OPINIÃO · Geopolítica e Poder · Ucrânia / Estados Unidos · Indústria de defesa · Alberto Carvalho
Como proteger uma fábrica de drones em Kiev
Donald Trump anunciou, a 8 de julho, que os Estados Unidos concederiam à Ucrânia uma licença para fabricar mísseis intercetores Patriot. Não explicou que partes do sistema seriam abrangidas, onde decorreria o fabrico nem quando poderia começar. Reconheceu também que as empresas envolvidas ainda não tinham sido informadas.
Kiev depende de sistemas produzidos por fábricas estrangeiras, sujeitos à capacidade dessas linhas, às autorizações dos governos e aos respetivos calendários de entrega. Uma licença de fabrico poderia reduzir parte dessa dependência. A declaração de Trump não esclareceu se o trabalho decorreria na Ucrânia, noutro país europeu ou em várias instalações. A diferença entre licença, montagem e fabrico reaparece no programa franco-britânico analisado em «O que poderá a Ucrânia fabricar do Storm Shadow».
Entretanto, o Ministério da Defesa russo afirmou ter atingido, no sudoeste de Kiev, uma unidade de montagem e armazenamento de drones. Segundo a versão divulgada pela TASS, especialistas de uma empresa ucraniano-americana trabalhavam no local, onde poderiam ser produzidos até mil aparelhos por mês. Moscovo identificou os modelos AQ-400 Scythe, AQ-100 Bayonet e RQ-100 Scout. Todos pertencem ao catálogo da Terminal Autonomy, que declara produzir na Ucrânia e nos Estados Unidos.
Dias mais tarde, o Guardian noticiou que a instalação atingida era propriedade dessa empresa. A informação foi atribuída a uma pessoa conhecedora da companhia. Nem a Terminal Autonomy nem o Ministério da Defesa ucraniano confirmaram publicamente a ligação. Os registos consultados pelo jornal demonstram que a sociedade foi constituída no Delaware em 2023, mas não que fosse proprietária daquele edifício. A capacidade mensal de mil aparelhos também procede apenas da versão russa. A atividade concreta realizada no local e a extensão dos danos permanecem sem confirmação independente.
A Terminal Autonomy apresenta o AQ-400 Scythe como um drone de ataque com alcance até 750 quilómetros. Segundo a empresa, o aparelho pode navegar com recurso a dados visuais e do terreno quando perde o acesso ao GPS e às comunicações. O AQ-100 Bayonet foi concebido para ataques de menor alcance e para produção em grandes quantidades. O RQ-100 Scout destina-se ao reconhecimento. A empresa afirma que estes sistemas já são utilizados em operações de combate.
Se a unidade desempenhava as funções descritas pela Rússia, os aparelhos que dela saíam contribuíam para a ação militar ucraniana. O registo americano da sociedade não alterava a utilização do edifício. Esse registo pode facilitar o financiamento da empresa, o acesso à tecnologia e a celebração de contratos nos Estados Unidos. As máquinas continuariam instaladas em Kiev e os drones manteriam o mesmo destino.
Pelo direito internacional humanitário, um edifício civil pode tornar-se um objetivo militar quando contribui efetivamente para a ação militar e a sua destruição oferece, nas circunstâncias existentes, uma vantagem militar definida. A classificação não autoriza qualquer ataque. Permanecem as obrigações de verificar o alvo, reduzir os danos incidentais e respeitar as regras de distinção e proporcionalidade.
Neste caso, não existe informação independente sobre a localização exata da unidade, as pessoas que se encontravam nas imediações ou as precauções adotadas pelas forças russas. Também não sabemos através de que meios o local foi identificado. A descrição inicial pertence a uma das partes na guerra.
- O Guardian atribuiu à Terminal Autonomy uma instalação de drones atingida no sudoeste de Kiev.
- A propriedade americana não impede que uma fábrica ligada à produção militar seja tratada pela Rússia como alvo.
- A produção na Ucrânia terá de ser distribuída por vários locais para continuar depois de um ataque.
Um drone pode perder eficácia quando a Rússia introduz uma nova forma de interferência. A equipa técnica terá então de alterar a antena, o software ou o método de navegação. Se os engenheiros estiverem próximos das unidades que usam o aparelho, a falha pode ser identificada e corrigida mais depressa. Quando a decisão passa por administrações e fábricas situadas noutro continente, a mesma alteração enfrenta contratos, autorizações de exportação, transporte e a necessidade de encontrar espaço disponível na linha de produção.
As fábricas ocidentais existentes foram construídas para ritmos diferentes dos impostos por uma guerra prolongada. Um lote pode demorar meses a ser reposto. Componentes baratos tornam-se escassos porque os fornecedores não estavam preparados para aumentar rapidamente a produção.
Instalar parte dessa capacidade na Ucrânia encurta o percurso entre a falha e a oficina. Coloca também os trabalhadores e as máquinas ao alcance dos mísseis russos.
Uma fábrica de drones reúne ferramentas especializadas, componentes eletrónicos, sistemas informáticos, fontes de energia e documentação técnica. Alguns trabalhadores acumulam conhecimentos que não podem ser recuperados através da simples compra de uma nova máquina. Se todos estes elementos estiverem concentrados no mesmo edifício, não é necessário destruir cada equipamento para interromper a produção. Basta tornar o local inutilizável, cortar a energia ou impedir o acesso das equipas.
As estruturas dos aparelhos podem ser produzidas numa unidade, os sistemas de navegação noutra e a montagem final num terceiro local. As ferramentas mais difíceis de substituir podem ter duplicados. Os componentes previstos para as semanas seguintes não precisam de permanecer junto da linha principal. Depois de um ataque, algumas equipas poderiam continuar a receber peças e a montar aparelhos noutro local. A substituição das máquinas atingidas decorreria sem suspender toda a produção.
Se a unidade atacada fabricava um número próximo dos mil drones mensais anunciados pela Rússia, uma interrupção de vários meses teria efeitos superiores à perda dos aparelhos que estavam no armazém. As forças ucranianas deixariam também de receber todos os lotes previstos para esse período.
Uma administração pode considerar rápida uma reconstrução concluída em três meses. Para a unidade militar que esperava receber novos aparelhos na semana seguinte, o atraso começa imediatamente. Ao fim desses três meses, o modelo poderá já ter sido alterado para responder a novas contramedidas russas.
A localização de uma fábrica não permanece secreta apenas porque o endereço não é divulgado. Os funcionários deslocam-se diariamente para o mesmo local. Os camiões entregam componentes. Os fornecedores estabelecem ligações regulares. O consumo de energia aumenta. Os satélites, os drones de reconhecimento, os agentes e as intrusões em redes informáticas acrescentam outras fontes de informação. Uma instalação de grandes dimensões produz mais movimentos e concentra uma parcela maior da capacidade que a Rússia procura interromper.
Os trabalhadores precisam de saber que o emprego inclui a possibilidade de sabotagem e de ataque direto. Os investidores têm de conhecer as consequências financeiras da perda de uma instalação. Os contratos devem estabelecer que equipamentos podem ser transferidos, para onde e em que prazo. Quando essas condições não são definidas antecipadamente, cada empresa terá de negociar a recuperação depois de a linha parar.
Os governos que promovem acordos de coprodução também não podem entregar toda a continuidade industrial à capacidade financeira do fabricante. Se uma instalação produz equipamentos necessários às forças ucranianas, a interrupção afeta a disponibilidade militar.
Algumas fábricas poderão receber proteção antiaérea. Muitas não receberão. A Ucrânia já tem de defender cidades, infraestruturas energéticas, aeródromos e posições militares com um número limitado de sistemas. Uma unidade sem proteção permanente continuará a precisar de controlo de acessos, segurança informática, fornecimento alternativo de energia e stocks colocados noutro local. Terá ainda de existir uma instalação capaz de receber parte da montagem.
A licença anunciada por Trump para os intercetores Patriot introduz um risco de outra dimensão. O Patriot é um dos sistemas mais importantes para a defesa aérea ucraniana. Uma fábrica envolvida no seu fabrico seria procurada pela Rússia com prioridade. Não sabemos se a licença abrangerá componentes fabricados noutro país, uma montagem parcial ou uma estrutura distribuída por vários aliados. A declaração americana também não permite concluir que alguma linha ficará em território ucraniano.
Se Washington e Kiev escolherem esse caminho, a utilização de tecnologia americana não protegerá o edifício. A importância dos intercetores aumentará o interesse russo em localizar as máquinas e interromper o trabalho.
O risco de ataque não deve impedir a produção. Aceitar esse limite permitiria à Rússia determinar onde a Ucrânia e os seus aliados podem fabricar armamento. Deve, contudo, determinar o modo como a fábrica é organizada. Antes da instalação das primeiras máquinas, será necessário saber quais dispõem de substitutos, onde serão guardados os componentes essenciais e que outra equipa poderá assumir a montagem.
A Terminal Autonomy apresenta os seus aparelhos como sistemas adaptáveis, de custo reduzido e adequados a grandes volumes. Essa produção fica vulnerável quando depende de ferramentas que só existem num local ou de uma equipa que não pode trabalhar noutro edifício.
O Ministério da Defesa russo apresentou o ataque no sudoeste de Kiev como a destruição de uma capacidade importante da indústria militar ucraniana. O Guardian acrescentou a possível propriedade americana. Ainda não sabemos se a unidade pertencia de facto à Terminal Autonomy nem quanto tempo ficará sem funcionar.
Quando uma linha não dispõe de máquinas e equipas alternativas, esse intervalo é suportado pelas unidades ucranianas que deixam de receber os drones previstos.
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