Revista · Ensaio · Memória, promessa e mortalidade
Biden, o livro sobre o filho, e o livro sobre a América
Num quarto de hospital na Pensilvânia, em maio de 2015, um pai promete a um filho que está a morrer que não vai desistir. O filho, antigo procurador-geral de um pequeno estado americano, tem um tumor no cérebro que já não deixa margem para engano entre os dois. Ele sabe que vai morrer. O pai sabe que ele sabe. É nesse espaço estreito, sem lugar para mentiras confortáveis, que a promessa é feita — e não fica registada em áudio, não há testemunhas fora da família. Sabe-se dela porque o pai, mais tarde, lhe deu um título.
Dois anos depois, essa promessa tornou-se um livro. “Promise Me, Dad” contava, em quinhentas e tal páginas, a história de um filho a morrer e de um pai que o via morrer enquanto ocupava a vice-presidência dos Estados Unidos. O autor apresentava-o como um livro sobre o luto, como se fosse possível, para um homem público havia quarenta anos, escrever sobre a morte de um filho sem que isso deslizasse para o registo político. A distinção nunca convenceu ninguém, nem sequer, provavelmente, o próprio autor.
Agora, aos oitenta e três anos, esse mesmo homem prepara um segundo livro. Escolheu para ele um título que é, precisamente, metade do primeiro: trocou “Promise Me, Dad” por “Promise Me, America”. A promessa muda de destinatário sem, aparentemente, mudar de forma — se é que muda assim tão pouco. O que antes se dizia a um filho moribundo diz-se agora a um país inteiro, e ninguém, ao anunciar o título, parece ter-se detido a perguntar se as duas coisas podem, de facto, receber a mesma palavra.
Esta compulsão para nos contarmos a nós próprios antes que os outros o façam por nós — ou pior, antes que ninguém se dê a esse trabalho — tem qualquer coisa de muito antigo, e ao mesmo tempo muito recente. As sociedades sempre tiveram os seus modos de fixar a memória de quem passou pelo poder: crónicas, memórias, retratos encomendados, estátuas em praças que ninguém já olha. O memoir político contemporâneo tem uma pretensão distinta: tenta corrigir antecipadamente aquilo que os outros ainda vão escrever, chegar primeiro à versão que se pretende definitiva, antes que a versão alheia se instale como verdade por simples ausência de resposta.
O género tem regras próprias, quase todas económicas. Uma data de publicação escolhida a dedo. Um calendário editorial que evita coincidir com eleições, ou que as aproveita, consoante o cálculo de quem vende o livro. Uma tour de promoção que transforma memória em produto sazonal, com paragens, entrevistas marcadas e um relógio de marketing que corre em paralelo ao relógio da vida. Este livro sai duas semanas depois das eleições intercalares deste outono.
A família toda parece ter sentido a mesma urgência ao mesmo tempo, como se o silêncio, uma vez instalado, se tornasse impossível de quebrar depois. A mulher publicou as próprias memórias há poucas semanas. O filho mais novo tornou-se, nos últimos meses, uma presença regular em podcasts, a defender o legado do pai com uma energia que nenhum cargo público lhe exige. E o próprio antigo presidente, antes ainda de o livro ter data oficial, deixou escapar a existência dele numa sessão de apresentação da própria mulher — interrompeu o momento dela para anunciar o seu, e ainda perguntou à plateia, como quem precisa mesmo de ouvir a resposta, quem é que a amava mais.
Há um nome técnico para o que está em jogo quando alguém promete, cunhado por um filósofo de Oxford em meados do século passado: ato performativo — um enunciado que não descreve nada, cria antes uma obrigação nova só por ter sido pronunciado. Mas o mesmo filósofo notou algo menos citado, e mais incómodo: uma promessa pode falhar sem que uma única palavra esteja errada, se quem a faz não tiver, no momento de a fazer, a intenção sincera de a cumprir. Chamou a isso uma promessa “infeliz” — não falsa, apenas oca por dentro, como uma casca que engana pela forma. Não há maneira de saber, de fora, se uma promessa é feliz ou infeliz nesse sentido preciso. Só o tempo, e o que dela sobra cumprido, o mostra — e mesmo assim nem sempre com clareza.
O livro promete cobrir a pandemia, a economia, as guerras no Afeganistão e na Ucrânia, e aquilo a que o próprio autor chama a reconstrução da democracia depois do ataque ao Capitólio. É uma lista ambiciosa. Nenhum livro, aliás, cumpre uma lista destas por completo — nem sequer quando escrito por quem viveu os acontecimentos de dentro, com acesso a quatro anos de arquivos presidenciais só para si. Falta sempre o trabalho lento dos historiadores, que só começam a ver com alguma nitidez aquilo que os próprios protagonistas ainda veem embaciado pela proximidade e pelo interesse próprio.
O livro guarda, no entanto, uma segunda promessa — a mais decisiva de todo o mandato, segundo o próprio autor: a decisão de se recandidatar, e a decisão, tomada depois, de desistir. Nas suas próprias palavras, publicadas a propósito do anúncio, “é sobretudo sobre a minha fé na promessa da América”. A frase soa bem — bem demais, talvez, para dizer alguma coisa de concreto sobre o que correu mal entre a primeira decisão e a segunda.
Quase nenhuma comunidade concorda com quem dela faz parte sobre o momento exato em que um ciclo termina. Para o partido a que pertence, o ciclo deste homem terminou há dois anos, numa noite de debate televisivo que as sondagens já anteviam como desastre, e que ele próprio, ao que tudo indica, não conseguiu antecipar da mesma forma. Os seus antigos correligionários preferem hoje gastar energia a olhar para a frente, rumo às eleições intercalares, do que a repisar uma saída de um ato eleitoral. Para ele, a julgar pelo próprio título do livro, o ciclo talvez ainda não tenha terminado — ou talvez tenha terminado de um jeito que só agora, com o tempo e a distância, consegue nomear. Essa discrepância entre o tempo de quem sai e o tempo, bem mais lento, de quem ainda por lá anda é, provavelmente, tão antiga quanto o próprio poder, e nenhuma memória, por mais bem escrita, a resolve por completo.
O homem que agora promete à América está também, ele próprio, a lidar com um diagnóstico de cancro. Não sabemos, e seria leviano fingir que sabemos, até que ponto essa coincidência pesou na escolha do título. Mas é difícil não a ver.
No vídeo que anuncia o livro, o antigo presidente aparece sentado no que parece ser o escritório de casa, sozinho, a falar para uma câmara que ele próprio, provavelmente, não configurou. A plateia que aplaudia ficou noutro tempo. Os jornalistas com perguntas de seguimento, também. O filho moribundo do outro lado da cama, esse mais do que ninguém.
As palavras sobrevivem quase sempre a quem as disse primeiro, e vão parar a quem ainda precisa delas, com ou sem licença do dono original. Não sei se esta segunda promessa é tão verdadeira como a primeira, nem tenho a certeza de que essa seja sequer a pergunta que vale a pena fazer.
Nota pessoal
Não sei bem porque sinto necessidade de escrever isto à parte, mas cá vai.
Biden enterrou a sua primeira mulher e uma filha ainda com trinta e poucos anos. Enterrou o Beau em 2015. Tem agora um diagnóstico de cancro. Só que escrever sobre alguém que perdeu tudo isto, e continua a aparecer, mexe comigo de uma maneira que a análise não sabe processar. Não tenho uma frase bonita para fechar isto. Só queria que ficasse dito, sem estar amarrado ao resto do texto. Obrigado, Biden.
Funcionalidade Google
Fontes preferidas disponíveis em Portugal.
A nova opção permite selecionar publicações para surgirem com maior frequência em pesquisas noticiosas relevantes.


