Paquistão e Turquia entram na defesa da Arábia Saudita

O Acordo de Meca acrescentou-lhe um compromisso formal assinado pelo Paquistão e pela Turquia.

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A defesa da Arábia Saudita passou a incluir uma garantia formal do Paquistão a 17 de setembro de 2025: um ataque contra um dos países seria considerado um ataque contra ambos.

Onze meses depois, a Turquia juntou-se ao compromisso. Os três países assinaram o Acordo de Meca para a Defesa Conjunta a 7 de agosto de 2026. No final do mês, os ministros dos Negócios Estrangeiros, os ministros da Defesa e os chefes militares dos três Estados reuniram-se em Istambul.

Forças americanas continuavam na região. A Arábia Saudita mantinha o armamento comprado aos Estados Unidos e a dependência dos seus sistemas de defesa, informação e manutenção. O novo acordo acrescentava-lhe uma garantia vinda de Islamabad e Ancara, ainda por testar, mas já inscrita por escrito.

Em setembro de 2019, drones e mísseis atingiram as instalações petrolíferas de Abqaiq e Khurais, interrompendo temporariamente uma parte considerável da produção saudita. A operação alcançou o centro económico do reino sem provocar a resposta militar americana que Riade esperava.

Em 2022, os Houthis atacaram Abu Dhabi. A aliança dos Emirados com Washington permaneceu intacta, embora já não assegurasse a invulnerabilidade que a presença militar americana parecia prometer.

A guerra de 2026 trouxe o problema para outro nível. Quando os Estados Unidos e Israel atacaram o Irão, no final de fevereiro, os governos do Golfo opunham-se à decisão e não participaram na sua preparação. Teerão respondeu contra países que acolhiam forças americanas. O território saudita e as infraestruturas energéticas do reino ficaram expostos às consequências de uma guerra decidida fora de Riade.

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As capacidades americanas continuavam a ser essenciais à defesa do reino. A sua utilização, porém, dependia de decisões tomadas em Washington.

Militares americanos posicionam um lançador Patriot na Base Aérea de Al Dhafra, nos Emirados Árabes Unidos
Um lançador Patriot na Base Aérea de Al Dhafra, nos Emirados, em maio de 2021. Fotografia: Jao’Torey Johnson/Força Aérea dos EUA/DVIDS — domínio público.

A defesa da Arábia Saudita ganha outra garantia

A cooperação militar entre a Arábia Saudita e o Paquistão é antiga. Há décadas que envolve treino, contactos entre forças armadas, apoio económico e assistência financeira. Islamabad dispõe de forças numerosas e de capacidade nuclear; Riade fornece petróleo, investimento e ajuda a uma economia paquistanesa frequentemente pressionada pela falta de divisas.

Durante muito tempo, essa relação não precisou de uma garantia formal. A defesa da Arábia Saudita tinha nos Estados Unidos o seu centro principal.

O acordo assinado em Riade, em setembro de 2025, alterou essa distribuição. Segundo a declaração conjunta, qualquer agressão contra um dos países seria considerada uma agressão contra ambos. O texto integral não foi divulgado. Permanecem por esclarecer a resposta exigida, o processo para determinar a existência de uma agressão e o eventual alcance do compromisso a ataques contra infraestruturas petrolíferas, navios ou forças destacadas no exterior.

Riade passou, ainda assim, a dispor da promessa formal de uma potência nuclear não ocidental. Até então, a relação com o Paquistão permitira treino, cooperação e apoio. O novo acordo introduziu a possibilidade de assistência perante um ataque.

Foi assinado poucos dias depois de uma operação israelita no Qatar. A arquitetura de segurança do Golfo tinha sido organizada sobretudo para conter o Irão e os seus aliados. O ataque acrescentou outro risco: um Estado árabe podia ficar exposto às decisões militares de Israel sem ter a garantia de que Washington conteria o seu aliado.

Os Estados Unidos poderiam não responder a um ataque iraniano nos termos esperados por Riade, como acontecera em 2019. Poderiam também não impedir uma ação israelita contra outro parceiro árabe. A declaração conjunta com o Paquistão não identificava o país ou a força de que os signatários se comprometiam a defender-se.

A entrada da Turquia

A Turquia aderiu ao pacto em agosto de 2026 e levou para o entendimento uma indústria militar que produz drones, mísseis, veículos blindados, navios e aeronaves. As suas forças acumularam experiência operacional na Síria, no Iraque, na Líbia e no Mediterrâneo Oriental. Ancara pertence à NATO e, ao mesmo tempo, mantém relações próprias com Washington, Moscovo, Teerão e os governos árabes.

O Paquistão acrescenta dimensão militar, capacidade nuclear e décadas de cooperação com as forças sauditas. A Arábia Saudita dispõe do capital necessário para comprar equipamento, financiar produção conjunta e sustentar projetos que Islamabad ou Ancara teriam dificuldade em desenvolver sozinhas.

A 31 de agosto, ministros e chefes militares dos três países reuniram-se em Istambul no Comité Político e de Defesa Estratégica criado pelo Acordo de Meca. Tinham passado menos de quatro semanas desde a assinatura. O encontro iniciou o trabalho de consulta e coordenação previsto pelo pacto. Ministério dos Negócios Estrangeiros da Turquia

Não existe um comando militar integrado conhecido, uma estrutura comparável à da NATO ou um mecanismo público que obrigue automaticamente os três Estados a entrar em guerra. O texto completo do acordo não foi divulgado.

O Paquistão e a Turquia têm interesses próprios, limitações económicas e relações externas capazes de condicionar uma intervenção. A extensão da solidariedade anunciada em Meca só será conhecida quando um dos signatários pedir aos outros que arrisquem forças, dinheiro ou relações diplomáticas em sua defesa.

Antes desse teste, porém, um eventual atacante já tem de considerar a possibilidade de envolver três países. A Arábia Saudita pode igualmente recorrer a outras capitais quando Washington não quiser responder nas condições pretendidas por Riade.

Países que não formavam uma frente

Durante anos, a Turquia e o Qatar estiveram próximos de movimentos e governos que a Arábia Saudita considerava adversários. Ancara e Cairo apoiaram campos opostos na Líbia. Riade e Doha romperam relações durante o bloqueio iniciado em 2017. A Arábia Saudita e a Turquia disputaram influência política e religiosa no mundo sunita.

Em junho de 2026, os ministros dos Negócios Estrangeiros da Arábia Saudita, da Turquia, do Egito e do Qatar reuniram-se para aprofundar a coordenação sobre a segurança regional. O Egito e o Qatar não aderiram ao Acordo de Meca, e a consulta entre os quatro países não constitui uma garantia militar. Declaração conjunta dos quatro países

As divergências entre eles permaneceram. Perderam, contudo, prioridade perante o risco de cada um enfrentar isoladamente uma nova crise.

Os participantes mantêm relações diferentes com os Estados Unidos, a China, a Rússia e o Irão. Podem cooperar na defesa sem alinhar as respetivas políticas externas, competir noutros territórios e conservar canais com os adversários dos parceiros.

A Arábia Saudita juntou assim o pacto militar com o Paquistão e a Turquia a uma relação diplomática com o Irão.

O canal aberto com Teerão

Em março de 2023, a Arábia Saudita e o Irão concordaram em restabelecer relações diplomáticas e reabrir as embaixadas. A China acolheu o entendimento e anunciou-o ao mundo, entrando numa função que Washington tratara durante décadas como parte da sua posição no Golfo. Declaração trilateral de 2023

O acordo não resolveu a rivalidade. Riade e Teerão continuaram separados pelo Iémen, pelo Líbano, pela Síria, pelo programa nuclear iraniano e pelas redes armadas apoiadas pelo Irão. A guerra de 2026 e os ataques contra o território saudita expuseram os limites da reaproximação.

Quando o conflito começou, a Arábia Saudita pôde avisar diretamente o Irão de que novos ataques poderiam provocar uma resposta militar. O canal diplomático não impediu os ataques. Permitiu a Riade tentar limitá-los sem esperar por um entendimento prévio entre Washington e Teerão.

O acordo com o Paquistão e a Turquia aumenta o custo potencial de uma agressão. A relação diplomática com o Irão pode intervir antes desse momento, quando ainda é possível evitar ou conter a decisão de atacar.

Durante décadas, os Estados Unidos procuraram cumprir ambas as funções através da dissuasão. A sua superioridade militar deveria desencorajar um ataque e garantir uma resposta caso ele ocorresse. Os episódios de 2019 e 2026 mostraram a Riade que a capacidade de responder não assegura uma decisão favorável aos interesses sauditas.

Ataques abaixo do limiar de uma guerra

As bases aéreas, as frotas, os radares e as baterias antimíssil instalados no Golfo foram concebidos para impedir invasões, proteger rotas energéticas e conter o poder iraniano.

Os ataques que atingiram a Arábia Saudita não seguiram esse modelo. Um drone ou um míssil lançado por uma força não estatal pode alcançar uma refinaria sem provocar uma guerra aberta. Um navio pode ser atingido sem que o responsável seja imediatamente identificado. Uma operação limitada pode causar danos estratégicos sem ultrapassar o limiar que levaria os Estados Unidos a uma resposta militar.

Washington pode ter capacidade para destruir o atacante e decidir que o ataque não justifica o custo de uma guerra. A defesa saudita fica então dependente de uma decisão sobre a qual Riade tem influência, mas não controlo.

Os sistemas americanos continuam essenciais à defesa aérea e à recolha de informações. A Turquia oferece produção militar e experiência operacional. O Paquistão acrescenta profundidade estratégica. O Egito e o Qatar participam na coordenação política. A China mantém influência em Teerão. O próprio Irão conserva um canal diplomático com Riade.

Estas relações têm alcances e obrigações diferentes. Também não foram testadas em conjunto. A sua existência reduz, no entanto, as situações em que uma recusa americana deixa a Arábia Saudita sem outro interlocutor.

Navios da Marinha e da Guarda Costeira dos EUA atravessam o Estreito de Ormuz
Navios americanos atravessam o Estreito de Ormuz em agosto de 2023. Fotografia: NAVCENT Public Affairs/DVIDS — domínio público.

Washington deixa de ser a única porta

A dependência de um único protetor limita a capacidade de recusar operações, condicionar o uso das bases ou contestar decisões regionais. Outros fornecedores, acordos militares e canais diplomáticos não eliminam essa dependência, mas dão ao país protegido maior margem para negociar.

Grande parte das forças sauditas continua ligada a equipamento, manutenção, munições e apoio americanos. Substituir essa estrutura exigiria anos, custos elevados e uma reorganização militar profunda. Os novos acordos não mostram que Riade esteja a tentar fazê-lo.

Mostram que a dependência material já não será necessariamente acompanhada pela mesma dependência política.

O acordo com o Paquistão e a Turquia permite à Arábia Saudita recorrer a outros parceiros perante uma recusa americana. A relação com o Irão abre uma via que não depende de uma vitória militar dos Estados Unidos. A coordenação com o Egito e o Qatar oferece uma frente diplomática distinta da convergência entre Washington e Israel.

A garantia paquistanesa e turca ainda não foi posta à prova. Riade, porém, já dispõe de vários interlocutores onde antes dependia sobretudo de um.

O compromisso que ainda falta testar

Durante 35 anos, a Arábia Saudita comprou armamento americano e aceitou que a sua defesa externa tivesse em Washington o principal centro de decisão. A relação atravessou guerras, divergências políticas e mudanças presidenciais porque nenhum outro país oferecia uma proteção comparável.

Os Estados Unidos continuam a ser o parceiro militar mais poderoso do reino. O Acordo de Meca acrescentou-lhe um compromisso formal assinado pelo Paquistão e pela Turquia. A coordenação com o Egito e o Qatar e o canal diplomático com o Irão cumprem funções diferentes, sem formar uma aliança única.

O pacto pode falhar quando for posto à prova. Os signatários podem hesitar, limitar a ajuda ou descobrir que interpretaram de maneira diferente a obrigação de defesa comum. A ausência de um texto público impede saber até onde estão comprometidos.

Essa incerteza não apaga a decisão já tomada por Riade. Antes de saber se o Paquistão e a Turquia combaterão ao seu lado, a Arábia Saudita decidiu que a garantia americana já não deveria permanecer sozinha.

Washington continua no centro da defesa saudita. Deixou de estar sozinho nesse centro.

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