Linha editorial: Análise · Geopolítica e Poder · Cuba / Venezuela / EUA · Política externa americana e mudança de regime
Cuba não é a Venezuela. Por que razão o modelo não funciona
O essencial deste artigo
- A operação que removeu Maduro foi essencialmente negocial — uma transação com Delcy e Jorge Rodríguez, facilitada pela existência de petróleo e fações internas em competição.
- Cuba não tem petróleo, não tem fações visíveis em competição e não tem interlocutor identificado com autoridade para negociar uma transição.
- O regime cubano tem 67 anos de poder ininterrupto e sobreviveu a Fidel Castro — a estrutura não depende de nenhuma figura individual.
- O conhecimento americano sobre a dinâmica interna cubana deteriorou-se significativamente após o afastamento consular.
- Em fevereiro de 2026, Rubio sinalizou a abertura para reformas económicas. Semanas depois, Trump voltava a falar em “tomar Cuba”. Não há plano articulado além da pressão máxima.
Por que razão a estratégia americana que funcionou na Venezuela não é aplicável a Cuba
Em janeiro de 2026, uma operação americana retirou Nicolás Maduro do poder venezuelano. Foi taticamente brilhante, preparada durante meses, e produziu o resultado pretendido: a remoção de um único homem cuja legitimidade interna estava já comprometida pela derrota eleitoral de 2024. Nos corredores de Washington, a euforia foi imediata. E com ela veio uma ideia perigosa: que o mesmo podia ser feito em Cuba.
Porquê a Venezuela funcionou
A operação venezuelana não foi apenas militar. Foi essencialmente negocial. Delcy Rodríguez e o seu irmão Jorge — figuras com peso real dentro do regime — foram o canal através do qual a administração Trump construiu uma saída que serviu os interesses de ambos os lados. Maduro saiu. Uma fração do regime ficou. Os EUA ganharam acesso ao petróleo e à narrativa de vitória. Foi uma transação.
Para que essa transação fosse possível, várias condições tinham de estar reunidas. Maduro tinha perdido as eleições que todos sabiam ter perdido — a sua legitimidade interna estava corroída. O regime venezuelano era uma estrutura de fações em competição, não um bloco monolítico. Havia um setor privado com quem negociar e através do qual canalizar a transição. E havia petróleo — razão suficiente para que Washington investisse tempo, recursos e risco político numa operação desta natureza.
Cuba não tem nenhuma destas condições.
O que Cuba tem em vez disso
Cuba tem 67 anos de poder ininterrupto sob uma estrutura que aprendeu, ao longo de seis décadas e meia, a gerir o ritmo e o âmbito de qualquer mudança. Não é um regime de fações em competição visível. É um Estado profundamente enraizado, com instituições — militares, de segurança, partidárias — que não dependem de um único indivíduo para funcionar. Remover o líder visível não remove o Estado. A estrutura sobrevive.
Em Havana não existe uma Delcy Rodríguez. Não existe um interlocutor identificado com autoridade suficiente para negociar uma transição e com disposição para o fazer sob pressão americana. O conhecimento americano sobre a dinâmica interna do regime cubano deteriorou-se significativamente nos últimos anos — o afastamento consular após o incidente do alegado ataque sónico reduziu drasticamente a capacidade de leitura interna. A administração Trump começou este capítulo quase do zero em termos de mapeamento de quem é quem em Havana.
E depois há a questão económica. A Venezuela tinha petróleo — razão suficiente para que Washington investisse na operação e depois na gestão do resultado. Cuba não tem petróleo nem recurso equivalente de interesse comercial imediato. O que Cuba tem é uma economia destruída que precisaria de reconstrução — e a pergunta que ninguém em Washington quer responder em voz alta é quem paga essa reconstrução.
A tentação do modelo errado
Uma operação cirúrgica para remover um líder pressupõe que esse líder é o centro de gravidade do sistema — que a sua remoção cria a abertura para uma transição negociada. Em Cuba, essa premissa não se sustenta. O regime cubano sobreviveu a Fidel Castro e sobreviverá a qualquer figura individual. A estrutura é o regime, não o homem no topo.
Uma campanha de pressão militar limitada — ataques aéreos para “amolecer” o regime — esbarra no mesmo problema. Cuba pode perder todos os seus ativos militares, perder o controlo do espaço aéreo, e ainda assim não ceder. Porque ceder, para quem está no poder em Havana, implica potencialmente enfrentar consequências que considera piores do que a pressão externa — e essa lógica não muda com bombardeamentos.
Uma ocupação militar está fora da equação política americana. Ninguém em Washington fala dela porque ninguém a quer. Mas sem ocupação, não há garantia de que a remoção do regime produza o resultado desejado — e a história recente de intervenções americanas não encoraja o otimismo sobre o que vem depois.
O que sobra
Em fevereiro de 2026, o secretário de Estado Marco Rubio sinalizou que reformas económicas por parte de Havana poderiam ser suficientes para melhorar a relação. Era uma abertura — limitada, mas real. Semanas depois, o presidente Trump voltava a falar em “tomar Cuba”. Do ponto de vista de Havana, a mensagem era contraditória. Do ponto de vista de Washington, revelava o que a analogia venezuelana tende a esconder: não há um plano articulado para Cuba além da pressão máxima. Há um objetivo — mudança de regime — e há instrumentos de pressão. O que falta é o mecanismo que ligue um ao outro.
A Venezuela foi uma operação específica, construída sobre condições específicas, com um interlocutor específico, por um recurso específico. Nenhuma dessas especificidades existe em Cuba. Tratá-la como modelo não é estratégia. É wishful thinking (pensamento ilusório) com consequências reais para onze milhões de pessoas que vivem a cerca de 160 quilómetros da Florida.
Imagem: – cubajuan / Pixabay
Cuba fica a cerca de 160 quilómetros da Flórida, mas a proximidade geográfica não transforma a ilha num caso equivalente à Venezuela.
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