A Europa Precisa de uma Política para a Rússia que Dure Décadas

A entrevista da Dra. Susan Stewart ao Arcana News mostrou por que razão a sucessão de Putin não resolverá o problema russo e por que a resposta europeia terá de durar várias décadas.

Economia

Alberto Carvalho
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Alberto Carvalho é cronista e editor convidado do Arcana News, onde escreve sobre política, cultura e vida pública. É autor de mais de setenta artigos, combinando rigor crítico e clareza jornalística, com uma atenção permanente ao impacto social das decisões coletivas.
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Uma política europeia para a Rússia além de Putin

«É altamente improvável que os dirigentes russos que sucederem a Vladimir Putin tenham uma visão da situação geopolítica fundamentalmente diferente da dele.»

A Dra. Susan Stewart escreveu esta frase numa entrevista concedida ao Arcana News em 15 de julho de 2026. A investigadora sénior da Stiftung Wissenschaft und Politik, em Berlim, não afirmou que a Rússia esteja condenada a permanecer como hoje existe. Foi mais precisa: devido a uma combinação de razões históricas, sociológicas, geográficas, económicas e psicológicas, uma mudança significativa exigirá provavelmente várias gerações.

A Europa Precisa de uma Política para a Rússia

O essencial deste artigo

  • A saída de Vladimir Putin não garante uma alteração dos objetivos estratégicos russos.
  • A Europa terá de sustentar durante décadas a defesa da Ucrânia e a proteção das suas infraestruturas.
  • A sociedade civil ucraniana tornou-se um complemento essencial do Estado, mas não pode substituí-lo indefinidamente.
  • Os ciclos eleitorais europeus continuam a ser mais curtos do que a ameaça para a qual a política de segurança está a ser preparada.

Putin dirige o sistema russo atual, mas não inventou a necessidade de controlar o espaço vizinho, a ideia de que a segurança dos países próximos reduz a segurança da própria Rússia, a recusa de uma Ucrânia plenamente soberana e integrada no Ocidente ou a interpretação da influência europeia como perda russa.

Um sucessor poderá mudar o tom, procurar o levantamento de sanções, regressar a cimeiras, libertar alguns presos ou oferecer negociações que o atual Kremlin não aceitaria. Essas alterações teriam consequências próprias, mas não demonstrariam que Moscovo deixou de condicionar as escolhas externas dos países vizinhos.

Depois de crises sucessivas, os governos europeus procuraram quase sempre um ponto de regresso: uma nova relação, um reinício diplomático, um acordo económico capaz de disciplinar a política, um interlocutor que compreendesse melhor os benefícios da cooperação. Esperavam que a modernização aproximasse a Rússia da Europa e que a interdependência tornasse a agressão demasiado dispendiosa.

O comércio e a integração económica não impediram a invasão. Em setores como a energia, deixaram vários países europeus expostos a decisões tomadas em Moscovo.

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Esperar pelo próximo dirigente russo seria repetir o mesmo mecanismo sob uma forma ainda mais arriscada. O desaparecimento de Putin poderá abrir possibilidades políticas reais, mas não deve servir de fundamento a uma estratégia europeia. Um acontecimento incerto e sem calendário não pode substituir decisões que já são necessárias.

Em vez de procurar antecipar quem virá depois de Putin, a Europa terá de pensar nas condições políticas, sociais e institucionais que permitiriam a uma Rússia futura deixar de interpretar a independência dos seus vizinhos como uma derrota própria. Essas condições não dependem de uma única sucessão presidencial e não têm calendário previsível.

A zona cinzenta deixou de ser sustentável

Durante anos, a maioria dos governos europeus aceitou uma diferença prática entre a soberania dos Estados pertencentes às instituições euro-atlânticas e a soberania dos países situados entre essas instituições e a Rússia.

A Ucrânia, a Moldávia e a Geórgia eram formalmente independentes. As suas escolhas externas, porém, eram frequentemente avaliadas à luz da reação de Moscovo. Chamou-se prudência a esta desigualdade. A soberania existia juridicamente, mas permanecia condicionada no plano político.

A Dra. Susan Stewart identificou a invasão russa e a defesa ucraniana como os acontecimentos que alteraram esse entendimento. O ataque mostrou a natureza imperial do regime russo; a resistência da Ucrânia demonstrou que esse poder podia ser enfrentado. Sem a resposta das forças armadas, das instituições políticas e da sociedade ucranianas, afirmou, a mudança europeia não teria ocorrido.

O ataque justificou o apoio. A capacidade militar, política e social demonstrada pela Ucrânia convenceu depois vários governos de que esse apoio podia impedir Moscovo de alcançar os seus objetivos.

A União Europeia começou entretanto a transformar essa mudança política em procedimento institucional. Em junho de 2026, abriu com a Ucrânia o grupo negocial relativo aos fundamentos — Estado de direito, instituições democráticas e administração pública. No mês seguinte, avançou para o grupo das relações externas, incluindo política externa, segurança e defesa.

A adesão continua longe de estar concluída. Depende de reformas, avaliação técnica, decisões dos Estados-Membros e de um processo cuja duração não pode ser antecipada. Mas a posição da Ucrânia já não é a mesma. O país passou de objeto de equilíbrio entre a Europa e a Rússia para candidato à integração plena na ordem europeia.

A ocupação continua a impedir Kiev de exercer soberania sobre parte do território. Ao mesmo tempo, a invasão aproximou politicamente a Ucrânia das instituições europeias que Moscovo procurava manter afastadas.

A antiga zona intermédia reaparece em algumas propostas para terminar a guerra. Está presente quando se apresenta a limitação permanente da soberania ucraniana como preço natural da estabilidade ou quando um cessar-fogo é tratado como solução suficiente, sem esclarecer quem impedirá a Rússia de reorganizar forças e atacar novamente. Surge também quando se pede aos ucranianos que aceitem, em nome da segurança continental, condições que nenhum governo europeu aceitaria para o seu próprio país.

A integração europeia da Ucrânia avançou, mas parte das propostas de paz continua a pressupor concessões territoriais ou limitações de soberania semelhantes às que sustentavam a antiga zona cinzenta.

Stewart advertiu que mesmo governos europeus inclinados a alterar a atual dinâmica encontrariam resistência. Os ucranianos não permitirão que o Estado, a nação e a cultura sejam sacrificados à Rússia. Uma tentativa de regressar ao modelo da zona intermédia produziria maior instabilidade e poderia dividir o próprio continente quanto à arquitetura de segurança a seguir.

Qualquer acordo entre capitais europeias e Moscovo terá, portanto, de contar com a decisão dos próprios ucranianos. Durante demasiado tempo, parte da diplomacia europeia comportou-se como se o entendimento entre grandes potências pudesse determinar o destino dos países colocados entre elas. A guerra mostrou que essa capacidade de decisão nunca deixou de existir em Kiev.

Os ataques já não precisam de atravessar uma fronteira

A ameaça russa descrita por Stewart inclui guerra cibernética, desinformação, sabotagem, ataques a infraestruturas críticas e a possibilidade de ações cinéticas mais explícitas. A resposta que propõe combina dissuasão, contenção e defesa durante os próximos anos e, provavelmente, durante décadas.

Essa confrontação já alcança redes, serviços e instalações situados fora da Ucrânia.

Governos, empresas e serviços públicos europeus operam sistemas informáticos que podem ser penetrados sem mobilização militar visível. Cabos, redes energéticas, instalações industriais e comunicações tornaram-se componentes da segurança nacional. Campanhas de manipulação informativa procuram interferir nas decisões políticas antes de existir qualquer ataque convencional. A passagem de tropas por uma fronteira deixou de ser o único momento em que um Estado pode sofrer uma ação hostil.

O Conselho da União Europeia associa às campanhas híbridas russas atos de sabotagem, ataques cibernéticos, perturbação de infraestruturas críticas, interferência eleitoral e operações de informação. Em julho de 2026, as instituições europeias descreveram um ecossistema em que serviços de informações russos, grupos criminosos, empresas privadas e atores apresentados como independentes podem atuar sobre os mesmos alvos.

Este modelo dá a Moscovo margem para negar responsabilidade, testar respostas e distribuir operações por intermediários. Uma avaria pode ser acidental. Um incêndio pode ter várias causas. Um ataque informático pode partir de um grupo sem vínculo oficialmente demonstrado ao Estado russo. Observado isoladamente, cada episódio pode permanecer abaixo do limiar que justificaria uma resposta política forte.

A aquisição de blindados não protege uma rede elétrica contra intrusões informáticas, nem resolve as vulnerabilidades de portos, hospitais e sistemas de comunicações cuja interrupção pode paralisar funções essenciais.

A Europa terá de identificar os sistemas cuja falha impediria o funcionamento de serviços básicos, definir quem responde pela sua proteção, melhorar a partilha de informação e estabelecer em que condições uma ação clandestina desencadeia uma resposta coletiva. Essas regras terão de existir antes de surgir um ataque cuja dimensão já não permita hesitação.

Na zona híbrida, a resposta europeia continua frequentemente dependente de investigações demoradas, competências dispersas e níveis de prova difíceis de alcançar em tempo útil. Moscovo pode explorar o intervalo entre o momento do dano e o momento em que a responsabilidade fica suficientemente demonstrada.

Reduzir essa margem requer capacidade técnica, regras de resposta e continuidade administrativa. A proteção de infraestruturas também terá de deixar de ser tratada como matéria separada da política externa e da defesa.

O que sustenta um Estado em guerra

Forças armadas, produção económica, população, território, equipamento e capacidade institucional ajudam a medir os recursos disponíveis a um país. Não explicam inteiramente a continuidade do esforço ucraniano depois de anos de mortes, deslocações e destruição.

A Dra. Susan Stewart respondeu que todos os aspetos da resiliência ucraniana continuam a ser subestimados na Europa Ocidental. Destacou a capacidade da população para suportar privações materiais e traumas, continuar a apoiar as forças armadas e assumir tarefas que o Estado não consegue cumprir integralmente durante a guerra. Citou o fornecimento de equipamento e o alojamento de pessoas deslocadas entre as funções desempenhadas de maneira cada vez mais organizada pela sociedade.

Essa intervenção social não surgiu apenas depois da invasão em grande escala. A Ucrânia dispõe de redes cívicas, associações, voluntários, estruturas locais e formas de mobilização que se desenvolveram durante anos. A guerra ampliou-lhes as funções e aumentou o custo humano do seu trabalho.

A sociedade civil tornou-se, nas palavras de Stewart, um complemento essencial do Estado. A reconstrução terá de aproveitar essa capacidade sem desistir do reforço das instituições públicas e da sua responsabilização.

Redes locais podem alojar famílias deslocadas quando a administração não consegue responder, e cidadãos podem fazer chegar equipamento a unidades militares com maior rapidez. Essas respostas resolvem necessidades imediatas; não criam uma política pública de habitação nem um sistema regular de abastecimento militar.

Quando funções básicas continuam dependentes durante anos da mobilização voluntária e do sacrifício privado, a capacidade da sociedade também indica onde o Estado ainda não consegue responder.

Os parceiros europeus terão de evitar dois erros: criar estruturas paralelas que enfraqueçam a administração pública e transferir para organizações locais tarefas que o Estado deverá recuperar. A experiência, a fiscalização e a capacidade cívica acumuladas durante a guerra precisam de entrar em instituições mais eficazes, sem as substituir.

A segurança futura da Ucrânia dependerá de armas e garantias externas. Dependerá igualmente da forma como o país converter a mobilização criada pela guerra numa relação duradoura entre cidadãos e instituições.

O calendário político continua demasiado curto

O Conselho Europeu definiu como objetivo aumentar de forma decisiva a prontidão de defesa da União até 2030. Classificou a guerra russa contra a Ucrânia como um desafio existencial e afirmou que a segurança e a capacidade de defesa ucranianas terão de ser garantidas a longo prazo.

O objetivo de 2030 organiza investimentos e programas de defesa dentro de um calendário comum. A ameaça descrita por Stewart deverá prolongar-se para além desse prazo.

A produção de munições, a defesa aérea, a proteção de cabos, a segurança informática e o apoio à Ucrânia não voltarão automaticamente a uma escala anterior no último ano de uma estratégia europeia.

Stewart identificou diretamente a dificuldade: a combinação entre contenção, defesa e políticas orientadas para uma transformação russa de longo prazo adapta-se mal ao pensamento de curto prazo próprio dos ciclos eleitorais democráticos.

O regime russo mantém continuidade sem eleições livres nem alternância efetiva. Os Estados europeus terão de preservar eleições, debate público e mudanças de governo, sem permitir que os compromissos essenciais desapareçam com cada nova maioria.

Contratos plurianuais, encomendas industriais feitas com antecedência e responsabilidades definidas entre a União Europeia, os Estados e a NATO reduziriam a dependência de decisões tomadas apenas depois de cada emergência.

O apoio à Ucrânia continua sujeito a crises periódicas. Cada nova parcela transforma-se num debate sobre se ainda é necessária, se será excessiva ou se poderá provocar Moscovo. Anunciada como política de longo prazo, continua a ser executada através de autorizações sucessivas, cada uma sujeita a novo conflito político.

Este método dificulta o planeamento militar ucraniano, atrasa encomendas e reduz a segurança necessária para que os fabricantes aumentem a capacidade de produção. Permite ainda à Rússia calcular quanto tempo poderá ter de esperar por uma alteração política numa capital europeia ou em Washington.

A diminuição do interesse público ou a mudança de uma maioria parlamentar não altera as capacidades militares russas, a vulnerabilidade das redes europeias ou os calendários das fábricas de armamento. Os contratos, as reservas e os mecanismos de financiamento terão de estar definidos antes de o tema perder centralidade política.

Conter a Rússia sem fechar a possibilidade de mudança

Aceitar que uma transformação russa poderá exigir gerações não torna irrelevante o futuro do país.

A Europa precisa de dissuadir agressões, reduzir dependências, sancionar responsáveis, proteger infraestruturas e apoiar militarmente a Ucrânia. Precisa também de manter conhecimento sobre a sociedade russa, preservar o contacto com meios independentes e apoiar quem continua a documentar a repressão, a guerra e a corrupção.

Uma medida de defesa pode ser avaliada pela capacidade criada num prazo relativamente curto. O apoio a meios independentes, investigadores, organizações cívicas e pessoas capazes de preservar conhecimento sobre a sociedade russa poderá não mostrar resultados comparáveis durante anos. Interrompê-lo destruiria relações e competências difíceis de reconstruir.

O encerramento indiscriminado reduziria as ligações entre o exterior e os russos que rejeitam a guerra. A retoma geral das relações económicas e institucionais permitiria ao Kremlin recuperar instrumentos de influência. A política europeia terá de distinguir atividades, organizações, pessoas e fluxos financeiros segundo o risco concreto que representam.

A composição do próximo regime russo não depende das decisões europeias. Dependem delas o financiamento de capacidades usadas contra a Europa, o apoio à documentação da repressão e a preservação de canais que possam ter utilidade quando surgirem condições políticas diferentes.

Governos e instituições europeias precisarão de especialistas capazes de acompanhar durante anos as mudanças regionais, as redes económicas, os aparelhos de segurança, as elites e a sociedade russa. Esse conhecimento não pode voltar a ser reduzido sempre que as relações parecem estabilizar.

A entrevista da Dra. Susan Stewart retirou importância à pergunta sobre a identidade do próximo dirigente russo e colocou o problema na duração da política europeia. Putin terá sucessor. A Europa não sabe quando, em que condições nem com que consequências. Não pode, por isso, suspender até esse momento decisões que já afetam a defesa da Ucrânia e a segurança do continente.

Os próximos orçamentos nacionais e europeus terão de deixar de tratar o apoio à Ucrânia, a produção de defesa e a proteção de infraestruturas críticas como dotações excecionais renovadas depois de cada crise. Sem financiamento plurianual e responsabilidades previamente definidas, os fabricantes não conseguem investir com segurança e o planeamento ucraniano volta a depender de decisões tomadas já sob pressão.

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