O Único Kissinger a Ir a Tribunal Foi Ela

Em 1982, um juiz de Newark levou duas horas a decidir que o gesto de Nancy Kissinger não passara de um beliscão. As decisões do marido sobre o Chile, o Camboja e a Argentina, hoje confirmadas por documentos desclassificados, nunca chegaram perto de um tribunal.

Economia

Alberto Carvalho
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Alberto Carvalho é cronista e editor convidado do Arcana News, onde escreve sobre política, cultura e vida pública. É autor de mais de setenta artigos, combinando rigor crítico e clareza jornalística, com uma atenção permanente ao impacto social das decisões coletivas.
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A 7 de fevereiro de 1982, no aeroporto de Newark, Ellen Kaplan, 29 anos, abordou Henry Kissinger com perguntas sobre o seu historial no Vietname. Kaplan distribuía panfletos em nome da Fusion Energy Foundation, uma organização pró-nuclear com ligações a Lyndon LaRouche. Segundo Dennis Speed, membro da fundação que a orientava, o objetivo do confronto era claro: fazer de Henry Kissinger “um motivo de riso”. Nancy Kissinger reagiu agarrando Kaplan pela garganta e perguntando, segundo o seu próprio testemunho posterior em tribunal: “quer levar uma bofetada?”

O Único Kissinger a Ir a Tribunal Foi Ela

O caso foi a julgamento a 10 de junho desse ano, no Tribunal Municipal de Newark. Durou duas horas. O juiz Julio Fuentes considerou que a reação tinha sido “espontânea, uma resposta humana a uma declaração ofensiva, associada à preocupação com o estado de saúde do marido”, que enfrentava uma cirurgia cardíaca e que se encontrava marcada. Nancy Kissinger descreveu o próprio gesto como um “beliscão”. Kaplan testemunhou que o aperto lhe doeu e a assustou. Não houve ferimentos comprovados. A acusação de agressão foi arquivada. À saída, Nancy Kissinger disse apenas: “ainda bem que acabou e que ficou para trás.”

Foi o único caso identificado nesta em que alguém do casal Kissinger se sentou perante um juiz para responder por uma conduta própria. Durou cento e vinte minutos e terminou nessa frase.

O que nunca abriu processo

Henry Kissinger ao telefone no gabinete de Brent Scowcroft, a 29 de abril de 1975
Henry Kissinger ao telefone no gabinete do vice-conselheiro de Segurança Nacional Brent Scowcroft, a obter atualizações sobre a situação no Vietname do Sul, 29 de abril de 1975. Fotografia de David Hume Kennerly. Domínio público, National Archives (NARA).

Nada no historial de Henry Kissinger como Secretário de Estado e conselheiro de Segurança Nacional teve tratamento equivalente. Não por falta de documentação. Por falta de fórum.

Sobre o Chile, um memorando da conversa de 15 de setembro de 1970 regista a ordem de Richard Nixon para “fazer a economia gritar” e impedir a posse de Salvador Allende, com Kissinger a desempenhar um papel central na operação encoberta da CIA conhecida como FUBELT. Numa conversa telefónica com Nixon a 16 de setembro de 1973, três dias depois do golpe militar, Kissinger admitiu: “nós ajudámo-los”, descrevendo o resultado como tendo “criado as condições mais favoráveis possíveis” e acrescentando que, na era Eisenhower, “seríamos heróis”. Em junho de 1976, já com Augusto Pinochet no poder, disse-lhe pessoalmente: “queremos ajudar, não prejudicar.”

Sobre o Camboja, uma ordem de 15 de março de 1969, transmitida por Kissinger ao secretário da Defesa Melvin Laird, autorizou a “implementação imediata” do plano que ficaria conhecido como Operação Menu, com a instrução de que “não deve haver qualquer comentário público, de ninguém, a nível nenhum.” Entre 1969 e 1973 foram lançadas sobre o Camboja cerca de 2,76 milhões de toneladas de munições sobre mais de 113 mil alvos, mais do que os Aliados lançaram sobre o Japão na Segunda Guerra Mundial. As estimativas de mortos situam-se sobretudo na casa das centenas de milhares.

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Sobre a Argentina, um memorando do Departamento de Estado regista o encontro de Kissinger com o ministro dos Negócios Estrangeiros argentino, César Guzzetti, no Waldorf Astoria de Nova Iorque, a 7 de outubro de 1976, meses depois do golpe militar que iniciou a “guerra suja”. Kissinger disse-lhe: “quanto mais depressa tiverem sucesso, melhor.” Um telegrama posterior do embaixador norte-americano Robert Hill registou, alarmado, que Guzzetti regressara “em estado de júbilo, convencido de que não há qualquer problema real com o Governo dos EUA quanto a esta questão.”

Nenhum destes episódios levou Henry Kissinger a responder em julgamento. Não houve um juiz, não houve um prazo de duas horas, não houve uma frase final em tribunal. Henry Kissinger morreu em 2023 sem ter sido julgado por nenhum deles.

Uma vida inteira sem fórum

Nancy e Henry Kissinger em casa, com o cão Tyler
Nancy e Henry Kissinger em casa, com o cão Tyler. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Michael Bloomberg descreveu Nancy Kissinger, no momento da sua morte, como alguém de “grande discernimento e discrição, com um conhecimento profundo de assuntos internacionais”. Ela acompanhou o marido em missões diplomáticas depois do casamento, em 1974, e continuou presente em jantares de Estado, receções em embaixadas e eventos sociais em Washington e em Nova Iorque durante mais de quarenta anos.

A presença dela nesses lugares não era uma prestação de contas. Era uma vida social. Mas é aí que o contraste aperta. O beliscão teve um juiz e uma sentença. Os memorandos, telegramas e transcrições não tiveram nenhum dos dois. O sistema judicial chegou ao aeroporto de Newark, a uma acusação de agressão simples e a cento e vinte minutos do tribunal municipal. Não chega aos episódios documentados do Chile, à campanha de bombardeamentos no Camboja, nem ao encontro com o ministro argentino registado nos arquivos do Departamento de Estado.

O que ficou por resolver

A frase de Nancy Kissinger à saída do tribunal, “ainda bem que acabou e que ficou para trás”, só é verdadeira para o episódio a que respondia. O resto do registo do marido não acabou nem ficou para trás porque nunca chegou a começar, em sentido processual. Continua nos arquivos: datas, memorandos, telegramas, transcrições. O único caso identificado nesta pequeno inventário e o que se fechou em tribunal foi o mais pequeno de todos.

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