O orçamento para a guerra autónoma dispara mais de 200 vezes, mas quem decide os seus limites é uma empresa privada, não Washington.
A 23 de abril, em Nashville, o general Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto dos Estados Unidos, disse que os sistemas autónomos vão ser “parte essencial e fundamental de tudo o que fazemos” e que o Pentágono precisa de “normalizar isto e tornar-se um adotante precoce”. No mesmo período, um dos fornecedores de inteligência artificial de que o Pentágono mais depende recusava-se a fazer exatamente aquilo que Caine descrevia como inevitável. A Anthropic negou relaxar as suas próprias restrições sobre ferramentas de vigilância doméstica e sobre armas totalmente autónomas. O Departamento de Defesa respondeu classificando a empresa como risco de cadeia de fornecimento. Um juiz federal travou essa designação em março. Semanas depois, Trump comentava em público que “a Anthropic está a melhorar”.
O Defense Autonomous Working Group pediu cerca de 55 mil milhões de dólares para o ano fiscal de 2027, partindo de cerca de 225 milhões no ano corrente, um salto de mais de duzentas vezes num único ciclo orçamental, dentro do mesmo esforço mais largo que já vinha a acelerar a compra de tecnologia civil pelo Pentágono. A DARPA financia, dentro desse orçamento, o programa “Materials for Physical Compute in Untethered Robotics” e o “Decentralized Artificial Intelligence through Controlled Emergence”, este último construído para que drones formem equipas por coordenação direta entre si, sem comando central a decidir cada movimento, uma lógica que já tínhamos visto alterar o cálculo da guerra de drones. David Petraeus e o investigador Isaac Flanagan têm um número para o problema que isto resolve: manter um único drone Predator em vigilância contínua exige hoje quase 150 pessoas de apoio. Essas 150 pessoas não desaparecem com um orçamento maior. Deslocam-se para um punhado de empresas capazes de escrever o software que as substitui.

A 19 de maio, numa audiência do Subcomité para Ameaças Emergentes e Capacidades sobre as prioridades científicas do orçamento de 2027, a senadora Joni Ernst admitiu que “a arquitetura política tem mesmo de acompanhar” a tecnologia, e que “é aqui que provavelmente ficamos para trás”. Apontava para a Diretiva 3000.09 do Departamento de Defesa, atualizada em 2023, que exige comando humano sobre o uso da força, uma exigência escrita para um ritmo de decisão que a integração entre alvejamento por inteligência artificial e munições autónomas já ultrapassou. A senadora Elissa Slotkin comparou o momento ao esforço da bomba atómica na Segunda Guerra Mundial e avisou que “não acredito que uma empresa privada deva decidir quais são as regras”.

O Projeto Manhattan foi um monopólio do Estado, com laboratórios próprios, cientistas contratados e segredo garantido por lei e por armas. A doutrina autónoma de 2026 depende de modelos que pertencem a empresas privadas, construídos com lógica e prioridades próprias que o Estado não controla por decreto. Comparar as duas coisas é assumir uma capacidade de comando que os factos, incluindo a decisão de um tribunal federal em março, mostram que Washington ainda não tem.
Slotkin fala do risco de uma empresa privada decidir as regras como algo a evitar no futuro. Já aconteceu, e não pela primeira vez: em 2018, a Google saiu do programa Project Maven depois de protestos internos, e a Palantir entrou no seu lugar. A Anthropic decidiu, na prática, onde ficam os limites daquilo que fornece ao Pentágono, e o governo não a conseguiu obrigar a recuar, nem com a designação de risco de cadeia de fornecimento, nem depois de um tribunal federal a ter travado essa designação. O Congresso ainda discute a lei que devia impedir uma empresa privada de decidir as regras da guerra autónoma. A Anthropic já decidiu, sozinha, o que aceita fornecer e o que recusa.
A NSA tem acesso antecipado ao modelo mais recente da Anthropic, o Mythos Preview, no mesmo período em que a empresa recusava ao Pentágono as ferramentas de vigilância doméstica e as armas totalmente autónomas.
Caine sabe disto melhor do que os senadores que o citam como autoridade: fala em “escrever melhores contratos”, com risco partilhado entre comprador e vendedor, não em ordens com prazo fixo. Um general pode comandar tropas. Não pode comandar uma empresa que decidiu, sozinha, e por agora com a lei do seu lado, onde termina a guerra que os Estados Unidos querem travar sem gente.
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