Mortalidade em kibutzim: o que revela o estudo israelita
Um estudo com mais de 1,2 milhões de israelitas, seguidos ao longo de trinta e um anos, encontrou um risco de mortalidade 75% mais alto entre quem vive numa cidade e não é ultraortodoxo, e 27% mais alto entre quem vive numa cidade e é. Ambos os grupos foram comparados com residentes de kibutzim. Segundo os autores, a religião não explica a diferença.
Aurelian Draven é correspondente e analista do Arcana News, onde escreve sobre conflito, segurança internacional e memória estratégica. É autor de mais de cem artigos de análise e inteligência, com atenção particular ao Médio Oriente, às zonas de tensão global e ao impacto de longo prazo das decisões de poder.
ANÁLISE · Humanas · Israel · Saúde e comunidadeUm estudo com mais de 1,2 milhões de israelitas, seguidos ao longo de trinta e um anos, encontrou um risco de mortalidade 75% mais alto entre quem vive numa cidade e não é ultraortodoxo, e 27% mais alto entre quem vive numa cidade e é, quando comparados com residentes de kibutzim. Segundo os autores, a religião não explica a diferença.
Israel organiza grande parte da sua vida coletiva em torno de uma fronteira: quem é religioso e quem não é. É essa linha que decide bairros, currículos escolares, isenções do serviço militar e boa parte do debate político do país. Um estudo com mais de 1,2 milhões de israelitas, seguidos ao longo de trinta e um anos, testou se essa mesma linha também decide quem vive mais e quem vive menos. A resposta que encontrou é que não decide.
Quem vive numa cidade israelita e não é ultraortodoxo apresenta um risco de morte 75% mais alto, ao longo da vida, do que quem vive num kibutz religioso. Entre os residentes urbanos ultraortodoxos, o risco é 27% superior. Estes dois números, por si só, poderiam sugerir uma leitura religiosa da menor mortalidade em kibutzim: os kibutzim religiosos protegeriam mais do que os seus equivalentes seculares, e a fé estaria por trás da diferença. Os próprios dados do estudo excluem essa leitura antes de ela se instalar.
O que explica a menor mortalidade em kibutzim
A diferença de mortalidade entre residentes de kibutzim religiosos e residentes de kibutzim seculares não é estatisticamente significativa. Um kibutz religioso e um kibutz secular apresentam valores de mortalidade mais próximos entre si do que qualquer um deles apresenta face às cidades dos respetivos campos sociais. Se a fé fosse o fator decisivo, essa proximidade não devia existir: um kibutz religioso deveria comportar-se, em termos de mortalidade, mais como uma cidade ultraortodoxa do que como um kibutz secular. Os números mostram o oposto.
A linha que separa quem vive mais de quem vive menos não é a mesma linha que separa, em Israel, quem reza de quem não reza.
O estudo, publicado no Journal of Religion and Health, foi conduzido por Ronit Pinchas-Mizrachi, Zvika Orr e Beth Zalcman, do Jerusalem College of Technology, com Ephraim Shapiro, da Ariel University. A investigação acompanhou, durante trinta e um anos, 1.246.159 cidadãos judeus israelitas nascidos entre 1940 e 1960, cruzando dados do registo populacional, do Ministério da Saúde, da Autoridade Tributária e dos registos escolares — quatro fontes administrativas independentes, não um inquérito de resposta voluntária, o que reduz a margem para viés de autorrelato sobre um tema como este.
A amostra incluía 4.081 residentes de kibutzim religiosos, 1.959 de kibutzim seculares, 62.674 de comunidades urbanas ultraortodoxas e 1.177.445 de comunidades urbanas não ultraortodoxas. Os próprios autores reconhecem que ainda é necessário isolar melhor o peso de fatores como o tabagismo, a idade e o género: os dados mostram uma correlação que se manteve ao longo de três décadas, não o mecanismo exato que a produziu. É uma diferença que vale a pena manter presente ao longo de todo o argumento — o estudo estabelece que o kibutz protege mais do que a cidade, não estabelece ainda, com o mesmo rigor, porquê.
A hipótese avançada pelos investigadores concentra-se na coesão social, não na fé. Mesmo depois de décadas de mudança, um kibutz continua a ser um lugar onde as pessoas se conhecem, partilham alguns espaços, tomam decisões em conjunto e envelhecem entre vizinhos que acompanham grande parte das suas vidas. As cidades israelitas, ultraortodoxas ou não, também têm redes comunitárias — a comunidade ultraortodoxa urbana, em particular, é conhecida pela densidade das suas próprias redes de apoio mútuo —, mas não necessariamente com a mesma continuidade geográfica: um residente de kibutz tende a manter os mesmos vizinhos, os mesmos espaços comuns e as mesmas rotinas partilhadas ao longo de décadas, de um modo que a mobilidade normal de uma cidade não reproduz com a mesma facilidade.
Colonos de Ein Guev, assentamento coletivo junto ao Mar da Galileia, fotografados entre 1934 e 1939. A coesão destas comunidades é o fator que o estudo associa à menor mortalidade.
O modelo de vida associado a essa menor mortalidade, porém, mudou profundamente — e é aqui que a análise se complica.
O primeiro kibutz foi fundado em 1910, perto do Mar da Galileia.
O Mar da Galileia, junto ao qual foi fundado, em 1910, o primeiro kibutz. Fotografia: American Colony Photo Department / Matson Photograph Collection, Library of Congress.
O projeto assentava na ausência de propriedade privada, na distribuição coletiva do trabalho, nas refeições comuns e, durante parte da sua história, na educação coletiva das crianças. Em 1989, os kibutzim chegaram a reunir 129 mil membros, perto de 2% da população israelita. Foi dentro desse modelo, ou de uma versão próxima dele, que envelheceu a geração nascida entre 1940 e 1960 que o estudo acompanha.
Existem hoje cerca de 259 kibutzim seculares e 24 religiosos. A maioria privatizou salários, propriedade e serviços antes comuns, incluindo muitas das suas cantinas coletivas. Segundo estimativas recentes, trinta ou menos continuam a funcionar de acordo com o modelo cooperativo clássico que a geração estudada conheceu. A distância entre o kibutz que produziu estes números e o kibutz que existe hoje não é pequena.
É essa distância que fecha, e ao mesmo tempo reabre, a pergunta com que este estudo começa. Sabemos agora que a linha entre viver mais e viver menos, em Israel, não coincide com a linha entre religião e secularismo — os próprios kibutzim, religiosos e seculares lado a lado, provam isso. Mas a vantagem que substitui a explicação religiosa pertence a uma estrutura social que, para a maioria dos kibutzim, já não existe da forma como existiu para a geração estudada. O estudo não permite saber se os kibutzim privatizados conservarão os fatores associados a essa menor mortalidade em kibutzim, nem quais desses fatores desaparecerão à medida que o modelo coletivo se dilui.
Os números que separam hoje quem vive mais de quem vive menos, em Israel, descrevem pessoas que envelheceram dentro de um mundo construído ao longo do século XX. Não dizem se essa mesma vantagem sobreviverá ao mundo que veio depois — um mundo em que cada vez menos kibutzim ainda são, no sentido em que este estudo os mediu, kibutzim.
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