Andy Burnham e o Manchesterismo: o que muda no Reino Unido

Burnham chama ao seu programa "Manchesterismo" — mas mantém, sem alterações, as duas regras fiscais que herdou de Keir Starmer.

Economia

Alberto Carvalho
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Alberto Carvalho é cronista e editor convidado do Arcana News, onde escreve sobre política, cultura e vida pública. É autor de mais de setenta artigos, combinando rigor crítico e clareza jornalística, com uma atenção permanente ao impacto social das decisões coletivas.
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Andy Burnham e o Manchesterismo: o que muda no Reino Unido

O essencial deste artigo

  • Andy Burnham é o novo primeiro-ministro britânico, o sétimo em dez anos, sucedendo a Keir Starmer.
  • Chama ao seu programa “Manchesterismo”, baseado no seu historial como presidente da Grande Manchester (Bee Network, Good Growth Fund).
  • Mantém, sem alterações, as duas regras fiscais herdadas de Starmer, e não subirá impostos aos mais ricos de imediato.
  • Ao mesmo tempo, defende a nacionalização da Thames Water e o maior programa de habitação pública desde a Segunda Guerra Mundial.
  • Burnham nomeou John Healey, até então secretário da Defesa, Chanceler do Tesouro; Rachel Reeves deixou o Governo.
Cronologia

  • 2005–2010 — Burnham serve nos governos de Tony Blair e Gordon Brown.
  • 2017 — Torna-se presidente da Grande Manchester.
  • 2022 — Governo de Liz Truss cai após reação dos mercados a um orçamento com cortes fiscais.
  • Maio (há 2 meses) — Burnham desafia Starmer internamente; discurso sobre os “quarenta anos de neoliberalismo”.
  • 20 de julho — Burnham torna-se primeiro-ministro e nomeia John Healey Chanceler do Tesouro.

Andy Burnham, o Manchesterismo e as regras fiscais que manteve

Andy Burnham prometeu, ao chegar a Downing Street, não subir impostos aos mais ricos. Sobre esses mesmos contribuintes, acrescentou que a certa altura poderá ter de lhes pedir “um pouco mais”.

Essa reserva convive com dois compromissos que Burnham já assumiu por escrito: equilibrar a despesa corrente com a receita corrente do Reino Unido num prazo de cinco anos, e reduzir a dívida pública como proporção do PIB no mesmo período — as duas regras fiscais que herdou, sem alterações, do governo de Keir Starmer. É dentro destes limites que terá de caber o maior programa de construção de habitação pública desde a Segunda Guerra Mundial, que Burnham também já anunciou, sem indicar ainda que receitas adicionais o financiariam à escala nacional. O parque habitacional público britânico encolheu de forma acentuada desde que o governo de Margaret Thatcher deu, nos anos oitenta, aos inquilinos das casas públicas o direito de as comprar. É também dentro destes limites que terá de caber a nacionalização da Thames Water, empresa que fornece água à Grande Londres e ao vale do Tamisa, privatizada em 1989 sob o mesmo governo Thatcher, passada por vários donos — incluindo um fundo de private equity australiano — e hoje associada a subinvestimento crónico, fugas na rede e descargas de esgoto, ao lado da distribuição de dividendos elevados aos acionistas.

Burnham sucede a Starmer como sétimo primeiro-ministro britânico numa década, depois de o ter desafiado internamente há cerca de dois meses. É deputado trabalhista há vinte e cinco anos e foi presidente da Grande Manchester, a segunda maior área metropolitana do país, entre 2017 e o mês anterior à sua ascensão. Ao programa que traz consigo chama “Manchesterismo”.

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Nesse cargo local, com poderes formais mais limitados do que os de um governo central, lançou o Good Growth Fund — financiado pelo fundo de pensões da autarquia e pelo governo central — para criar emprego e habitação acessível em zonas que não acompanharam o crescimento recente da região. Assumiu também o controlo dos serviços de autocarros privatizados: cortou tarifas, passou a definir as rotas centralmente em vez de as deixar a operadoras privadas concorrentes entre si, e criou passes gratuitos para jovens entre os dezasseis e os dezoito anos, com desconto para os que têm entre dezoito e vinte e um. É o sistema hoje conhecido como Bee Network. Manchester reconstituiu-se, nestas últimas décadas, num centro de serviços em crescimento rápido, também conhecido pelo futebol, pela música e pela vida noturna.

Num discurso de maio, Burnham descreveu quarenta anos de política económica britânica — desde os governos de Thatcher em diante — como “neoliberalismo”, e responsabilizou-o por ter falhado aos setenta por cento da população que vive fora do sudeste de Inglaterra, a região mais próspera do país. Entre 2005 e 2010, antes de ser presidente de câmara, o próprio Burnham serviu nos governos de Tony Blair e Gordon Brown — governos que mantiveram, entre outras políticas, impostos baixos sobre as empresas.

Isaac Rose, organizador de inquilinos que escreveu sobre o tema na revista New Statesman, situa a recuperação económica de Manchester antes da chegada de Burnham ao cargo, e nota que essa recuperação não se estendeu às cidades e vilas em torno da metrópole, várias das quais continuam a perder população; grande parte da nova habitação construída no centro da cidade, nalguns casos com apoio de empréstimos públicos, é vendida a preços de mercado. Mathew Lawrence e Alex Williams, num relatório do think tank Common Wealth intitulado “The Productive State”, leem os mesmos anos de outra forma: apresentam o Bee Network e o Good Growth Fund como prova de que o “controlo público” produziu tarifas mais baixas, mais rotas de transporte e a economia municipal com o crescimento mais rápido do Reino Unido, e propõem alargar essa lógica ao país inteiro através de uma economia em três níveis — uma base de bens essenciais gerida publicamente, um núcleo de mercado com o Estado como regulador, e uma fronteira de inovação privada apoiada por financiamento público em investigação e desenvolvimento.

Em 2022, um governo britânico testou os limites que Burnham agora aceita não testar. Semanas depois de o governo de Liz Truss apresentar um orçamento com cortes fiscais avultados e sem indicação clara de como seriam financiados, os investidores consideraram a proposta irresponsável, os juros da dívida pública dispararam e a libra desvalorizou-se — encarecendo, de um dia para o outro, o custo de financiar o Estado britânico. Truss demitiu-se. O episódio continua a funcionar, em governos trabalhistas e conservadores, como referência sobre até onde qualquer mudança de política económica pode ir no Reino Unido antes de os mercados a travarem.

Burnham herda ainda níveis de vida estagnados, uma imprensa maioritariamente hostil, pressão simultânea do Reform Party de Nigel Farage e do Green Party, e um défice orçamental elevado — o mesmo conjunto de obstáculos que já tinha condicionado o governo de Starmer. Fora do Reino Unido, alguns comentadores comparam-no ao presidente da câmara de Nova Iorque, Zohran Mamdani, por ambos ligarem o combate à subida de rendas à construção de habitação acessível e ao investimento em transportes públicos — comparação que situa Burnham num conjunto mais amplo de lideranças locais em rota de colisão com ortodoxias económicas estabelecidas, sem implicar que os dois programas sejam equivalentes em desenho ou em escala.

Em 20 de julho, Burnham nomeou John Healey, até então secretário da Defesa, Chanceler do Tesouro, e Rachel Reeves deixou o Governo.

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