A Colômbia Entra na Doutrina Trump

Com a posse prevista para Cali, De la Espriella alinha a Colômbia a Trump — mas o seu historial na narco-defesa de Miami não foi esclarecido

Economia

Alberto Carvalho
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Alberto Carvalho é cronista e editor convidado do Arcana News, onde escreve sobre política, cultura e vida pública. É autor de mais de setenta artigos, combinando rigor crítico e clareza jornalística, com uma atenção permanente ao impacto social das decisões coletivas.
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CONTEXTO · Geopolítica e Poder · Colômbia / EUA / Venezuela · Narcotráfico e poder político

De la Espriella e o narcotráfico: a posse que não se explica

De la Espriella, o narcotráfico e o passado que Washington não explicou

O essencial deste artigo
  • Abelardo de la Espriella deverá tomar posse a 7 de agosto em Cali — fora de Bogotá, se o Senado ratificar a nova sede aprovada pela Câmara.
  • Prometeu a Trump extraditar os narcotraficantes e apoiar a ofensiva antinarcóticos regional — a mesma doutrina que, em janeiro de 2026, retirou Maduro do poder na Venezuela.
  • Antes de emigrar para os EUA, De la Espriella propôs proibir a extradição de colombianos e assessorou as Autodefesas Unidas de Colômbia.
  • Em Miami, integrou o círculo de narco-defesa e empregou Jorge Luis Hernández, antigo traficante e informante da DEA.
  • Foi escrutinado — mas nunca acusado — por procuradores federais no âmbito do circuito financeiro de Alex Saab.
  • A extensão desse escrutínio nunca foi divulgada. Nenhuma das partes explicou como o processo terminou.
Cronologia
  • Anterior a 2013 — De la Espriella gere a Fundação Iniciativas de Paz e assessora as AUC; propõe proibir a extradição.
  • 2012 — Representa Dania Londoño Suárez no escândalo do Secret Service em Cartagena.
  • 2013 — Instala-se em Miami; começa a representar Alex Saab.
  • 2017–2018 — Hernández e Bagley branqueiam mais de 2,5 milhões de dólares das contas de Saab para pagar a advogados nos EUA.
  • 2018 — De la Espriella publica um livro defendendo o assassinato de Maduro.
  • 2019 — Saab é indiciado e sancionado; De la Espriella diz ter cortado relações.
  • 2020 — Saab é detido em Cabo Verde.
  • 2021 — Saab é extraditado para os EUA.
  • 2023 — Saab é libertado na troca negociada pela administração Biden; regressa a Caracas e é nomeado ministro.
  • Janeiro de 2026 — Uma operação militar dos EUA captura Maduro em Caracas; Delcy Rodríguez assume interinamente; Saab é destituído.
  • Fevereiro de 2026 — Saab é detido de novo em Caracas.
  • Maio de 2026 — Saab é deportado para os Estados Unidos.
  • 21 de junho de 2026 — De la Espriella vence o segundo turno por cerca de 250 mil votos.
  • 7 de agosto de 2026 — Posse prevista em Cali, dependente de ratificação final do Senado.

A cerimónia de posse de Abelardo de la Espriella, marcada para o dia 7 de agosto de 2026, deverá realizar-se na Arena USC, em Cali, se o Senado ratificar a nova sede aprovada pela Câmara dos Representantes. O Senado aprovou, por 55 votos contra 32, deslocar a sessão para o departamento do Cauca; a Câmara aprovou, por 117 votos contra 7, a alternativa de Cali, no Valle del Cauca.

A votação final do Senado sobre a nova localização permanece pendente. É uma quebra com a prática habitual das posses presidenciais colombianas, que decorrem no Congresso, em Bogotá — e a primeira demonstração de que a bancada de Salvación Nacional, o partido de De la Espriella, consegue somar maiorias variáveis num Congresso fragmentado, antes mesmo de o novo governo tomar posse. De la Espriella insistiu inicialmente em realizar a cerimónia, preferencialmente, numa instalação militar no sul do país; o Presidente cessante, Gustavo Petro, recusou-lho, invocando a mesma norma constitucional que o Congresso procurou contornar por via legislativa.

De la Espriella venceu o segundo turno, a 21 de junho, por uma margem muito estreita — cerca de um ponto percentual, pouco mais de 250 mil votos — sobre Iván Cepeda, o candidato apoiado por Petro. Petro, o primeiro presidente de esquerda da história colombiana, contestou o resultado, falando em fraude por via algorítmica sem apresentar provas públicas, e recusou reconhecer legitimidade ao governo que se prepara para lhe suceder; convocou manifestações para 20 de julho, dia da independência nacional, quase três semanas antes da data formal da transferência de poder. De la Espriella respondeu suspendendo o processo de transição, invocando indícios de corrupção em contratos do governo cessante sem detalhar quais, e acusando Petro e Cepeda de arquitetarem um «plano B» para se manterem no poder; pediu às Forças Armadas que desobedecessem a qualquer ordem de Petro considerada inconstitucional. Numa cerimónia de entrega da espada de Simón Bolívar, duas semanas antes de deixar o cargo, Petro respondeu afirmando que o presidente eleito obedece de forma direta ao governo dos Estados Unidos.

A insistência na instalação militar tem uma genealogia concreta. Antes de emigrar para os Estados Unidos, De la Espriella geriu a Fundação Iniciativas de Paz, organização que defendia o reconhecimento de direitos políticos a todos os atores armados do conflito colombiano e propunha alterar a Constituição para proibir a extradição de cidadãos colombianos. No mesmo período, prestou assessoria às Autodefesas Unidas de Colômbia, a principal confederação paramilitar de direita do país, e defendeu politicamente vários aliados acusados de ligação a esses grupos — alguns próximos da sua família desde a infância. A extradição que então propunha proibir é o principal instrumento que ofereceu a Donald Trump para justificar o alinhamento com Washington.

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Em 2012, já com esse historial, representou Dania Londoño Suárez, a mulher colombiana no centro do escândalo de prostituição com agentes do Secret Service norte-americano em Cartagena, negociando para ela um pré-acordo com a revista Playboy e uma entrevista à rede ABC. Instalou-se em Miami no ano seguinte, sem licença para exercer a advocacia na Florida — o que o obrigava a operar através de advogados localmente credenciados — e integrou o círculo de defesa jurídica que ajuda os arguidos latino-americanos a negociar colaboração com a Justiça dos Estados Unidos em troca de penas reduzidas. Empregou como colaborador Jorge Luis Hernández, antigo traficante que transportara droga por via marítima para comandantes paramilitares décadas antes e que, entretanto, se tornara informante de longa data de agências federais, incluindo a DEA. De la Espriella reconheceu conhecer Hernández, mas nunca confirmou publicamente terem trabalhado juntos; fotografias dos dois, tornadas públicas durante a campanha, alimentaram a acusação, que rejeitou, de ser um «advogado da máfia».

De la Espriella já anunciou a abertura, em Medellín, de um escritório do Escudo das Américas, a aliança de países liderada por Washington contra o narcotráfico — um gesto institucional anterior à própria posse. Fá-lo num país que termina o mandato de Petro com o pior nível de violência armada da última década, apesar da redução histórica da pobreza que a administração cessante também regista; foi nesse intervalo que De la Espriella, sem governo atrás de si, ganhou as eleições.

Desde 2025, os Estados Unidos classificam organizações ligadas ao narcotráfico latino-americano como «narcoterroristas» — uma moldura jurídica que autoriza ataques militares diretos a embarcações suspeitas de transportar droga, e não apenas apreensões ou processos judiciais; os primeiros bombardeamentos a alegadas narcoembarcações no Caribe e no Pacífico ocorreram ainda nesse ano. Em janeiro de 2026, uma operação militar norte-americana em Caracas capturou o Presidente venezuelano Nicolás Maduro e a sua mulher, Cilia Flores, levando-os para os Estados Unidos, onde ambos aguardam julgamento por narcoterrorismo, tráfico de droga e posse de armamento. A vice-presidente Delcy Rodríguez assumiu a presidência interina dois dias depois. Washington descreveu o resultado como transitório; sete meses depois, a Venezuela ainda não tem um processo político com desfecho definido.

Em 2013, De la Espriella começou a representar Alex Saab, empresário colombiano que procurou o seu escritório para tratar do que descreveu como «questões reputacionais», numa altura em que jornalistas venezuelanos e colombianos já questionavam como Saab obtivera um contrato superior a 150 milhões de dólares do governo venezuelano para fornecimento de material habitacional. A relação era incongruente desde o início: De la Espriella opunha-se publicamente a Maduro ao ponto de escrever, em 2018, um livro a defender o seu assassinato, enquanto Saab colaborava ativamente com as autoridades venezuelanas.

Entre 2017 e 2018, mais de 2,5 milhões de dólares saídos de contas de Saab no estrangeiro foram branqueados por Hernández e por Bruce Bagley, antigo docente da Universidade de Miami — ambos viriam a declarar-se culpados no Distrito Sul de Nova Iorque. O dinheiro destinava-se, segundo os processos judiciais, a pagar advogados de Saab nos Estados Unidos; os nomes desses advogados foram ocultados nos documentos. Foi neste circuito financeiro, e não pela relação de representação direta com Saab, que procuradores federais na Florida e em Nova Iorque escrutinaram o próprio De la Espriella, segundo pessoas com conhecimento direto da investigação. Nunca foi acusado; diz ter instado Saab a cooperar com as autoridades norte-americanas e ter cortado relações em 2019, quando este foi formalmente indiciado e sancionado — o que, como residente permanente nos Estados Unidos, o impedia de continuar a representá-lo sem licença especial.

Saab foi detido em Cabo Verde em 2020 e extraditado para os Estados Unidos em 2021. Libertado em 2023 numa troca de prisioneiros negociada pela administração Biden, regressou a Caracas e foi nomeado ministro por Maduro — cargo do qual Delcy Rodríguez o destituiu em janeiro de 2026, dias depois da captura do próprio Maduro. Em fevereiro, foi detido de novo em Caracas; em maio, foi deportado para os Estados Unidos, onde se encontra sob custódia a aguardar julgamento por atuar como agente financeiro do antigo líder venezuelano.

Iván Cepeda exige explicações sobre a relação entre De la Espriella e Hernández e avisou que recorrerá à desobediência civil caso o novo governo alinhe a Colômbia sem reservas com Washington. O gabinete do presidente eleito respondeu que o tema já foi «amplamente discutido» durante a campanha e que não considera oportuno voltar a ele; recusou-se especificamente a comentar o caso Saab. O senador Bernie Moreno e a representante María Elvira Salazar garantiram publicamente que De la Espriella não tem qualquer investigação aberta nos Estados Unidos; o Departamento de Justiça recusou comentar. Nenhuma destas afirmações resolve a outra: a garantia política de que não há inquérito em curso e o escrutínio federal confirmado, por fontes com conhecimento direto do processo, sobre a circulação do dinheiro de Saab podem ser simultaneamente verdadeiros se o inquérito tiver sido encerrado sem acusação — o que nenhuma das partes confirmou até agora.

O antigo contabilista de De la Espriella em Miami, Daniel Diaz de la Rocha, sustenta que este nunca enriqueceu de forma significativa com Saab: terá hipotecado as casas que foi sucessivamente comprando na Florida, de um apartamento junto ao mar a uma moradia em Pinecrest — algo que, segundo o próprio contabilista, não seria necessário a alguém com grandes somas de capital disponível.

A extensão exata do escrutínio federal a De la Espriella nunca foi divulgada por nenhuma das partes — nem pelos procuradores que o conduziram, nem pelo gabinete presidencial, que se recusa a discuti-lo. A partir de 7 de agosto, cabe-lhe assinar os pedidos de extradição que a Colômbia envia e recebe, e decidir o grau de cooperação com a arquitetura de segurança norte-americana. Esse é o mesmo sistema que, em Miami, examinou o circuito financeiro onde o seu nome também circulava. Nenhuma das partes explicou como esse processo terminou.

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