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Por que o Estreito de Ormuz continua quase paralisado
Na sexta-feira, três navios atravessaram o Estreito de Ormuz. No sábado, foram oito. Antes da guerra, a média aproximava-se dos 140 por dia.
Na madrugada de segunda-feira, aviões norte-americanos voltaram a atacar o Irão pela nona noite consecutiva. O Comando Central dos Estados Unidos identificou como alvos meios usados contra a navegação comercial. Foram atingidas instalações dos Guardas da Revolução, posições de defesa aérea, depósitos de mísseis e drones, radares costeiros, pontes e infraestruturas logísticas.
Dezassete militares norte-americanos morreram desde o início da guerra. Mais de 430 ficaram feridos. O Irão continua a atacar bases e instalações situadas nos países árabes que acolhem forças dos Estados Unidos. O entendimento provisório alcançado em junho deixou de conter as hostilidades. (Associated Press)
Washington mantém a liberdade operacional sobre uma parte considerável do espaço aéreo iraniano. O número de travessias comerciais, porém, permaneceu residual.
Nos dias 7 e 8 de julho, as forças norte-americanas atingiram cerca de 170 alvos. O balanço divulgado pelo Comando Central incluía os sistemas de defesa aérea, meios de vigilância costeira, depósitos de armamento, pequenas embarcações dos Guardas da Revolução e instalações de apoio próximas do litoral. A quantidade de posições destruídas em dois dias confirmou que os Estados Unidos mantinham a liberdade operacional sobre uma parte considerável do território iraniano.
Parte dos alvos atingidos em julho pertencia às mesmas categorias já atacadas nas vagas anteriores. O Irão perdera radares, lançadores, embarcações e depósitos, mas conservava meios suficientes para que os armadores, as seguradoras e as tripulações continuassem a evitar Hormuz.
Uma operação com quatro objetivos
A Casa Branca apresentou a Operação Epic Fury, em março, como uma campanha contra quatro componentes do poder iraniano. Pretendia eliminar a ameaça nuclear, destruir o arsenal de mísseis balísticos, degradar as forças regionais ligadas a Teerão e incapacitar os meios navais usados para condicionar a circulação no Golfo. (Casa Branca)
A formulação permitia incluir quase todos os instrumentos de poder do regime. Um ataque contra uma instalação nuclear servia o primeiro objetivo. Um depósito de mísseis cabia no segundo. Os grupos aliados do Irão justificavam operações fora do território iraniano. Os radares, lanchas, drones e baterias costeiras pertenciam ao quarto.
Em julho, os comunicados começaram a concentrar-se na navegação.
O programa nuclear não desapareceu das declarações oficiais. Também não desapareceram os mísseis ou a segurança de Israel. A urgência passou, porém, para o número de navios que se atreviam a entrar no estreito e para o preço cobrado pelas seguradoras aos que ainda o faziam.
Antes da guerra, cerca de um quinto do petróleo consumido no mundo passava por Hormuz. A rota transportava igualmente uma parcela semelhante do comércio internacional de gás natural liquefeito. Não existe outra passagem marítima entre o Golfo e o oceano Índico.
Os efeitos de um ataque contra uma instalação nuclear podem demorar meses a ser avaliados. Uma viagem cancelada altera de imediato o custo do seguro, o transporte disponível e o abastecimento previsto pelas refinarias.
O estreito impôs-se à operação porque os efeitos da sua paralisação não dependem de uma vitória militar iraniana. Teerão não precisa de expulsar a Marinha norte-americana do Golfo. Basta-lhe manter a passagem suficientemente perigosa para que os navios comerciais não circulem.
Não é necessário afundar um petroleiro
Grande parte da capacidade iraniana para ameaçar Hormuz não está concentrada em bases que possam ser destruídas num único ataque.
Há radares fixos, mas também unidades móveis de lançamento. Existem navios militares identificáveis, ao lado de pequenas embarcações rápidas que podem ser dispersas por diferentes portos. Há drones, minas, depósitos subterrâneos, sistemas de comunicação e equipas capazes de deslocar equipamento antes da chegada dos aviões norte-americanos.
O Irão construiu esta disposição para compensar a inferioridade perante os Estados Unidos. Uma batalha naval convencional favoreceria a frota norte-americana. A dispersão permite a Teerão evitar essa batalha e atuar sobre a decisão comercial que antecede cada viagem.
Um petroleiro não tem de ser atingido para abandonar a rota.
A deteção de minas, uma ameaça transmitida por rádio, o aparecimento de um drone ou a notícia de que uma embarcação foi abordada bastam para aumentar o prémio do seguro. A companhia responsável pelo navio decide então se o valor da carga compensa a exposição da tripulação e da embarcação.
Armadores e seguradoras tomam essa decisão antes de o navio entrar no estreito. Quando consideram o risco excessivo, a viagem é cancelada ou adiada. O resultado aparece depois nos registos de tráfego.
A destruição de grande parte dos meios iranianos não permite certificar a segurança da rota. Enquanto subsistirem lançadores móveis, minas, drones ou pequenas embarcações cuja localização seja desconhecida, as companhias continuam a calcular a viagem em função do risco restante.
As vagas de ataques vão reduzindo o número de alvos visíveis. Os que sobrevivem tendem a ser menores, mais móveis e mais difíceis de localizar. O custo da procura aumenta à medida que diminui o valor individual de cada posição atingida.
Os comunicados conseguem quantificar as instalações destruídas. Não indicam quantos meios móveis ficaram por localizar nem se algum deles permanece em condições de atingir um navio.
Kharg entrou na discussão
Donald Trump não excluiu publicamente o envio de forças terrestres para tomar a ilha de Kharg, principal centro de exportação petrolífera do Irão. (Reuters)
A ilha é pequena quando comparada com o território iraniano, mas concentra as infraestruturas decisivas para as receitas do regime. A sua captura retiraria a Teerão a capacidade de exportação e daria aos Estados Unidos o controlo direto sobre um ponto central do sistema energético iraniano.
Kharg fica, contudo, fora do Estreito de Hormuz. A sua ocupação não removeria os lançadores móveis, os drones, as minas ou as embarcações distribuídas ao longo da costa.
Poderia ainda ampliar os ataques iranianos contra portos e instalações petrolíferas dos países árabes. A perda de uma infraestrutura essencial daria ao regime um motivo adicional para atingir os produtores cuja cooperação permite aos Estados Unidos operar na região.
A eliminação prolongada da ameaça costeira exigiria uma operação diferente. Tropas norte-americanas teriam de entrar em território iraniano, procurar equipamentos escondidos, controlar portos e estradas, proteger os depósitos e manter as linhas logísticas expostas a ataques.
Especialistas que participaram em simulações militares sobre o Irão estimam que uma campanha dessa natureza exigiria dezenas de milhares de soldados e meses de preparação. Mesmo uma força desse tamanho não poderia assegurar que todo o equipamento móvel tinha sido encontrado. (Associated Press)
As unidades enviadas para controlar a costa passariam a precisar de defesa contra mísseis, drones e ataques irregulares. Cada posição tomada criaria uma nova instalação a abastecer. As estradas que serviriam para transportar combustível, munições e alimentos tornar-se-iam alvos.
Trump fez da crítica às ocupações do Iraque e do Afeganistão uma parte constante do seu discurso político. Distinguiu o uso intenso e breve da força das intervenções que obrigam os Estados Unidos a permanecer num país durante anos.
Uma tomada de Kharg poderia ser apresentada como uma operação limitada. A ocupação de partes da costa, necessária para impedir a reconstrução das capacidades destruídas, já não caberia nessa definição.
O envio de tropas permitiria procurar os depósitos, os lançadores e as unidades que os ataques aéreos não conseguem localizar. As mesmas tropas teriam depois de proteger as posições, estradas, depósitos de combustível e linhas de abastecimento dentro do território iraniano.
Escoltar navios exige permanência
Sem ocupação, a alternativa é manter as forças suficientes para acompanhar a navegação.
Os Estados Unidos podem estabelecer corredores marítimos, vigiar as rotas com drones, posicionar os navios de defesa aérea e antimíssil, mobilizar meios de desminagem europeus e escoltar petroleiros durante a travessia.
A Marinha norte-americana já realizou uma operação semelhante na década de 1980, quando protegeu os petroleiros do Kuwait durante a guerra entre o Irão e o Iraque. O ambiente militar era diferente.
Os Guardas da Revolução dispõem agora de drones, mísseis antinavio, sistemas de vigilância costeira e pequenas embarcações em muito maior número. A frota dos Estados Unidos é menor do que há quarenta anos e mantém compromissos no Indo-Pacífico, no Mediterrâneo e noutras regiões.
Uma escolta não retira os navios comerciais do alcance iraniano. Coloca embarcações norte-americanas entre a ameaça e o petroleiro.
Quanto mais navios forem acompanhados, maior terá de ser a força destacada. Os corredores definidos para organizar a passagem tornam os movimentos previsíveis. A previsibilidade facilita a defesa, mas também permite ao adversário preparar um ataque para um espaço mais limitado.
A operação teria ainda de responder a incidentes que não produzissem danos imediatos. Uma embarcação iraniana que se aproximasse de um comboio poderia estar a observá-lo, a ameaçá-lo ou a preparar um ataque. Um radar ativado junto à costa poderia servir apenas para vigilância. Um lançamento falhado obrigaria a decidir se a resposta seria dirigida à posição de origem, a outras instalações ou aos responsáveis políticos.
As regras de empenhamento passariam a determinar diariamente a diferença entre a proteção do tráfego e uma nova escalada.
A permanência de forças norte-americanas reduziria alguns riscos para os navios. Criaria simultaneamente a obrigação de reagir sempre que o Irão testasse os limites dessa proteção. Uma resposta insuficiente poderia afastar de novo as companhias. Uma resposta mais ampla poderia reiniciar os ataques contra bases norte-americanas.
A escolta poderia aumentar o número de travessias sem retirar ao Irão a capacidade de as interromper novamente. Navios, aviões e meios de desminagem teriam de permanecer no Golfo e reagir sempre que uma unidade iraniana se aproximasse dos corredores ou ameaçasse uma embarcação.
O petróleo começou a sair por outro lado
Na primeira metade de julho, as exportações de petróleo e condensados dos países do Golfo recuperaram para cerca de 12 milhões de barris por dia. A subida ocorreu durante o período em que o entendimento provisório entre Washington e Teerão reduziu os ataques e permitiu a reabertura parcial de Hormuz.
Com a retoma dos combates, os fluxos voltaram a diminuir. Mesmo durante a recuperação, as exportações permaneciam cerca de 32% abaixo do máximo anterior à guerra.
A Arábia Saudita desviou aproximadamente três quartos das exportações de julho para Yanbu, no Mar Vermelho. (Reuters)
Os produtores não esperaram que a campanha militar devolvesse segurança plena à passagem. Começaram a usar com maior intensidade as infraestruturas construídas para reduzir a dependência do estreito.
A Arábia Saudita dispõe de um sistema que transporta petróleo das zonas produtoras do leste até ao Mar Vermelho. Os Emirados Árabes Unidos podem encaminhar parte da produção para Fujairah, já fora de Hormuz. O Irão possui uma alternativa mais limitada em Jask.
Nenhum destes sistemas consegue substituir o volume que normalmente atravessa o estreito. Os oleodutos têm uma capacidade máxima, necessitam de manutenção e não chegam a todos os terminais nem a todos os produtores.
O desvio para Yanbu também aproxima uma parte maior das exportações de Bab el-Mandeb. A passagem entre o Mar Vermelho e o golfo de Áden permanece ao alcance de ataques dos houthis.
Os navios que evitam Hormuz podem, assim, entrar noutra rota ameaçada por uma força ligada ao mesmo sistema regional de alianças iranianas que a Operação Epic Fury pretendia degradar.
O desvio para Yanbu e Fujairah retira parte do tráfego do alcance direto da costa iraniana. Os navios encaminhados pelo Mar Vermelho continuam dependentes da passagem por Bab el-Mandeb, onde os houthis mantêm capacidade de ataque.
O entendimento de junho não resolveu quem manda na passagem
O acordo provisório alcançado em junho permitiu que alguns navios regressassem ao estreito. Não estabeleceu uma solução aceite para a gestão da rota.
Washington exigia passagem livre, ausência de taxas impostas pelo Irão e segurança para todas as embarcações. Teerão não aceitou renunciar ao controlo que conseguira exercer durante a guerra.
Teerão passou a usar a capacidade de interromper Hormuz como proteção contra novos ataques. Enquanto uma ação iraniana no estreito puder elevar o custo internacional da guerra, o regime tem pouco incentivo para abandonar esse instrumento sem receber contrapartidas.
Uma negociação destinada a reabrir a rota teria de estabelecer quem verifica os navios, que forças podem aproximar-se dos corredores, como são investigados os incidentes e que resposta é permitida quando uma das partes considera que houve uma violação do acordo.
O regime jurídico do estreito continuaria a ser disputado. O Irão não ratificou a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar e não aceita todas as interpretações defendidas pelos Estados Unidos e pelos seus aliados acerca da passagem em trânsito. Washington não poderia tratar uma eventual intervenção de Omã ou uma participação iraniana em mecanismos de supervisão como se correspondessem a uma administração conjunta já reconhecida.
Teerão procurará ligar qualquer concessão em Hormuz ao alívio das sanções, ao programa nuclear, aos mísseis e às operações israelitas no Líbano e noutros territórios. Os Estados Unidos tentarão impedir que a segurança da navegação se transforme num reconhecimento formal do poder iraniano sobre a rota.
O acordo nuclear de 2015 demorou meses a ser negociado e concentrava-se sobretudo num dos problemas. Uma nova negociação teria de conciliar vários dossiês depois de ataques que atingiram dirigentes, militares, instalações e infraestruturas.
A redução dos ataques em junho permitiu retomar parte da navegação. O entendimento desfez-se antes de serem definidas as condições políticas e operacionais da passagem.
Teerão exige garantias sobre Israel
Uma negociação entre Washington e Teerão incluirá inevitavelmente exigências relativas a Israel.
O Irão atribui aos Estados Unidos responsabilidade pelas ações israelitas e procurará obter garantias sobre ataques no Líbano, na Síria e contra posições iranianas. Washington pode exercer pressão sobre o Governo israelita, suspender o apoio a determinadas operações ou condicionar o fornecimento de armamento. Não pode assegurar antecipadamente que nenhuma decisão israelita contrariará o acordo.
Esta limitação surgiu já durante os contactos sobre o conflito. Trump pediu a Benjamin Netanyahu que começasse a retirar forças da Síria e prosseguisse o reposicionamento no Líbano. Em paralelo, os Estados Unidos enviaram mais aviões de reabastecimento para apoiar a capacidade operacional israelita.
Teerão pretende que Washington assuma o controlo sobre um aliado cuja margem de decisão é, em vários momentos, autónoma. Israel, por sua vez, não aceitará facilmente que a liberdade de navegação em Hormuz seja obtida através de restrições às suas operações contra o Hezbollah ou contra forças iranianas.
Um ataque israelita considerado por Teerão uma violação poderia provocar uma nova interrupção do tráfego. A administração norte-americana ficaria então obrigada a escolher entre responsabilizar Israel, aceitar a resposta iraniana ou retomar os bombardeamentos.
Um acordo sobre Hormuz ficaria exposto a ações israelitas, iranianas ou de grupos aliados que Washington e Teerão não conseguissem impedir.
O prazo legal recomeçou em julho
O Congresso aprovou resoluções destinadas a limitar ou terminar as operações militares contra o Irão. A administração respondeu através da forma como classificou cada período da campanha.
Quando o cessar-fogo entrou em vigor, a Casa Branca declarou terminadas as principais operações. Sustentou que o prazo de 60 dias previsto na War Powers Resolution deixara de decorrer.
Os ataques recomeçaram em julho. Trump enviou então uma nova comunicação ao Congresso, descrevendo a intervenção como limitada e defensiva. A notificação abriu outro período de 60 dias. (Roll Call)
A presença de tropas, navios e aviões manteve-se entre os dois momentos. A interrupção jurídica não exigiu uma retirada militar. Bastou à administração considerar que a fase anterior terminara.
As votações do Congresso não impediram a administração de atribuir uma classificação diferente a cada fase da campanha. A comunicação enviada ao poder legislativo tratou sucessivamente as operações como hostilidades, cessar-fogo, ações defensivas e retoma limitada.
O financiamento oferece aos legisladores um instrumento mais direto. No final de junho, a administração pediu 87,6 mil milhões de dólares adicionais. Desse montante, 67,1 mil milhões destinavam-se ao departamento responsável pela defesa.
O pedido incluía 17,3 mil milhões para custos operacionais, 21 mil milhões para munições, 2,4 mil milhões para drones e 12,1 mil milhões para programas classificados. (Casa Branca)
A aprovação dessas verbas permitiria substituir o armamento utilizado, manter forças na região e financiar novas operações. Não obrigaria a administração a definir o acontecimento que consideraria suficiente para retirar essas forças.
As verbas pedidas financiam munições, operações e a permanência militar. O documento não fixa uma condição para retirar as forças nem define que resultado encerraria a campanha.
Ataques, ocupação, escolta ou acordo
Novos ataques podem destruir meios costeiros e reduzir temporariamente a frequência das operações iranianas. Não permitem garantir que todos os lançadores móveis, drones ou dispositivos de minagem foram encontrados.
Uma intervenção em Kharg ou no litoral mudaria a campanha. As forças norte-americanas passariam a ocupar posições dentro do Irão e teriam de assegurar o abastecimento e a proteção dessas posições.
A circulação também pode aumentar através de escoltas, desde que navios, aviões, sistemas antimíssil e equipas de desminagem permaneçam no Golfo. Uma negociação reduziria essa necessidade, mas Teerão dificilmente aceitará limitar Ormuz sem contrapartidas relativas às sanções, à segurança ou às condições de passagem.
A administração pode contabilizar instalações destruídas, depósitos atingidos e danos infligidos ao programa nuclear e ao arsenal iraniano. O tráfego comercial continua, apesar disso, muito abaixo do nível anterior à guerra.
A Arábia Saudita mantém uma parte substancial das exportações desviada para o Mar Vermelho. Os Estados Unidos continuam a atacar posições iranianas e a conservar forças para proteger a navegação. Ormuz permanece dependente de proteção militar e de um acordo que ainda não foi alcançado.
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