DOSSIÊ · Geopolítica e Poder · Doutrina Militar 2026 · três frentes, a mesma distância entre o que se escreve e o que se cumpre
Washington muda de prioridade no papel, a NATO fixa uma meta única para 32 países e o Pentágono descobre que não manda numa empresa privada — três peças, um só padrão.
Doutrina Militar 2026: o que está em causa
Em 2026, três potências dizem uma coisa e fazem outra, cada uma à sua maneira. Washington escreve uma nova estratégia que promove o hemisfério ocidental a prioridade máxima, mas mantém os mesmos 24 mil militares na Coreia do Sul e destina menos de 1% das forças disponíveis à defesa doméstica. A NATO fixa uma meta única de 5% do PIB para os 32 aliados, mas a Alemanha paga-a em cortes sociais, a Itália em reclassificações contabilísticas e a Espanha recusa-a abertamente. E o próprio Pentágono, que diz que a guerra autónoma vai ser “parte essencial e fundamental” do futuro militar americano, não consegue obrigar a Anthropic a fornecer-lhe as armas totalmente autónomas que a empresa recusa construir. Este dossiê organiza as três peças que documentam essa distância entre doutrina e execução, ao longo de 2026.
O Pentágono publicou em janeiro a nova Estratégia Nacional de Defesa e pede orçamentos recorde para sistemas autónomos, sem controlar por completo quem os fornece.
Onde os 32 aliados fixaram, em junho de 2025, a meta comum de 5% do PIB em defesa até 2035.
A Alemanha isentou a despesa de defesa acima de 1% do travão à dívida, financiando a meta da NATO com cortes sociais concretos.
A Itália reclassificou infraestrutura civil, como a ponte sobre o Estreito de Messina, como despesa de defesa para se aproximar da meta.
A Espanha mantém a despesa perto de 2,1% do PIB e recusa formalmente o compromisso de 5%, sem consequência visível dentro da Aliança.
Entre o vocabulário da doutrina e a distribuição real do poder, os três casos mostram a mesma lacuna: aliados, tropas e fornecedores continuam a mover-se ao seu próprio ritmo, não ao ritmo da estratégia que os devia comandar.
ÍNDICE
Como ler este dossiê
- Começar pela peça sobre as armas autónomas do Pentágono e a Anthropic, que mostra os limites do comando do Estado sobre um fornecedor privado.
- Seguir para a Estratégia Nacional de Defesa dos EUA, que replica a mesma lacuna à escala da estratégia nacional: o hemisfério ocidental é prioridade no papel, mas as tropas continuam onde estavam.
- Terminar na meta de 5% da NATO, que mostra a mesma distância replicada nos 32 aliados, cada um a cumpri-la — ou recusá-la — à sua maneira.
Cronologia
Oito marcos mostram como a doutrina mudou no papel, entre 2025 e 2026, mais depressa do que mudaram as tropas, os orçamentos e os aliados chamados a cumpri-la. A cronologia completa, com fontes, encontra-se a seguir.
Cronologia completa
- 2023 — O Departamento de Defesa dos EUA atualiza a Diretiva 3000.09, exigindo comando humano sobre o uso da força em sistemas autónomos.
- Junho de 2025 — Cimeira da NATO em Haia. Os 32 aliados fixam a meta de 5% do PIB em defesa até 2035, dividida entre 3,5% de despesa militar central e 1,5% de investimento alargado.
- Dezembro de 2025 — Cerca de 11 mil militares dos EUA são destacados para as Caraíbas, um salto de oito vezes face à presença anterior.
- Janeiro de 2026 — O Pentágono publica a nova Estratégia Nacional de Defesa dos EUA, elevando o hemisfério ocidental a prioridade número um pela primeira vez em quase uma década.
- Início de 2026 — O Departamento de Defesa classifica a Anthropic como risco de cadeia de fornecimento, depois de a empresa recusar relaxar as suas restrições a ferramentas de vigilância doméstica e a armas totalmente autónomas.
- Março de 2026 — Um juiz federal trava essa designação.
- Abril de 2026 — Donald Trump comenta publicamente que “a Anthropic está a melhorar”.
- 23 de abril de 2026 — Em Nashville, o general Dan Caine diz que os sistemas autónomos vão ser “parte essencial e fundamental” de tudo o que o Pentágono faz.
- 19 de maio de 2026 — Audiência do Subcomité para Ameaças Emergentes e Capacidades do Senado sobre as prioridades científicas do orçamento de defesa de 2027.
- 11 de setembro de 2026 — O Arcana News publica “Meta de 5% da NATO divide a defesa europeia”.
- 12 de setembro de 2026 — O Arcana News publica “Os Estados Unidos Já Mudaram de Doutrina. As Tropas Ainda Não Se Mexeram”.
- 14 de setembro de 2026 — O Arcana News publica “As armas autónomas do Pentágono dependem da Anthropic”.

Peças-chave do Arcana News
A meta de 5% da NATO obriga todos os aliados a gastar da mesma forma?
Não. A meta é comum a toda a Aliança, mas cada país cumpre-a de forma diferente. A Alemanha financia-a com cortes sociais concretos, a Itália reclassifica infraestrutura civil como despesa de defesa e a Espanha recusa formalmente o compromisso de 5%, sem consequência visível dentro da NATO.
Documentos e materiais
- Estratégia Nacional de Defesa dos EUA 2026 — documento oficial publicado pelo Pentágono em janeiro de 2026.
- Diretiva 3000.09 do Departamento de Defesa dos EUA — exige comando humano sobre o uso da força em sistemas autónomos.
- Audiência do Subcomité para Ameaças Emergentes e Capacidades do Senado — 19 de maio de 2026, sobre as prioridades científicas do orçamento de defesa de 2027.
- Meta de 5% da NATO — página oficial da Aliança Atlântica sobre o compromisso fixado em Haia.
Quem é quem
- Dan Caine — general, chefe do Estado-Maior Conjunto dos Estados Unidos; defende a adoção rápida de sistemas autónomos.
- Joni Ernst — senadora, Subcomité para Ameaças Emergentes e Capacidades; alertou para o atraso da arquitetura política face à tecnologia.
- Elissa Slotkin — senadora; comparou a guerra autónoma ao Projeto Manhattan e alertou contra deixar uma empresa privada decidir as suas regras.
- Anthropic — fornecedora de inteligência artificial ao Pentágono; recusa fornecer ferramentas de vigilância doméstica e armas totalmente autónomas, e foi classificada como risco de cadeia de fornecimento, designação travada por um tribunal federal.
- David Petraeus e Isaac Flanagan — autores do número que mostra que manter um único drone Predator em vigilância contínua exige quase 150 pessoas de apoio.
- Friedrich Merz — chanceler alemão; reconhece que os cortes nas pensões não mantêm o nível de vida atual.
- Giorgia Meloni — primeira-ministra italiana; promete que Roma não desvia “um único euro” de outras prioridades, apesar da reclassificação contabilística.

Glossário
- Diretiva 3000.09 — regra do Departamento de Defesa dos EUA que exige comando humano sobre o uso da força em sistemas de armas autónomos.
- Meta de 5% da NATO — compromisso da cimeira de Haia, de junho de 2025: 5% do PIB em defesa até 2035, dividido entre 3,5% de despesa militar central e 1,5% de investimento em segurança alargada.
- Defense Autonomous Working Group — grupo de trabalho do Pentágono responsável pelo orçamento de sistemas autónomos.
- One Big Beautiful Bill Act — lei orçamental dos EUA que aprovou 150 mil milhões de dólares adicionais para o Departamento de Defesa.
- Golden Dome — programa de defesa antimíssil dos Estados Unidos, financiado com 24,4 mil milhões de dólares.
O que se sabe
- A Estratégia Nacional de Defesa dos EUA, publicada em janeiro de 2026, eleva o hemisfério ocidental a prioridade número um, mas menos de 1% das forças disponíveis está em missões de segurança doméstica.
- A NATO fixou uma meta única de 5% do PIB até 2035, na cimeira de Haia de junho de 2025; a Alemanha, a Itália e a Espanha cumprem-na — ou recusam-na — de três formas diferentes.
- O orçamento do Pentágono para sistemas autónomos passou de cerca de 225 milhões para um pedido de cerca de 55 mil milhões de dólares num único ciclo orçamental.
- A Anthropic recusou fornecer ao Pentágono ferramentas de vigilância doméstica e armas totalmente autónomas; um tribunal federal travou a designação de “risco de cadeia de fornecimento” que o Departamento de Defesa lhe tinha aplicado.
- 24 mil militares dos EUA continuam colocados na Coreia do Sul, sem qualquer redução anunciada.
O que falta saber
- Como e quando serão distribuídos, entre missões antigas e novas, os 150 mil milhões de dólares já votados pelo Congresso.
- Se o Congresso vai legislar sobre quem decide os limites da guerra autónoma, travando a situação atual em que a Anthropic decide sozinha o que fornece.
- Se a meta de 5% da NATO sobreviverá ao desgaste político já visível — apoio público em queda, subida da AfD na Alemanha.
- Qual será a posição de Portugal dentro deste mesmo padrão — ver “Próximas atualizações”.
O que vigiar
- O início do ano fiscal de 2027 nos EUA e a distribuição efetiva do orçamento de defesa já aprovado.
- Eventual legislação do Congresso sobre limites à guerra autónoma e ao papel de fornecedores privados.
- A revisão da NATO prevista para 2029 sobre o cumprimento da meta de 5%.
- A evolução das sondagens da AfD na Alemanha face aos cortes sociais ligados à defesa.
- A audição do ministro da Defesa português, Nuno Melo, no Parlamento sobre o negócio das fragatas com a Itália, financiado pelo SAFE.
Próximas atualizações
Este dossiê será atualizado à medida que novos artigos do Arcana News, identificados com a etiqueta Doutrina Militar 2026, acrescentarem factos relevantes.
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