Biden: de “Promise Me, Dad” a “Promise Me, America”

Sobre memórias políticas, promessas feitas a moribundos, e o que acontece quando as palavras do amor privado são recicladas para servir uma nação inteira

Economia

Alberto Carvalho
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Alberto Carvalho é cronista e editor convidado do Arcana News, onde escreve sobre política, cultura e vida pública. É autor de mais de setenta artigos, combinando rigor crítico e clareza jornalística, com uma atenção permanente ao impacto social das decisões coletivas.
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Revista · Ensaio · Memória, promessa e mortalidade

Biden, o livro sobre o filho, e o livro sobre a América

Num quarto de hospital na Pensilvânia, em maio de 2015, um pai promete a um filho que está a morrer que não vai desistir. O filho, antigo procurador-geral de um pequeno estado americano, tem um tumor no cérebro que já não deixa margem para engano entre os dois. Ele sabe que vai morrer. O pai sabe que ele sabe. É nesse espaço estreito, sem lugar para mentiras confortáveis, que a promessa é feita — e não fica registada em áudio, não há testemunhas fora da família. Sabe-se dela porque o pai, mais tarde, lhe deu um título.

Dois anos depois, essa promessa tornou-se um livro. “Promise Me, Dad” contava, em quinhentas e tal páginas, a história de um filho a morrer e de um pai que o via morrer enquanto ocupava a vice-presidência dos Estados Unidos. O autor apresentava-o como um livro sobre o luto, como se fosse possível, para um homem público havia quarenta anos, escrever sobre a morte de um filho sem que isso deslizasse para o registo político. A distinção nunca convenceu ninguém, nem sequer, provavelmente, o próprio autor.

Agora, aos oitenta e três anos, esse mesmo homem prepara um segundo livro. Escolheu para ele um título que é, precisamente, metade do primeiro: trocou “Promise Me, Dad” por “Promise Me, America”. A promessa muda de destinatário sem, aparentemente, mudar de forma — se é que muda assim tão pouco. O que antes se dizia a um filho moribundo diz-se agora a um país inteiro, e ninguém, ao anunciar o título, parece ter-se detido a perguntar se as duas coisas podem, de facto, receber a mesma palavra.

Esta compulsão para nos contarmos a nós próprios antes que os outros o façam por nós — ou pior, antes que ninguém se dê a esse trabalho — tem qualquer coisa de muito antigo, e ao mesmo tempo muito recente. As sociedades sempre tiveram os seus modos de fixar a memória de quem passou pelo poder: crónicas, memórias, retratos encomendados, estátuas em praças que ninguém já olha. O memoir político contemporâneo tem uma pretensão distinta: tenta corrigir antecipadamente aquilo que os outros ainda vão escrever, chegar primeiro à versão que se pretende definitiva, antes que a versão alheia se instale como verdade por simples ausência de resposta.

O género tem regras próprias, quase todas económicas. Uma data de publicação escolhida a dedo. Um calendário editorial que evita coincidir com eleições, ou que as aproveita, consoante o cálculo de quem vende o livro. Uma tour de promoção que transforma memória em produto sazonal, com paragens, entrevistas marcadas e um relógio de marketing que corre em paralelo ao relógio da vida. Este livro sai duas semanas depois das eleições intercalares deste outono.

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A família toda parece ter sentido a mesma urgência ao mesmo tempo, como se o silêncio, uma vez instalado, se tornasse impossível de quebrar depois. A mulher publicou as próprias memórias há poucas semanas. O filho mais novo tornou-se, nos últimos meses, uma presença regular em podcasts, a defender o legado do pai com uma energia que nenhum cargo público lhe exige. E o próprio antigo presidente, antes ainda de o livro ter data oficial, deixou escapar a existência dele numa sessão de apresentação da própria mulher — interrompeu o momento dela para anunciar o seu, e ainda perguntou à plateia, como quem precisa mesmo de ouvir a resposta, quem é que a amava mais.

Há um nome técnico para o que está em jogo quando alguém promete, cunhado por um filósofo de Oxford em meados do século passado: ato performativo — um enunciado que não descreve nada, cria antes uma obrigação nova só por ter sido pronunciado. Mas o mesmo filósofo notou algo menos citado, e mais incómodo: uma promessa pode falhar sem que uma única palavra esteja errada, se quem a faz não tiver, no momento de a fazer, a intenção sincera de a cumprir. Chamou a isso uma promessa “infeliz” — não falsa, apenas oca por dentro, como uma casca que engana pela forma. Não há maneira de saber, de fora, se uma promessa é feliz ou infeliz nesse sentido preciso. Só o tempo, e o que dela sobra cumprido, o mostra — e mesmo assim nem sempre com clareza.

O livro promete cobrir a pandemia, a economia, as guerras no Afeganistão e na Ucrânia, e aquilo a que o próprio autor chama a reconstrução da democracia depois do ataque ao Capitólio. É uma lista ambiciosa. Nenhum livro, aliás, cumpre uma lista destas por completo — nem sequer quando escrito por quem viveu os acontecimentos de dentro, com acesso a quatro anos de arquivos presidenciais só para si. Falta sempre o trabalho lento dos historiadores, que só começam a ver com alguma nitidez aquilo que os próprios protagonistas ainda veem embaciado pela proximidade e pelo interesse próprio.

O livro guarda, no entanto, uma segunda promessa — a mais decisiva de todo o mandato, segundo o próprio autor: a decisão de se recandidatar, e a decisão, tomada depois, de desistir. Nas suas próprias palavras, publicadas a propósito do anúncio, “é sobretudo sobre a minha fé na promessa da América”. A frase soa bem — bem demais, talvez, para dizer alguma coisa de concreto sobre o que correu mal entre a primeira decisão e a segunda.

Quase nenhuma comunidade concorda com quem dela faz parte sobre o momento exato em que um ciclo termina. Para o partido a que pertence, o ciclo deste homem terminou há dois anos, numa noite de debate televisivo que as sondagens já anteviam como desastre, e que ele próprio, ao que tudo indica, não conseguiu antecipar da mesma forma. Os seus antigos correligionários preferem hoje gastar energia a olhar para a frente, rumo às eleições intercalares, do que a repisar uma saída de um ato eleitoral. Para ele, a julgar pelo próprio título do livro, o ciclo talvez ainda não tenha terminado — ou talvez tenha terminado de um jeito que só agora, com o tempo e a distância, consegue nomear. Essa discrepância entre o tempo de quem sai e o tempo, bem mais lento, de quem ainda por lá anda é, provavelmente, tão antiga quanto o próprio poder, e nenhuma memória, por mais bem escrita, a resolve por completo.

O homem que agora promete à América está também, ele próprio, a lidar com um diagnóstico de cancro. Não sabemos, e seria leviano fingir que sabemos, até que ponto essa coincidência pesou na escolha do título. Mas é difícil não a ver.

No vídeo que anuncia o livro, o antigo presidente aparece sentado no que parece ser o escritório de casa, sozinho, a falar para uma câmara que ele próprio, provavelmente, não configurou. A plateia que aplaudia ficou noutro tempo. Os jornalistas com perguntas de seguimento, também. O filho moribundo do outro lado da cama, esse mais do que ninguém.

As palavras sobrevivem quase sempre a quem as disse primeiro, e vão parar a quem ainda precisa delas, com ou sem licença do dono original. Não sei se esta segunda promessa é tão verdadeira como a primeira, nem tenho a certeza de que essa seja sequer a pergunta que vale a pena fazer.

Nota pessoal

Não sei bem porque sinto necessidade de escrever isto à parte, mas cá vai.

Biden enterrou a sua primeira mulher e uma filha ainda com trinta e poucos anos. Enterrou o Beau em 2015. Tem agora um diagnóstico de cancro. Só que escrever sobre alguém que perdeu tudo isto, e continua a aparecer, mexe comigo de uma maneira que a análise não sabe processar. Não tenho uma frase bonita para fechar isto. Só queria que ficasse dito, sem estar amarrado ao resto do texto. Obrigado, Biden.

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