã de Kim Jong Un, rejeitou publicamente o corte horas depois de conhecido, dizendo que a natureza do exercício continuava “provocadora e agressiva” independentemente da escala ou duração reduzidas. Se a recompensa diplomática é incerta — e a Coreia do Norte deixou isso claro no próprio dia — a explicação que aponta para Pyongyang fica menos segura.

Há outra explicação que nenhuma fonte oficial, americana ou coreana, colocou sobre a mesa esta semana e que se sustenta melhor nos números: os Estados Unidos estão, neste preciso momento, a gerir um arsenal de precisão visivelmente mais fino do que há seis meses. Os stocks de mísseis Tomahawk caíram para metade desde o início da campanha contra o Irão; os interceptores Patriot desceram 65%; os THAAD, 38%; os sistemas de mísseis táticos do Exército esgotaram-se por completo, segundo os dados já citados pelo CSIS e pela Reuters. O Ulchi Freedom Shield é um exercício de fogo real, com munições reais, combustível real e desgaste real de equipamento, envolvendo entre 18 e 20 mil militares sul-coreanos e forças dos cerca de 28 mil efetivos americanos permanentemente destacados na península. São recursos que um exército com stocks apertados tem incentivo direto para poupar — independentemente de qualquer cálculo sobre Kim Jong Un.

Lançamento de um míssil Tomahawk Block V a partir do contratorpedeiro USS Chafee, no Oceano Pacífico
Lançamento de um míssil Tomahawk Block V pelo USS Chafee, dezembro de 2020. Fotografia da Marinha dos EUA por Ens. Sean Ianno (DVIDS, domínio público).

Esta leitura não está confirmada por nenhuma fonte consultada. Nem um funcionário do Pentágono, nem um responsável sul-coreano, nem os especialistas citados pela imprensa esta semana ligaram o corte a escassez de munições. A inferência junta o desgaste de stocks revelado noutro contexto à decisão sobre a Coreia do Sul anunciada esta semana. Pode estar errada. Um exército que gastou metade do seu stock de Tomahawk numa única campanha regional tem, à partida, boas razões materiais para reduzir o consumo noutra frente, mesmo que nunca o diga em voz alta.

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A decisão sobre o Ulchi Freedom Shield foi anunciada precisamente quando o Ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang Yi, chegava a Seul para dois dias de reuniões com o Presidente Lee Jae Myung e o chefe da diplomacia sul-coreana, Cho Hyun; a primeira visita de Wang à Coreia do Sul em quase cinco anos, segundo a Bloomberg. O South China Morning Post foi direto: a decisão americana abre a Pequim uma janela estratégica para diluir as parcerias regionais dos Estados Unidos. Independentemente de a Casa Branca estar ou não a pensar em poupar mísseis, o efeito visível em Seul é o mesmo: menos exercício, menos compromisso demonstrado, mais espaço para Pequim se apresentar como parceiro estável numa região onde Washington acabou de parecer, publicamente, menos empenhado.

A mesma arquitetura de dissuasão que depende de stocks de precisão finitos para ser credível para Taiwan é, estruturalmente, a mesma que sustenta a presença americana na península coreana. Um analista de segurança coreana citado esta semana notou que reduzir exercícios como este pode “abrandar o processo de a Coreia do Sul assumir maior responsabilidade pela sua própria defesa e enfraquecer a dissuasão contra possíveis conflitos na Ásia”. Cada frente onde os EUA visivelmente aliviam a pressão material é uma frente onde um rival regional, com ou sem intenção americana direta, ganha margem.

Sistema de defesa antimíssil THAAD após a sua chegada à Coreia do Sul
Chegada dos primeiros elementos do sistema THAAD à Coreia do Sul, março de 2017. Fotografia do U.S. Forces Korea por Master Sgt. Jeremy Larlee (DVIDS, domínio público).

Um Presidente pode genuinamente querer abrir espaço a Kim Jong Un e, ao mesmo tempo, evitar gastar menos munições numa altura em que o inventário já está esticado por duas outras frentes; e ainda assim escolher explicar a decisão apenas pela primeira razão, porque é a que soa a diplomacia e não a limitação. A capacidade americana de manter os três compromissos simultâneos: Irão, Ucrânia e a península coreana, já não é dada como garantida, nem sequer pelos próprios.

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