Em agosto de 2021, o debate nos parlamentos ocidentais sobre o Afeganistão fechava-se sempre com a mesma fórmula. Combatê-los lá para não os combater cá.
Cabul ainda não tinha caído e já se descrevia o que viria a seguir. O vazio. Armas a espalhar-se pela região, droga a encontrar novas rotas, o jihadismo a ganhar um estúdio para gravar propaganda, o vale de Ferghana a desestabilizar, a Caxemira a aquecer outra vez e, no fim da linha, barcos a chegar à Europa. Cinco anos depois, nada disso aconteceu.
Porque o caos dos Talibãs no Afeganistão não chegou à Europa
A leitura mais fácil seria dizer que o Talibã amadureceu, que se tornou mais responsável sob pressão. Essa leitura não resiste aos factos. O que travou a exportação do caos foi o contrário de moderação. Foi a existência, pela primeira vez, de um centro com força para fechar o país.
Em 2022, o Talibã proibiu a papoila. No sul, no seu reduto histórico, onde durante vinte anos se concentrou a maior parte do ópio do mundo, a proibição entrou com inspetores e castigos. Gente fardada a arrancar plantas. No norte, onde esse controlo é mais frouxo, a proibição falha mais. O que prova o argumento ao contrário: onde o poder talibã aperta, o contágio recua.

O Estado Islâmico Khorasan continua a operar no Afeganistão, mas como alvo. O Talibã trata o ISKP como a sua principal ameaça interna porque há uma coisa que um Estado autoritário não pode partilhar, o monopólio da violência. A luta contra o ISKP não nasce de conversão doutrinal. Nasce da necessidade de não ser comido por dentro.
O mesmo vale para os aliados. Os talibãs paquistaneses do TTP encontram abrigo em solo afegão, mas não os deixam fazer a guerra contra o Paquistão a partir de lá. Foi exatamente o que o Paquistão fez durante vinte anos ao próprio Talibã afegão instalado em território paquistanês. Deixar o aliado dormir em casa é uma coisa. Deixá-lo disparar da janela é outra.
É esse instinto, aplicado a cada fronteira, que explica o país que hoje se atravessa. Quem lá trabalha descreve-o da mesma forma: um Afeganistão que se pode cruzar de carro de uma ponta à outra, tão vigiado que a polícia bate à porta de um hotel minutos depois de alguém apontar um telemóvel para uma janela.

O modelo de 2021 assumia que um Afeganistão sem presença ocidental seria, por definição, um Afeganistão sem controlo nenhum. O erro foi achar que só havia duas hipóteses para travar o contágio: manter tropas estrangeiras ou ver o país desintegrar-se em guerra civil. Existia uma terceira hipótese. Um regime com controlo territorial suficiente para fechar as suas próprias fronteiras à exportação de instabilidade, pela mesma razão que fecha as escolas às raparigas. Tem meios e tem interesse.
O Afeganistão não deixou de ser perigoso para os afegãos. Deixou de ser, por enquanto, o vazio exportador de caos que se esperava para os outros. Não porque o problema tenha sido resolvido, mas porque, pela primeira vez em vinte anos, alguém tem força suficiente para o manter fechado.
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