O Que Njideka Akunyili Crosby Não Pintou

As telas da artista cruzam a Nigéria e os Estados Unidos. A história que ficou fora começa em Ughoton, onde Portugal entrou no Reino do Benim no século XV.

Economia

Aurelian Draven
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Aurelian Draven é correspondente e analista do Arcana News, onde escreve sobre conflito, segurança internacional e memória estratégica. É autor de mais de cem artigos de análise e inteligência, com atenção particular ao Médio Oriente, às zonas de tensão global e ao impacto de longo prazo das decisões de poder.
Guardados

As telas de Njideka Akunyili Crosby empilham Lagos, Londres e Los Angeles. Falta uma camada: a portuguesa, que começou num porto chamado Ughoton, três séculos antes de a Nigéria ter esse nome.

Numa tela de 2016, intitulada Mother and Child, uma mulher está sentada num sofá amarelo, vestida com um padrão triangular azul e amarelo. O mesmo desenho cobre a parede. Sobre ele aparece um grande retrato a preto e branco de uma figura com uma criança.

Njideka Akunyili Crosby constrói as telas através da transferência de fotografias, da colagem de tecidos e de camadas de acrílico que deixam visíveis partes das imagens anteriores. Cada fotografia perde nitidez durante a transferência. Os rostos, os interiores domésticos e os padrões permanecem reconhecíveis, embora já não apareçam inteiros.

Crosby nasceu em Enugu, na Nigéria, em 1983. Mudou-se para Lagos aos dez anos e para os Estados Unidos aos dezasseis, depois de a mãe ganhar um green card na lotaria norte-americana de vistos.

Dora Akunyili dirigiu a agência nigeriana do medicamento durante uma campanha contra a venda de fármacos falsificados. Foi depois ministra da Informação e candidata ao Senado. O seu rosto aparece nas telas da filha, impresso num tecido comemorativo da campanha eleitoral.

Njideka Akunyili Crosby e a camada ausente

Njideka estudou Biologia e Pintura em Swarthmore, formou-se em Belas-Artes na Pensilvânia e concluiu o mestrado em Yale. Recebeu a bolsa MacArthur em 2017, o chamado «prémio genial». No ano seguinte, uma das suas telas foi vendida por três milhões de dólares.

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A crítica anglo-americana lê frequentemente as suas composições a partir da herança colonial britânica na Nigéria. As fotografias de arquivo mostram uniformes, edifícios e revistas de moda que conservam essa presença.

Do Reino do Benim ao Atlântico português

O nome Nigéria foi cunhado apenas em 1897 pela jornalista britânica Flora Shaw. Mais de quatro séculos antes, em 1486, o explorador João Afonso de Aveiro chegara ao Reino do Benim, um Estado próspero situado no atual sul da Nigéria, e estabelecera relações diplomáticas em nome de D. João II.

Portugal instalou uma feitoria em Ughoton, o porto fluvial do reino, no ano seguinte. Manteve ali uma presença comercial durante cerca de três décadas, trocando têxteis, marfim e pimenta por ouro e, nos primeiros tempos da relação, também por pessoas escravizadas, até o oba do Benim restringir essas exportações.

Os Bronzes do Benim conservam sinais desse contacto. Entre as placas produzidas para a corte encontram-se representações de soldados portugueses, com mosquetes ao ombro, junto de figuras da nobreza local. Muitas dessas obras estão hoje dispersas por museus europeus e norte-americanos, no centro de debates sobre património, proveniência e restituição.

Detalhe de dois comerciantes portugueses representados numa placa de bronze do Reino do Benim
Outro registo da placa com comerciantes portugueses e manilhas, produzida no Reino do Benim no século XVI. © The Metropolitan Museum of Art, domínio público.

Essa presença não surge nas telas de Crosby. Pertence a um período demasiado remoto para aparecer diretamente nas fotografias de família, nos recortes de revistas e nos tecidos políticos usados pela artista. Ficaram, porém, as rotas comerciais, os materiais e os contactos entre aquela região africana e a Europa muito anteriores ao domínio britânico.

O tecido como arquivo incompleto

O tecido de cera que Crosby cola às telas é hoje identificado com a África Ocidental. Foi produzido por fabricantes holandeses no século XIX, a partir de uma técnica indonésia, e encontrou um mercado importante nos portos do Golfo da Guiné.

Os têxteis europeus já circulavam naquela costa no final do século XV. Os panos encontravam-se entre os produtos levados pelos portugueses para as trocas comerciais com o Reino do Benim. O tecido usado no retrato de Dora Akunyili pertence a uma história posterior, industrial e holandesa, mas chegou a uma região onde os têxteis importados tinham uma presença comercial antiga.

Saleiro de marfim do Reino do Benim com quatro figuras portuguesas esculpidas
Saleiro de marfim com figuras portuguesas, criado por um entalhador do Reino do Benim entre cerca de 1525 e 1600 para o mercado europeu. © The Metropolitan Museum of Art, domínio público.

A 6 de agosto de 1444, seis caravelas partidas de Lagos, no Algarve, regressaram com 235 cativos capturados junto ao banco de Arguim, na atual Mauritânia. O Infante D. Henrique assistiu a cavalo à distribuição dos cativos. Gomes Eanes de Zurara descreveu a cena e registou no relato o sofrimento das famílias separadas.

O edifício onde ocorreu essa distribuição existe ainda em Lagos e funciona como museu desde 2016. O local ficou associado ao primeiro mercado de pessoas escravizadas da Europa moderna e à participação portuguesa na formação do sistema atlântico de tráfico humano.

A feitoria de Ughoton surgiu algumas décadas depois, noutro território e noutra relação política. Também integrou a expansão marítima portuguesa que ligou portos europeus e africanos através do comércio, da diplomacia, da violência e da escravização.

Séculos mais tarde, a família de Crosby atravessou o Atlântico por decisão própria, depois de obter um visto através de um sorteio. Essa viagem pertence a um regime histórico diferente. A proximidade entre as duas travessias está no espaço atlântico percorrido, não nas condições em que ocorreram.

O tecido de cera não conserva uma memória única da forma como chegou a cada lugar. Passou pela indústria europeia, por técnicas asiáticas e pelos mercados da África Ocidental antes de se tornar um dos sinais mais reconhecíveis da identidade visual africana. É também um exemplo de como a memória histórica europeia continua a ser disputada através de objetos, arquivos e museus.

Nas telas de Njideka Akunyili Crosby, aparece como roupa, decoração doméstica, recordação familiar e material político. O rosto da mãe candidata permanece impresso num tecido cuja utilização atual já não revela, por si só, as rotas que o fizeram chegar ali.

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