Revista · Ensaio · Guerra de desgaste · Alberto Carvalho
Drones: a guerra já não é ganha pela melhor arma — a lógica da reposição
O essencial deste artigo
- A arma mais avançada pode tornar-se demasiado valiosa e lenta de substituir para ser utilizada sem restrições.
- Os drones alteraram o cálculo militar porque podem ser produzidos, perdidos e repostos em grande número.
- Na guerra de desgaste, a capacidade industrial pode pesar tanto quanto a superioridade tecnológica.
As autoridades ucranianas disseram, em 2026, que o país tinha capacidade para produzir mais de oito milhões de drones FPV por ano. No ano anterior, a produção teria rondado os quatro milhões.
Uma parte considerável desses aparelhos será destruída antes de atingir o alvo. Haverá perdas de ligação, falhas de navegação, interferência eletrónica e baterias que se esgotam antes do previsto. Outros drones completarão a missão para a qual foram montados e deixarão de existir nesse momento. Os contratos e as oficinas trabalham já com essa rotação.
A perda de uma aeronave furtiva produz uma interrupção de outra ordem. Pode não existir um segundo exemplar disponível para ocupar imediatamente o seu lugar. A formação da tripulação demora, algumas peças têm poucos fornecedores e a linha de montagem entrega apenas um número limitado de unidades por ano. Num navio de guerra, juntam-se o tempo de construção, a tripulação e os sistemas que desaparecem com o casco. Uma bateria antiaérea de grande alcance não se recompõe comprando componentes no mercado civil.
Estas plataformas não precisam de ser destruídas para que a presença de drones influencie o seu emprego. Um comandante altera uma rota, afasta um avião de determinada zona ou dispersa veículos que funcionariam melhor concentrados. Mantém equipas de defesa em alerta e consome munições contra aparelhos que podem custar uma pequena fração do alvo protegido.
O drone pode cair sem ter chegado ao objetivo. Antes disso, obrigou alguém a detetá-lo, classificá-lo e decidir se devia ser abatido.
Comparar apenas o preço das duas máquinas pouco esclarece. Um aparelho de alguns milhares de euros não possui os sensores, o alcance ou o poder de fogo de um caça. Não substitui um satélite, uma fragata ou um sistema de defesa aérea. A diferença operacional está na quantidade que pode desaparecer sem deixar a unidade incapaz de continuar.
Os exércitos ocidentais desenvolveram, durante décadas, plataformas destinadas a reunir capacidades que antes estavam distribuídas por vários sistemas. Cada programa procurava maior alcance, proteção superior, sensores mais precisos e ligação a redes de comando cada vez mais extensas. O preço aumentava, mas a máquina deveria permanecer em serviço durante vinte ou trinta anos.
Um avião avançado continua a executar missões que nenhum pequeno drone consegue cumprir. Transporta armamento pesado, percorre grandes distâncias, recolhe informação e age em ambientes onde um aparelho comercial modificado duraria pouco. O mesmo vale para navios, radares e sistemas de defesa aérea.
A escassez começa noutro ponto. Se uma força possui poucas unidades, demora anos a substituí-las e precisa delas para várias missões ao mesmo tempo, cada emprego passa a incluir um cálculo de conservação. O sistema pode ser tecnicamente superior e permanecer afastado da zona onde essa superioridade seria útil.
Nas oficinas que trabalham para unidades de drones, a versão de hoje não precisa de durar décadas. Um aparelho pode viajar desmontado numa carrinha, receber uma câmara ou uma antena diferente e ser enviado para a frente sem atravessar um programa de aquisição comparável ao de uma aeronave militar. O operador também não precisa do percurso necessário para pilotar um avião convencional.
Grande parte dos componentes veio de mercados civis. Motores elétricos, processadores, câmaras, sistemas de navegação e programas informáticos circulam entre fabricantes e distribuidores que nunca foram pensados como parte de uma cadeia militar. Certas peças podem ser sujeitas a bloqueios ou sanções, mas o conhecimento necessário para alterar a configuração já não está concentrado em meia dúzia de instalações protegidas.
Uma unidade perde vários aparelhos quando tenta operar numa determinada frequência. A informação regressa à oficina. Muda-se a antena, o software ou o modo de navegação. O adversário identifica a alteração e ajusta a interferência. Uma solução que funcionava no início do mês pode já não chegar ao fim.
Num programa militar tradicional, uma modificação passa por requisitos, testes e certificação. Esse processo evita que uma arma insegura seja entregue aos militares e procura impedir que o dinheiro público financie soluções sem controlo. Também significa que uma alteração relativamente simples pode continuar em avaliação quando o problema que a originou já foi substituído por outro.
Nos drones utilizados em grande número, o ensaio prossegue durante o emprego. O aparelho seguinte incorpora parte do que foi descoberto com a perda do anterior.
O resultado não é uma linha contínua de progresso. Há fabricantes que não conseguem manter a qualidade, lotes que chegam tarde e componentes que se revelam inúteis sob interferência. Algumas versões deixam de ser utilizadas poucas semanas depois de entrarem em produção. A velocidade inclui desperdício, dependência externa e erros que seriam inaceitáveis num programa concebido para permanecer décadas em serviço.
A palavra usada pelo Pentágono para certos sistemas deste tipo é attritable. Refere-se a equipamentos cujo preço e disponibilidade permitem aceitar perdas sem interromper a operação. Não são necessariamente armas feitas para uma única utilização, mas não recebem a mesma proteção institucional que uma plataforma rara.
O programa Replicator procurou colocar milhares de sistemas autónomos dessa categoria ao dispor das forças norte-americanas. A iniciativa partia de uma dificuldade que o orçamento não elimina por decreto. Os Estados Unidos podem financiar equipamentos muito avançados e, ainda assim, não conseguir produzi-los na quantidade necessária para uma campanha prolongada.
Uma fábrica não aumenta a produção no dia em que recebe mais dinheiro. Precisa de fornecedores, trabalhadores especializados, máquinas, contratos previsíveis e encomendas que justifiquem a expansão. Nas linhas que fabricam mísseis, radares ou aeronaves, várias peças têm apenas um produtor certificado. Se a entrega anual for baixa, a reposição de uma perda pode demorar mais do que a operação militar que a causou.
Os drones baratos recorrem a uma rede diferente. Pequenas empresas e oficinas conseguem montar ou modificar aparelhos utilizando componentes comerciais. A rede é flexível, mas continua dependente de motores, baterias, placas e câmaras fabricados fora do país. Uma interrupção do fornecimento pode retirar rapidamente de produção um modelo inteiro.
Antes de autorizar uma missão, o comandante precisa de saber quantos aparelhos restam e quando chegará o lote seguinte. Cem drones disponíveis com reposição semanal não são administrados da mesma forma que cem unidades cuja entrega seguinte ocorrerá dentro de vários meses. O inventário inicial pode ser igual.
Um drone de ataque do tipo Shahed pode custar dezenas de milhares de dólares. Um intercetor Patriot custa vários milhões. Os valores variam e o Patriot não é utilizado como resposta habitual contra todos os aparelhos lentos, mas a defesa tem de decidir que arma emprega contra cada ameaça que se aproxima.
O alvo protegido pode justificar o disparo de um míssil muito mais caro. A escolha muda quando os ataques se repetem noite após noite e o número de intercetores desce mais depressa do que a indústria os consegue repor. Uma taxa elevada de abate durante as primeiras semanas não indica, por si só, durante quanto tempo a defesa conseguirá manter o mesmo método.
O atacante pode também enviar drones para obrigar os radares a funcionar, manter equipas mobilizadas ou revelar a localização das defesas. Nem todos os aparelhos precisam de transportar uma carga capaz de destruir o alvo principal. É suficiente que sejam credíveis como ameaça.
A Ucrânia começou a utilizar drones intercetores contra aparelhos russos. Os canhões, a guerra eletrónica e outros sistemas de menor custo ocupam igualmente as camadas inferiores da defesa. Os mísseis mais avançados ficam reservados para ameaças que não podem ser enfrentadas pelos restantes meios, desde que haja tempo para distinguir umas das outras.
Cada camada introduz novas necessidades. Um sistema de guerra eletrónica pode interromper a navegação de um drone e afetar comunicações próprias. Um canhão precisa de munições e de uma linha de tiro segura. O intercetor barato também pode falhar. A diferença está na possibilidade de repetir a tentativa sem consumir, em cada ocasião, uma munição produzida em números reduzidos.
Na Frota do Mar Negro, navios russos tiveram de alterar os movimentos e os locais de permanência depois de ataques realizados com embarcações não tripuladas, mísseis e outros meios ucranianos. A Ucrânia não construiu, para isso, uma marinha convencional comparável à russa.
Uma pequena embarcação não tripulada não adquiriu as capacidades de uma fragata. Transportava uma carga limitada, dependia de comunicações e podia ser destruída durante a aproximação. O navio atacado, porém, tinha a tripulação, os sensores, o armamento e vários anos de construção concentrados no mesmo casco.
O comandante não podia tratar cada aproximação como um incidente menor. Bastava que um dos aparelhos atravessasse a defesa. Alguns navios foram danificados, instalações foram atingidas e a frota passou a operar sob restrições que antes não existiam da mesma forma.
O navio conservava um alcance e um poder de fogo muito superiores. Parte desse poder teve de ser usada mais longe, com escolta adicional ou a partir de locais considerados menos expostos.
Os pequenos drones continuam dependentes de sistemas que custam muito mais. Precisam de comunicações, de informação sobre os alvos e de algum meio de navegação. Os satélites, os radares, as aeronaves e os centros de comando recolhem e tratam dados que o aparelho não conseguiria obter sozinho. A carga transportada limita os alvos que pode destruir.
Uma força composta sobretudo por plataformas baratas teria dificuldade em agir longe das suas redes, manter uma presença prolongada ou transportar armamento pesado. Também poucas unidades sofisticadas conseguem vigiar cada setor, absorver perdas sucessivas ou manter uma atividade constante ao longo de uma frente extensa.
A combinação varia consoante o território, a missão e o adversário. Obriga, no entanto, a comprar equipamentos que podem não cumprir todos os requisitos desejáveis e talvez sejam retirados de serviço poucos meses depois. A quantidade entra em conflito com processos de aquisição habituados a justificar o investimento através da longevidade.
O valor de um drone concebido para uma missão não se mede pelos anos de serviço. Depende do que consegue fazer antes de desaparecer e de haver outro disponível para a tentativa seguinte.
Essa disponibilidade envolve mais do que o aparelho armazenado. Contam os motores que chegam à oficina, as baterias que ainda existem, o número de operadores treinados e o tempo entre uma falha observada na frente e a alteração feita pelo fabricante. Uma decisão tática pode ficar condicionada pelo atraso de um componente produzido a milhares de quilómetros.
Milhões de drones baratos não tornam barata uma guerra. Exigem matérias-primas, energia, mão de obra e redes de comunicação. O edifício atingido não custa menos por ter sido destruído por um aparelho de baixo preço. Também não diminui o custo humano para quem se encontrava no interior.
O que se tornou mais acessível foi a capacidade de vigiar e atacar. Um país sem uma força aérea comparável à de uma grande potência pode adquirir algum alcance sobre a frente. Um grupo armado pode atingir posições ou infraestruturas sem formar pilotos nem manter pistas, hangares e aeronaves. As mesmas cadeias comerciais que ajudam um Estado pequeno a defender-se fornecem meios a quem pretende atacar.
Retirar um soldado de uma missão exposta continua a ser uma vantagem concreta. Um aparelho pode entrar primeiro num edifício, atravessar uma zona minada ou aproximar-se de uma posição sob fogo. A perda da máquina não deixa uma família sem alguém.
O operador, contudo, acompanha o alvo através de um ecrã e pode lançar outro aparelho minutos depois. Está protegido da explosão que provoca, mas não das regras que determinam se o ataque é legítimo nem das consequências para quem se encontra na área. A distância física não transfere a responsabilidade para a máquina.
Nos centros de comando e nas unidades logísticas, as pessoas e os equipamentos aparecem em tabelas próximas. Contam-se os aparelhos disponíveis, os operadores formados, as taxas de perda e a capacidade de reposição. A linguagem é necessária para administrar uma força, mas a semelhança dos registos pode ocultar uma diferença que não é administrativa.
Cem drones perdidos podem ser substituídos quando há peças, oficinas e contratos. Cem operadores não regressam através de uma nova encomenda. O treino de outros militares não repara essa perda nem permite tratar as pessoas anteriores como unidades de um inventário.
A unidade que recebe diariamente drones continua, entretanto, a fazer contas. Quantos aparelhos chegaram, quantos se perderam por interferência, quantos atingiram o alvo e quantos estarão disponíveis no dia seguinte. Quando as entregas deixam de acompanhar as perdas, os drones que restam começam a ser reservados. Algumas missões são adiadas; outras recebem menos aparelhos.
O preço de cada unidade não mudou. O comandante já não sabe quando poderá substituí-la.
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