Guerra no Iémen ameaça petróleo no Mar Vermelho
A conquista de Mokha pelos houthis aproxima o conflito do estreito de Bab al-Mandeb, expõe o fracasso das negociações iniciadas em 2022 e ameaça arrastar novamente a Arábia Saudita para uma guerra que nunca conseguiu vencer.
A conquista de Mokha não decide o conflito. Muda, contudo, a dimensão do perigo.
Durante quatro anos, a guerra permaneceu suspensa num equilíbrio frágil. Agora, o Iémen regressa à guerra sem que as causas do conflito tenham sido resolvidas. A trégua alcançada em 2022 reduziu a intensidade dos combates, mas deixou por resolver quase tudo: o controlo do território, a distribuição das receitas petrolíferas e o futuro político do país. Esse intervalo está a terminar.
A 10 de setembro, os houthis conquistaram Mokha, cidade portuária na costa do Mar Vermelho. O avanço aproximou o movimento do estreito de Bab al-Mandeb, por onde passa uma parte importante do comércio marítimo mundial, e devolveu o conflito iemenita ao centro da crise regional.
As forças do governo internacionalmente reconhecido lançaram, entretanto, operações nas províncias de Taiz, Al-Bayda e Al-Jawf. O objetivo anunciado é avançar sobre Saná, sob controlo houthi desde 2014. A Arábia Saudita respondeu aos ataques contra o seu território e as suas infraestruturas energéticas com novos bombardeamentos.
Há razões diferentes para combater e poucas razões para parar.
Mokha muda o alcance da guerra
Mokha vale sobretudo pela sua localização. A cidade permite vigiar o tráfego no sul do Mar Vermelho e reforça a presença houthi nas proximidades de Bab al-Mandeb, a passagem estreita que separa o Iémen do Corno de África.
Os houthis reivindicam igualmente o controlo de ilhas próximas, entre as quais Zuqar e o arquipélago de Hanish. Se consolidarem essas posições, ganharão capacidade para ameaçar navios comerciais, condicionar as exportações sauditas e elevar o custo de qualquer ofensiva destinada a desalojá-los.

A progressão ao longo da costa retirou ao conflito o pouco que ainda conservava de guerra interna. O que sucede no Iémen afeta diretamente uma das artérias do comércio mundial. A Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos inclui Bab al-Mandeb entre os pontos de estrangulamento marítimo essenciais à segurança energética global.
A ameaça surge num momento particularmente desfavorável para a Arábia Saudita. O transporte de petróleo através do estreito de Ormuz continua condicionado pelo confronto com o Irão, o que levou Riad a encaminhar uma parte maior das suas exportações pelo Mar Vermelho. Os houthis aproximam-se precisamente dessa alternativa.
A paz deixou os houthis sem dinheiro
A proximidade entre os houthis e Teerão é conhecida, mas não explica por inteiro as decisões do movimento. Os houthis têm uma base social própria, controlam território e respondem a pressões económicas que se formaram dentro do Iémen.
Depois de conquistarem Saná, em 2014, e de se instalarem em grande parte do norte do país, apresentaram a trégua de 2022 como confirmação da sua vitória. A interrupção dos combates, porém, não lhes deu acesso às receitas petrolíferas nacionais. Também não produziu o acordo político que poderia legitimar e financiar a administração dos territórios ocupados.
As condições de vida nessas zonas deterioraram-se. Acumularam-se salários em atraso, falhas nos serviços públicos e sinais de descontentamento. Governar uma população empobrecida, sem receitas suficientes e sem uma solução política à vista, tornou-se cada vez mais difícil.
A pressão militar serve, neste contexto, como instrumento negocial. Os houthis querem maior controlo sobre portos e aeroportos, o alívio das inspeções internacionais, compensações financeiras e a retirada completa das forças sauditas do Iémen.
Continuar à espera significaria administrar indefinidamente um território sem recursos suficientes. Uma nova ofensiva pode abrir caminho a concessões que as negociações não produziram.
O Irão ganha margem no Mar Vermelho
O valor dos houthis para o Irão está também no mapa. O movimento controla uma extensa faixa costeira junto ao Mar Vermelho e pode atingir uma rota cuja importância aumentou desde o início da guerra entre os Estados Unidos e o Irão.
Com o tráfego em Ormuz severamente limitado, a Arábia Saudita passou a depender mais dos terminais ocidentais e das rotas marítimas do Mar Vermelho. O bloqueio anunciado pelos houthis ao transporte saudita ameaça esse desvio.

Nem sequer seria necessário encerrar Bab al-Mandeb. O risco persistente de ataques pode aumentar os prémios dos seguros, afastar companhias de navegação, obrigar os cargueiros a percursos mais longos e forçar os adversários dos houthis a dispersar meios militares.
A instabilidade chega depois aos mercados energéticos. O aumento do preço do petróleo repercute-se nos transportes, na inflação e no custo dos combustíveis nos Estados Unidos. Teerão consegue assim exercer pressão sobre Washington através de uma guerra combatida a centenas de quilómetros das suas fronteiras. Esta articulação entre tecnologia, aliados regionais e ataque à distância surge também no Atlantic Lisbon, numa análise sobre os satélites chineses no Irão antes do ataque aos Estados Unidos.
O governo iemenita volta a acreditar numa ofensiva
O governo internacionalmente reconhecido nunca renunciou à recuperação de Saná nem à reunificação do país. Faltaram-lhe, durante anos, capacidade militar, coesão interna e apoio externo para transformar esse objetivo numa campanha viável.
A Arábia Saudita, principal financiador das forças governamentais, preferiu conter o conflito. Depois de uma intervenção dispendiosa e sem resultados políticos, Riad procurou reduzir a violência e negociar diretamente com os houthis. Essa prudência travou também os aliados iemenitas que pretendiam regressar à ofensiva.
Os ataques contra território saudita e o avanço na costa alteraram o cálculo. As forças governamentais veem uma oportunidade para recuperar posições, embora a reconquista integral do país continue distante.
O objetivo mais plausível passa por desgastar militarmente os houthis e afastá-los das zonas costeiras a partir das quais podem ameaçar a navegação. Um avanço desse tipo melhoraria também a posição do governo em futuras negociações.
Resta saber até onde Riad estará disposto a acompanhá-lo. O dinheiro, o armamento e a cobertura aérea continuam a depender, em grande medida, da decisão saudita.
Riad regressa a uma guerra da qual tentou sair
A intervenção saudita iniciada em 2015 tinha dois objetivos: impedir a consolidação dos houthis e restaurar o governo reconhecido internacionalmente. Não cumpriu nenhum deles.
A campanha prolongou a guerra, consumiu vastos recursos e contribuiu para uma catástrofe humanitária. Centenas de milhares de iemenitas morreram devido aos combates, à fome, às doenças e à destruição dos serviços essenciais. A reputação internacional da Arábia Saudita sofreu, enquanto os houthis continuaram a controlar Saná e grande parte do norte.
Em 2022, as autoridades sauditas mudaram de estratégia. Abriram negociações, procuraram acalmar a fronteira e tentaram separar os interesses do movimento dos objetivos regionais do Irão.
O resultado ficou aquém do pretendido. Não houve acordo político duradouro, as exigências houthis cresceram e os ataques contra cidades e instalações energéticas sauditas regressaram.
A escolha de Riad é ingrata. A ausência de resposta permitirá aos houthis consolidar posições junto de Bab al-Mandeb. O regresso a uma campanha militar em grande escala poderá prender o reino ao mesmo conflito do qual tentou libertar-se.
Há também uma preocupação interna. A Arábia Saudita prepara-se para receber a Exposição Mundial de 2030 e o Campeonato do Mundo de futebol de 2034. A transformação económica promovida pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman exige segurança, previsibilidade e confiança dos investidores. A ameaça regular de drones e mísseis destrói essas três condições.
Dois estreitos, uma só crise regional
O avanço houthi mostra por que razão o Iémen regressa à guerra e até que ponto o conflito se fundiu com a disputa entre o Irão, os Estados Unidos e os aliados de Washington no Golfo.
Ormuz e Bab al-Mandeb são duas passagens essenciais para o transporte de petróleo e mercadorias. A possibilidade de forças alinhadas com Teerão condicionarem o tráfego em ambas amplia o alcance da crise e reduz as alternativas disponíveis aos países exportadores. O Arcana News acompanha essa ligação no dossiê sobre a crise de Ormuz e a circulação energética.
Para o Iémen, a geopolítica não torna a guerra menos concreta. O país permanece dividido, empobrecido e dependente de ajuda humanitária. A retoma dos combates já provoca novas deslocações e agrava o risco de fome, doença e colapso dos serviços básicos. O Gabinete das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários mantém informação atualizada sobre a emergência humanitária no país.
A relação entre o conflito e a segurança saudita também prolonga uma disputa regional que o Arcana News analisou em «Dois Príncipes, Dois Caminhos».
Ainda há responsáveis políticos e militares convencidos de que uma ofensiva intensa poderá alterar rapidamente o equilíbrio. Essa expectativa já acompanhou outras fases da guerra. Todas começaram com promessas de brevidade; nenhuma encontrou uma saída.
A conquista de Mokha não decide o conflito. Muda, contudo, a dimensão do perigo. Ao avançarem sobre Bab al-Mandeb, os houthis passaram a dispor de uma ameaça que o mundo não pode tratar como um problema exclusivamente iemenita.
Funcionalidade Google
Fontes preferidas disponíveis em Portugal.
A nova opção permite selecionar publicações para surgirem com maior frequência em pesquisas noticiosas relevantes.


