As esferas brancas e pretas vieram da Maçonaria?

Há esferas brancas e pretas nas lojas maçónicas e nas regras parlamentares portuguesas. O documento que ligue umas às outras continua por encontrar.

Economia

Alberto Carvalho
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Alberto Carvalho é cronista e editor convidado do Arcana News, onde escreve sobre política, cultura e vida pública. É autor de mais de setenta artigos, combinando rigor crítico e clareza jornalística, com uma atenção permanente ao impacto social das decisões coletivas.
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Uma esfera branca aprova. Uma preta rejeita. O gesto é conhecido nas lojas maçónicas, onde o escrutínio pode decidir a admissão de um candidato. Também figurou nas regras de votação de parlamentos portugueses. A semelhança convida a contar uma história de empréstimo: os deputados teriam levado para a Câmara um procedimento aprendido na loja.

Falta o documento que permita contá-la dessa maneira.

Esferas brancas e pretas

As regras da Grande Loja Unida de Inglaterra continuam a referir as bolas pretas no escrutínio de candidatos. Do lado parlamentar português, um regimento da Assembleia da República de 1988 ainda previa o escrutínio secreto «com listas ou com esferas brancas e pretas». Há, portanto, duas utilizações documentadas do mesmo objeto. Nenhuma dessas fontes explica de onde veio a escolha parlamentar.

O que os pelouros permitem comparar

Em Portugal, bolas usadas num processo de escolha aparecem muito antes do Parlamento liberal. A ordenação dos pelouros, promulgada por D. João I em 12 de junho de 1391, regulou a escolha de oficiais municipais. Nomes previamente selecionados eram encerrados em pequenas bolas de cera; a extração determinava quem exerceria os cargos.

Mas um pelouro não era um voto favorável ou contrário. A seleção de candidatos ocorria antes; a bola servia depois para o sorteio. Na votação por esferas brancas e pretas, cada participante escolhia a esfera correspondente à sua decisão. A diferença impede que se apresente a ordenação medieval como origem direta do escrutínio parlamentar. Mostra, isso sim, que o uso de pequenas bolas em procedimentos políticos não era estranho à história portuguesa.

Veneza oferece outra comparação. A república utilizou durante séculos processos eleitorais que combinavam votação e sorteio, incluindo a extração de esferas para formar grupos de eleitores. Existiam, portanto, práticas civis com esferas anteriores à institucionalização da Maçonaria moderna. Os processos venezianos tinham regras e finalidades próprias. A sua existência não demonstra que um deputado português os tenha tomado como modelo.

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Gravura de 1902 da Sala do Conselho Maior no Palácio Ducal de Veneza
Sala do Conselho Maior, no Palácio Ducal de Veneza. Gravura publicada em 1902 em La patria, de Gustavo Strafforello; autor da gravura não identificado. Domínio público. Fonte: Wikimedia Commons.

Estas distinções retiram força à resposta fácil. Também impedem substituí-la por outra igualmente fácil: encontrar uma tradição mais antiga não é descobrir a fonte de uma regra posterior.

Urna da Royal Philatelic Society London para votação secreta com bolas pretas
Urna do comité da Royal Philatelic Society London, usada na década de 1880 para votação secreta com bolas pretas. Fotografia: Philafrenzy / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0. Fonte.

A data que obriga a reler o caso

O primeiro regimento da Câmara dos Deputados da monarquia constitucional começou a ser preparado no fim de 1826 e foi aprovado a 23 de janeiro de 1827. O arquivo parlamentar descreve a eleição do presidente, do vice-presidente e dos secretários por listas secretas. Essa passagem não sustenta a afirmação, feita na versão inicial deste artigo, de que as Cortes cartistas escolheram em 1826 as esferas brancas e pretas para esses cargos.

É uma correção que altera a pergunta. Antes de procurar a influência da Maçonaria numa decisão tomada em 1826, é preciso identificar com precisão quando, em que câmara e para que votação as esferas foram introduzidas. Sem esse ponto de partida, a comparação com as lojas pode ser sugestiva, mas não reconstitui uma origem.

Também não se pode encerrar a história das esferas parlamentares em 1973. O regimento da Assembleia da República de 1988 ainda as mencionava como uma das formas possíveis de escrutínio secreto. Essa norma documenta a permanência do método nas regras; não diz, por si só, se houve votações efetivas com esferas nessa data.

A ligação maçónica permanece uma hipótese. O que está demonstrado é mais restrito: lojas maçónicas e instituições parlamentares usaram esferas brancas e pretas para exprimir uma decisão secreta; municípios portugueses e instituições venezianas usaram esferas noutros processos de escolha. Para passar da semelhança à filiação histórica, seria necessário encontrar a discussão, o regimento ou o testemunho que explicasse a adoção parlamentar. A presença de um avental maçónico no Museu da Assembleia da República mostra como objetos das lojas podem chegar a São Bento, mas não estabelece a origem de uma regra de votação. É esse elo, e não a existência das bolas, que ainda falta estabelecer.

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