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Drones e artilharia na Ucrânia: quem decide as compras militares
A queda de Mykhailo Fedorov
Nos meses que antecederam a saída de Mykhailo Fedorov do Ministério da Defesa, empresas ucranianas receberam indicações de que o Estado deixaria de comprar munições de artilharia. O ministério contaria com as reservas disponíveis e aplicaria mais dinheiro em drones.
Fedorov confirmou que cancelara ou submetera a novos concursos contratos de projéteis de 155 milímetros, o calibre utilizado por vários obuses fornecidos pelos países da NATO. Suspendeu também a aquisição das versões de menor alcance. Disse ter poupado 100 milhões de dólares e garantiu que a Ucrânia continuaria a comprar munições capazes de atingir alvos mais distantes.
A informação transmitida aos fabricantes era mais ampla. Segundo um responsável da indústria militar, assessores do ministro comunicaram que não seriam adquiridos novos projéteis de artilharia de qualquer tipo. As forças deveriam consumir o que já existia nos depósitos, enquanto os drones assumiam uma parte crescente dos ataques.
O general Oleksandr Syrskyi recusou essa orientação. Nas frentes do leste, onde as forças russas continuavam a pressionar as posições entrincheiradas, o comandante-chefe considerava que os projéteis permaneciam indispensáveis. A artilharia podia disparar quando o vento, o nevoeiro ou a chuva impediam a operação de pequenos aparelhos. Também conseguia manter fogo sobre uma área durante mais tempo do que uma equipa de drones.
A divergência chegou a Volodymyr Zelensky. Fedorov declarou depois que Syrskyi apresentara ao Presidente um ultimato: um dos dois teria de sair. Zelensky afastou o ministro, de 35 anos, com seis meses no cargo.
A escolha resolveu o conflito entre os dois responsáveis, mas não a incompatibilidade que o produzira. O Ministério da Defesa controla os contratos e as verbas. O Estado-Maior, dirigido por Syrskyi, define as necessidades das forças. Fedorov podia suspender uma encomenda que o comandante considerava necessária; Syrskyi podia exigir equipamento sem controlar diretamente o processo que o adquiria.
Um ministério usado para alterar o exército
Fedorov chegara à Defesa depois de dirigir a transformação digital do Estado ucraniano. A sua relação com o setor tecnológico formara-se antes da invasão russa e aprofundara-se durante a guerra, quando empresas, programadores, voluntários e unidades militares começaram a desenvolver aparelhos adaptados às necessidades da frente.
No ministério, tentou reduzir a demora entre a identificação de um problema e a entrega de uma solução. Os fabricantes deveriam receber informação dos militares, modificar os equipamentos e regressar rapidamente com novos modelos. Os contratos públicos deixariam de funcionar apenas como compras administrativas: serviriam para obrigar a indústria a acompanhar as mudanças no campo de batalha.
Os drones ocupavam a maior parte dessa política. Fedorov procurou transformar iniciativas dispersas num sistema nacional, com produção em grande escala e financiamento do Estado. A escolha não dependia apenas da eficácia dos aparelhos. Dependia também do seu preço.
Um pequeno drone carregado com explosivos pode destruir um veículo que custa centenas de vezes mais. Pode atingir uma posição sem aproximar uma tripulação e ser substituído com maior facilidade do que um blindado ou um sistema de artilharia. Equipas pequenas conseguem operar vários aparelhos, observar movimentos inimigos e corrigir ataques executados por outras unidades.
A Ucrânia já utilizava estes sistemas em grande número antes de Fedorov assumir a Defesa. Durante a sua passagem pelo ministério, as compras aumentaram. O período coincidiu com a estabilização da frente e com ataques que atingiram instalações de petróleo e gás dentro da Rússia, reduzindo uma parte da sua capacidade de refinação.
A associação entre esses resultados e o programa de drones tornou Fedorov uma das figuras mais reconhecidas do governo. O ministro aparecia ligado a uma área na qual a Ucrânia conseguira inovar sem depender exclusivamente da entrega de equipamento estrangeiro.
Essa visibilidade viria a acompanhar a discussão militar que o afastou.
O campo de batalha já mudou
Os aparelhos explosivos provocam, segundo estimativas utilizadas no debate ucraniano, cerca de quatro quintos das baixas dos dois lados. A sua presença alterou a forma como soldados e veículos se deslocam perto da linha da frente.
Uma estrada pode ficar sob observação durante horas. Quando surge um camião de abastecimento, um veículo blindado ou um grupo de soldados, a imagem é transmitida ao operador. O aparelho pode atacar diretamente ou fornecer coordenadas a outra arma.
As peças de artilharia também são localizadas dessa forma. Depois de disparar, uma unidade dispõe de pouco tempo para abandonar a posição antes de ser atingida. Abrigos, redes e sistemas de interferência eletrónica tornaram-se parte do equipamento comum, porque a ameaça já não vem apenas de projéteis ou aviões.
Fedorov pretendia retirar mais soldados de tarefas que poderiam ser atribuídas a máquinas. Sistemas terrestres transportariam munições, colocariam minas ou evacuariam feridos. Outros poderiam aproximar-se de posições russas sem expor a infantaria. Os aparelhos aéreos continuariam a reconhecer alvos e a transportar explosivos.
A Ucrânia tinha uma razão material para acelerar essa mudança. A Rússia dispõe de uma população maior e pode mobilizar mais homens. Cada função transferida para uma máquina reduz, pelo menos em teoria, a necessidade de colocar um soldado no ponto mais exposto.
Os militares que criticavam Fedorov não negavam essa vantagem. Contestavam a ideia de que o processo estivesse suficientemente avançado para justificar o corte no equipamento convencional.
Os drones voam mal em determinadas condições meteorológicas. Dependem de comunicações que podem ser perturbadas. As forças russas alteram frequências, reforçam a guerra eletrónica e cobrem posições ou vias de circulação com redes. Um aparelho que funciona durante algumas semanas pode perder eficácia quando o adversário identifica o seu sistema de controlo.
A produção tem de responder continuamente a essas adaptações. O software, as antenas, os componentes e os métodos de navegação são modificados durante a guerra, por vezes antes de um modelo completar o ciclo normal de aquisição.
A artilharia não enfrenta todos esses limites. Um projétil não perde a ligação ao operador nem precisa de localizar visualmente o alvo. Pode ser disparado durante o mau tempo e atingir repetidamente uma posição. Syrskyi entendia que as forças no leste não podiam prescindir dessa capacidade enquanto os drones ainda falhassem em condições previsíveis.
A infantaria continuava nas trincheiras
A automatização defendida por Fedorov também encontrava um limite territorial. Um drone pode destruir uma viatura, interromper uma coluna ou obrigar os soldados russos a abandonar um abrigo. Não consegue, por si só, ocupar a posição atacada.
As linhas ucranianas continuavam a depender de militares instalados em bunkers, trincheiras e edifícios destruídos. Eram esses soldados que impediam uma progressão russa, suportavam bombardeamentos e permaneciam no terreno depois de um ataque executado à distância.
A guerra tecnológica coexistia, assim, com combates que pouco diferiam das formas mais duras da guerra de posições. As unidades continuavam expostas à lama, ao frio, aos roedores e à necessidade de transportar munições para locais onde as viaturas podiam ser detetadas.
O desacordo entre Fedorov e Syrskyi incidia sobre o ritmo da substituição. O ministro aceitava retirar dinheiro a sistemas tradicionais para acelerar a mudança. O general considerava prematuro reduzir as compras antes de as alternativas cobrirem as situações em que os soldados continuavam a pedir artilharia.
Quando Fedorov suspendeu as munições de curto alcance, a escolha deixou de ser uma proposta para o futuro. Passou a afetar aquilo que poderia chegar às unidades durante a guerra em curso.
Contratos, reservas e interesses instalados
Fedorov atribuiu parte da resistência às suas reformas a interesses comerciais. Segundo o antigo ministro, a alteração dos contratos prejudicara as empresas que contavam com a continuidade das encomendas. O Estado, afirmou, estava a ser criticado por interferir com a estratégia de negócio de um fornecedor.
A acusação não permite determinar quanto da oposição resultou da defesa de contratos existentes e quanto decorreu das necessidades apresentadas pelos militares. Uma empresa tinha interesse em continuar a vender projéteis. O Estado-Maior podia, ao mesmo tempo, considerar que esses projéteis faziam falta.
Também a poupança de 100 milhões de dólares anunciada por Fedorov dependia de uma condição que não estava demonstrada: a de que as munições canceladas não fossem necessárias antes de ser possível substituí-las ou adquirir novos lotes.
A quantidade disponível nas reservas tornou-se, por isso, decisiva. Se os depósitos contivessem projéteis suficientes para sustentar as operações, o ministério poderia deslocar recursos sem provocar uma carência imediata. Se o consumo ultrapassasse as estimativas, a reabertura posterior dos contratos demoraria a produzir novas entregas.
Esses números não foram apresentados publicamente no relato da disputa. Permaneceram no interior do governo e das forças armadas, embora servissem de base a decisões opostas.
Fedorov olhava para a despesa e via dinheiro imobilizado num sistema que queria substituir. Syrskyi olhava para as mesmas encomendas e via uma capacidade que ainda não podia perder.
Zelensky considerou afastar os dois
Segundo o jornal ucraniano Ukrainska Pravda, Zelensky disse a membros do seu partido que desejara substituir Fedorov e Syrskyi, começando de novo com outra equipa. Não o fez porque afastar simultaneamente o ministro da Defesa e o comandante-chefe criaria uma mudança demasiado ampla durante as operações.
O Presidente preservou o comando militar. A substituição de Fedorov, embora pudesse perturbar as ligações estabelecidas com os fabricantes de drones, não alterava diretamente a cadeia que conduzia as forças na frente.
Assessores presidenciais iniciaram depois conversações com o antigo ministro sobre uma possível função dentro do governo. Fedorov afirmou ter recusado propostas de empresas de Silicon Valley após o despedimento.
A hipótese de regressar à administração não impediu as manifestações em Kiev e noutras cidades. Milhares de pessoas exigiram a sua reintegração. Alguns cartazes pediam diretamente o regresso de Fedorov; outro avisava que os manifestantes dispunham de muito mais cartão para continuar a protestar.
A reação mostrou que uma disputa sobre as compras militares tinha adquirido uma dimensão pública pouco comum. Parte dos ucranianos não via Fedorov apenas como o responsável pelos contratos. Via-o como o político associado à capacidade de reduzir a vantagem russa através de tecnologia produzida no país.
A popularidade que deixou de ser neutra
Fedorov nunca declarou a intenção de se candidatar à Presidência. Analistas e políticos da oposição passaram, ainda assim, a considerá-lo um possível concorrente num período posterior à guerra.
A sua idade, o trabalho anterior na digitalização do Estado e o contacto com empresas tecnológicas distinguiam-no dentro do governo. Os drones acrescentaram resultados militares visíveis: ataques filmados, números de produção e operações contra alvos russos que podiam ser apresentados ao público.
Mykola Davydiuk, deputado do partido oposicionista Holos, afirmou que a popularidade dos drones contribuíra para a saída do ministro. Na sua interpretação, assessores de Zelensky convenceram o Presidente de que Fedorov estava a concentrar demasiada atenção.
Não existem elementos no relato que permitam estabelecer que esse receio determinou o afastamento. A disputa com Syrskyi era concreta e incidia sobre as munições utilizadas na frente. A leitura política ganhou força porque outras figuras populares ligadas à guerra também tinham sido retiradas dos seus cargos ou transferidas para funções diferentes.
Valeriy Zaluzhny, anterior comandante-chefe, alcançara níveis de popularidade superiores aos de Zelensky e era apontado como possível candidato presidencial. Foi substituído por Syrskyi e enviado para Londres como embaixador.
Kyrylo Budanov deixou a direção dos serviços de informações militares para assumir a chefia do gabinete presidencial. Analistas interpretaram a mudança como uma forma de manter junto de Zelensky outra figura com projeção pública e potencial político.
Fedorov não tinha o comando de tropas, ao contrário de Zaluzhny, nem dirigia os serviços militares, como Budanov. Era um membro do governo escolhido por Zelensky. A sua projeção nasceu de uma política pública que o Presidente apoiara e que depois entrou em conflito com o comandante das forças armadas.
O programa ficou sem o seu principal responsável
A saída de Fedorov não obrigava o Ministério da Defesa a abandonar os drones. O seu sucessor poderia manter os contratos, as equipas técnicas e o contacto com os fabricantes. Também poderia devolver à artilharia parte do dinheiro transferido durante os seis meses anteriores.
A continuidade dependeria de decisões administrativas pouco visíveis: encomendas efetivamente assinadas, pagamentos realizados dentro dos prazos, testes de novos aparelhos e permanência dos funcionários que ligavam as unidades à indústria.
Syrskyi conservou a capacidade de fixar prioridades militares. Depois do conflito, tornou-se mais difícil para o ministério cancelar uma compra de munições contra a posição do comandante sem levar novamente a disputa ao Presidente.
Continuou, porém, a faltar uma regra para situações semelhantes. O ministério podia concluir que um contrato custava demasiado ou financiava equipamento prestes a ser ultrapassado. O Estado-Maior podia responder que a necessidade existia naquele momento e que os soldados não podiam esperar pela alternativa prometida.
A remoção de Fedorov resolveu quem permanecia no cargo. Não esclareceu quem poderá suspender uma encomenda de munições quando o Ministério da Defesa e o comando militar voltarem a apresentar respostas diferentes.
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