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O que poderá sobreviver na Rússia depois de Putin
Em maio de 2025, Vladimir Putin disse que pensava constantemente na sua sucessão. A escolha, afirmou, caberia aos russos e deveria haver várias pessoas entre as quais pudessem escolher. Não indicou qualquer nome. Também não é conhecido um sucessor formalmente designado.
Dar a conhecer antecipadamente um herdeiro permitiria que essa figura começasse a reunir lealdades enquanto Putin permanecia no Kremlin. O silêncio não exclui a preparação de uma transição, mas impede que outro nome se torne, desde já, um polo visível dentro do regime.
O artigo 92.º da Constituição russa determina que, se o mandato presidencial terminar antecipadamente por demissão, incapacidade permanente por motivos de saúde ou destituição, deve realizar-se uma eleição no prazo máximo de três meses. Durante esse período, as funções presidenciais passam para o presidente do Governo, que não pode dissolver a Duma, convocar um referendo ou propor uma revisão constitucional.
Fica assim definido o titular provisório do cargo. O texto constitucional nada diz sobre a distribuição das lealdades nos serviços de segurança, na administração presidencial, no Conselho de Segurança, nas forças armadas, entre os governadores regionais ou nas empresas estatais durante uma sucessão real.
O presidente interino receberia as competências constitucionais. O exercício efetivo do poder dependeria das relações construídas durante mais de duas décadas entre Putin, os dirigentes dos organismos de segurança, os administradores de empresas públicas, as chefias militares, os responsáveis regionais e as redes informais que atravessam as instituições russas.
Uma sucessão poderia ocorrer no final de um mandato, através de uma transição preparada, por incapacidade ou como consequência de uma rutura entre grupos do regime. O modo como Putin deixasse o cargo condicionaria a disputa pelos recursos, pelas forças coercivas e pelo aparelho administrativo.
Quem controlaria o Estado
A presidência russa tornou-se o centro de um sistema no qual o Governo, o Parlamento, os governadores, os principais interesses económicos e os organismos de segurança foram subordinados ao poder executivo. Putin ocupa esse centro, mas não o esgota.
Em 2023, a Chatham House estudou um cenário deliberadamente desfavorável ao Kremlin: a fase ativa da guerra terminaria com uma derrota russa e Putin seria substituído. O autor advertiu repetidamente que o exercício não constituía uma previsão. Ainda assim, concluiu que as características centrais do sistema político russo continuariam reconhecíveis no final de 2027.
A nova liderança encontraria uma presidência executiva dominante, uma administração presidencial capaz de condicionar o Parlamento, regiões recentralizadas e um regime que neutralizou grande parte da oposição e dos meios de comunicação independentes. Encontraria também organizações e redes pessoais criadas ao redor de Putin, algumas das quais não correspondem à estrutura formal descrita na Constituição.
Sem a autoridade acumulada por Putin, o sucessor teria de gerir a coligação de elites que o tivesse conduzido ao cargo. Os grupos responsáveis pela transição poderiam tentar conservar influência sobre o exercício das competências presidenciais e sobre a distribuição de recursos.
Durante algum tempo, essa dependência poderia obrigar o novo presidente a governar por acordo entre diferentes grupos. A concentração do poder só regressaria à forma atual se ele conseguisse afastar aliados, reorganizar os organismos de segurança e criar redes próprias.
Uma transição preparada pelo Kremlin poderia reduzir algumas formas de repressão ou devolver funções a instituições que tinham perdido autonomia. A oposição continuaria provavelmente limitada. Se a sucessão abrisse disputas dentro das elites ou resistência nas regiões, os serviços de segurança poderiam adquirir ainda mais peso.
A Chatham House admite estes percursos diferentes. Mesmo no cenário de maior abertura, o sistema continuaria autoritário e os organismos de segurança conservariam influência. Uma alteração do discurso ou do grau de repressão poderia ocorrer sem atingir as instituições que sustentaram o regime.
As dependências criadas pela guerra
A Rússia destinou cerca de 16 biliões de rublos à guerra e a outras despesas militares em 2025, o equivalente a 7,5% do produto interno bruto. O orçamento inicial para 2026 reduziu o valor para 14,9 biliões de rublos, ou 6,3% do PIB, embora o SIPRI tenha advertido que as dotações poderiam voltar a ser alteradas durante o ano.
Aplicando outra metodologia, o mesmo instituto estimou que a despesa militar russa atingiu 190 mil milhões de dólares em 2025. A Rússia permaneceu como o terceiro maior investidor militar do mundo, depois dos Estados Unidos e da China.
O dinheiro não financiou apenas as unidades empenhadas na frente. Partes da indústria de defesa passaram a funcionar em produção contínua. Empresas civis foram orientadas para o fabrico de bens com aplicação militar. A produção de drones, munições e outros sistemas aumentou, apesar das limitações de mão de obra, maquinaria, componentes e capacidade industrial.
A Rússia conseguiu sustentar o atual ritmo operacional apesar dessas limitações. Empresas, trabalhadores e equipamento ficaram, entretanto, ligados a uma estrutura produtiva orientada para a guerra.
O recrutamento foi integrado no mesmo mecanismo. Os militares contratados recebem salários elevados e prémios pagos pelas autoridades federais e regionais. Em alguns casos, esses pagamentos superam várias vezes o salário médio. As regiões suportam simultaneamente metas de recrutamento e despesas associadas aos combatentes e às respetivas famílias.
A despesa militar manteve empresas em funcionamento e sustentou parte da atividade económica. Desviou também trabalhadores e recursos dos setores civis, agravando a inflação e a escassez de mão de obra. O Serviço de Investigação do Congresso dos Estados Unidos considera que uma futura reconversão provocaria novas perturbações, porque os investimentos, os equipamentos e a formação foram, entretanto, orientados para a produção militar.
O alívio das sanções, o acesso à tecnologia e a recuperação das relações comerciais seriam atraentes para um sucessor que pretendesse reduzir a pressão sobre a economia. Esse governo teria de lidar com empresas, trabalhadores e regiões cuja atividade passou a depender das encomendas militares.
Uma redução súbita da despesa afetaria os rendimentos e os empregos. A desmobilização de combatentes acrescentaria outra exigência, sobretudo se o Estado tivesse de garantir benefícios, ocupação profissional e estabilidade social num período de baixo crescimento.
Uma abertura diplomática poderia, assim, começar enquanto grande parte da base industrial criada durante a guerra permanecia em atividade e dependente de contratos públicos.
Uma política anterior a Putin
A influência russa sobre os territórios anteriormente integrados na União Soviética não começou com Putin.
Durante a década de 1990, a Rússia esteve envolvida em vários conflitos no espaço pós-soviético. A sua intervenção assumiu formas distintas: presença militar, apoio a forças locais, participação direta, mediação e operações apresentadas como manutenção da paz. Moscovo declarou ainda a proteção das populações russas no chamado «estrangeiro próximo» como uma prioridade da política externa.
A fraqueza económica e militar da Rússia limitava a escala dessas operações. Não eliminava a pretensão de conservar uma posição especial nos Estados que tinham pertencido à União Soviética.
Eugene Rumer, da Carnegie Endowment for International Peace, insere a confrontação atual numa tradição mais longa. Na sua análise, a insegurança russa resulta da geografia, da cultura estratégica e da procura de profundidade territorial. A perda do controlo sobre a Europa de Leste e o alargamento das instituições ocidentais são interpretados em Moscovo como uma diminuição simultânea da segurança e do estatuto de grande potência.
Rumer não apresenta a guerra como inevitável nem retira ao Kremlin a responsabilidade pelas decisões tomadas. A Rússia já tratava as relações com os países vizinhos como uma questão de estatuto e segurança antes da chegada de Putin à presidência.
A Chatham House considera que algumas premissas centrais da visão do atual presidente dispõem de apoio alargado entre as elites russas: a Rússia deve constituir um dos polos do sistema mundial, deve ser reconhecida como grande potência e deve conservar uma posição dominante no espaço pós-soviético não báltico.
Um sucessor poderia considerar que a invasão da Ucrânia foi um erro, rejeitar os custos suportados ou procurar uma relação menos hostil com os Estados Unidos e a Europa. Continuaria a governar instituições e elites formadas num sistema que associa a segurança da Rússia à capacidade de limitar as escolhas estratégicas dos países vizinhos.
A Ucrânia, a Moldávia, a Geórgia e outros Estados teriam de poder escolher as suas alianças e instituições sem que o Kremlin tratasse essas escolhas como agressões contra a Rússia. Essa aceitação não decorreria da simples suspensão de uma campanha militar.
As capacidades que a sucessão não eliminaria
A guerra degradou parte importante das forças convencionais russas. Segundo o Serviço de Investigação do Congresso dos Estados Unidos, foram destruídos mais de 3.000 carros de combate, perderam-se unidades profissionais e o corpo de oficiais subalternos sofreu uma redução significativa.
A Rússia respondeu através de novo recrutamento, da ampliação da produção e da adaptação das táticas. Continua, contudo, a enfrentar dificuldades para formar forças capazes de executar operações complexas de manobra. Uma reconstrução parcial das capacidades convencionais poderá exigir vários anos.
Os serviços de informações, os meios cibernéticos, os mísseis, a experiência operacional e a indústria militar permaneceriam disponíveis durante esse período. O mesmo aconteceria com um dos dois maiores arsenais nucleares do mundo.
No início de 2026, a Federação de Cientistas Americanos estimava que a Rússia possuía cerca de 4.400 ogivas no stock militar e aproximadamente 5.420 no inventário total, incluindo ogivas retiradas e à espera de desmantelamento.
Um governo com forças convencionais desgastadas poderia utilizar com maior frequência instrumentos menos dispendiosos e mais difíceis de atribuir. Trata-se de uma inferência, não de uma previsão sobre qualquer sucessor. Parte desses instrumentos já é utilizada pelo Estado russo.
Em março de 2026, a NATO voltou a classificar a Rússia como a ameaça mais significativa e direta à segurança euro-atlântica. A Aliança atribuiu-lhe violações do espaço aéreo, sabotagem, atividades cibernéticas maliciosas, interferência política e operações de informação destinadas a testar os sistemas de segurança e a dividir as sociedades aliadas.
A NATO descreve uma campanha que inclui ações contra infraestruturas críticas, provocações nas fronteiras, desinformação, influência política maligna e coerção económica. Em julho de 2026, o Conselho do Atlântico Norte condenou novas atividades cibernéticas russas contra instituições governamentais e infraestruturas críticas dos aliados e parceiros.
Um sucessor interessado em estabilizar a relação com a Europa teria de impor limites aos organismos responsáveis por essas operações. A possibilidade de o fazer dependeria do controlo que conseguisse exercer sobre os serviços, dada a disponibilidade dos meios e a continuidade das estruturas.
Razões para procurar o Ocidente
A Rússia poderá terminar a guerra com forças convencionais desgastadas, uma economia pressionada e maior dependência da China em tecnologia, comércio e apoio industrial.
Rumer considera possível, e mesmo provável, que um sucessor tente reconstruir alguma relação com os Estados Unidos e a Europa. Uma abertura permitiria aliviar a pressão económica e recuperar margem de manobra perante Pequim.
A Chatham House admite igualmente uma retração autoritária acompanhada por uma aproximação limitada ao Ocidente. A liderança poderia concentrar-se na recuperação interna, procurar cooperação económica em áreas específicas e manter uma relação essencialmente adversarial com as potências ocidentais.
Poderiam ocorrer alterações no discurso, negociações sobre matérias delimitadas ou uma redução parcial da repressão interna. No cenário de maior relaxamento considerado pela Chatham House, surgem libertações de presos, maior espaço para meios de comunicação não estatais e participação limitada da oposição. O estudo não apresenta estes desenvolvimentos como prováveis. Inclui-os entre os resultados possíveis.
Os governos europeus teriam pouca informação para avaliar a mudança apenas através da identidade do sucessor e das suas primeiras declarações.
A retórica antiocidental poderia diminuir enquanto as forças russas permaneciam em território ucraniano. O Kremlin poderia pedir o levantamento de sanções sem interromper as operações clandestinas. As negociações sobre o controlo de armamento também seriam compatíveis com a recusa em reconhecer o direito dos países vizinhos a escolher as suas alianças.
Uma nova liderança poderia concluir que a guerra enfraqueceu a Rússia. A aproximação da NATO às fronteiras russas, a consolidação da identidade nacional ucraniana e a dependência crescente de Moscovo em relação à China forneceriam motivos concretos para rever a política seguida por Putin, embora não determinassem a resposta do regime a esses custos.
O aparelho que ficaria no lugar
A saída de Putin retiraria ao sistema a figura que arbitrou disputas internas, distribuiu recursos e tomou as principais decisões estratégicas durante mais de duas décadas.
A estrutura presidencial autoritária, os serviços de segurança, as forças armadas, o arsenal nuclear e a indústria militar ampliada durante a guerra continuariam a existir. As redes económicas dependentes do Estado e a conceção da Rússia como uma grande potência com interesses especiais no espaço pós-soviético também não desapareceriam com a transferência do cargo.
Os instrumentos cibernéticos, informacionais e clandestinos utilizados contra países europeus continuariam disponíveis.
Os grupos que hoje dependem diretamente de Putin poderiam perder influência, enquanto outros tentariam ocupar o espaço deixado na presidência. O novo dirigente teria margem para limitar os serviços de segurança, reduzir a despesa militar ou mudar a política externa, mas precisaria de obter autoridade suficiente para impor essas decisões.
No cenário estudado pela Chatham House, mesmo uma derrota seguida de sucessão não impediria que a nova liderança continuasse a definir a relação com o Ocidente em termos adversariais no curto prazo. O resultado poderia situar-se entre um regime mais pragmático e transacional e uma liderança ainda mais hostil. Em ambos os casos, a Rússia continuaria a representar um problema estratégico para os decisores ocidentais.
Rumer chega a uma conclusão próxima por outra via. Independentemente do desfecho da guerra, a Rússia poderá emergir economicamente enfraquecida e necessitada de uma pausa, mas também menos segura, mais ressentida e mais ameaçadora para a Europa do que antes da invasão.
As duas análises partem de cenários e não permitem antecipar a política de cada possível sucessor. Uma mudança de presidente, sem alterações observáveis no funcionamento do Estado e na política externa, não bastaria para confirmar ou refutar os cenários apresentados.
Os atos que a Europa teria de observar
A retirada de forças dos territórios ocupados seria um primeiro indicador. O respeito pelas fronteiras reconhecidas, o fim das operações clandestinas contra países europeus e a redução da pressão militar sobre os Estados vizinhos permitiriam avaliar se a alteração tinha ultrapassado o discurso.
Os compromissos precisariam de ser verificáveis. Os mecanismos de controlo de armamento, o acesso a observadores, o cumprimento de acordos e a possibilidade de restabelecer sanções em caso de violação reduziriam a dependência de garantias políticas pessoais.
A evolução interna também forneceria informação. A libertação de presos políticos, o funcionamento de meios de comunicação independentes e a existência de competição eleitoral ajudariam a distinguir uma substituição dentro das elites de uma mudança nas instituições do regime.
As reformas internas limitadas poderiam coexistir com uma política externa coerciva. Um acordo militar também poderia ser cumprido sem qualquer abertura política.
As sanções poderiam ser levantadas de forma gradual e reversível, à medida que fossem cumpridos compromissos identificáveis. A recuperação das relações económicas obedeceria ao mesmo critério. A situação no terreno, e não a impressão provocada pelos primeiros discursos do sucessor, continuaria a determinar o apoio militar à Ucrânia.
A capacidade de defesa europeia não poderia ser reduzida durante as negociações. A reconstrução das forças russas poderia avançar ao mesmo tempo que uma distensão diplomática. As fábricas, os programas de recrutamento e os sistemas de comando permaneceriam em funcionamento enquanto Moscovo procurava uma nova relação com o Ocidente.
Putin decidiu invadir a Ucrânia e presidiu à transformação do Estado russo que acompanhou a guerra. Depois da sua saída, as instituições, as forças militares, as empresas e os grupos que executaram essa política continuariam no lugar. Enquanto o novo poder não deixasse de usar a soberania dos países vizinhos como justificação para a pressão militar e política, os governos europeus teriam de avaliar as concessões feitas a Moscovo sem interromper a preparação para a reconstrução das forças russas.
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Se o sucessor de Putin mantiver a mesma linha ideológica, a Rússia tem capacidade de sustentar esse isolamento do Ocidente no longo prazo ou a pressão econômica vai forçar alguma abertura?