ANÁLISE · Geopolítica e Poder · Israel · Defesa e orçamento
Reservistas de Israel fecharam negócios, deixaram empregos e interromperam férias para responder a uma mobilização operacional. Dias depois, alguns começaram a ser dispensados, não porque a ameaça tivesse passado, mas porque o orçamento que sustentava a convocatória não estava garantido.
Reservistas da Brigada Karmeli, uma unidade de infantaria do Comando Norte israelita, foram convocados para cem dias de serviço. Quem tinha um negócio preparou-se para o fechar durante mais de três meses. Outros comunicaram a ausência aos empregadores. Houve também militares que interromperam férias com as famílias e regressaram do estrangeiro para se apresentarem.

Reservistas de Israel enfrentam o custo da incerteza
Poucos dias depois, alguns começaram a receber ordens de desmobilização. As missões continuavam. A necessidade militar que justificara a convocatória não tinha desaparecido. Faltava dinheiro para manter todos os homens ao serviço.
A informação foi publicada com base em fontes anónimas dentro da brigada. Nem o Ministério da Defesa nem as Forças de Defesa de Israel confirmaram publicamente o episódio. Não se sabe quantos militares foram dispensados, que missões ficaram afetadas ou como foi tomada a decisão.
Segundo essas fontes, a mobilização era legal e respondia a necessidades operacionais concretas. O aparelho de defesa contava com um aumento do orçamento militar e emitiu as ordens nessa expectativa. Quando o reforço não ficou disponível na dimensão e no prazo esperados, começou a libertar reservistas que já se tinham apresentado.
Nessa altura, a convocatória já tinha alterado empregos, negócios e vidas familiares.
Um responsável da brigada terá advertido que a continuação dos cortes pode levar ao desmembramento de pelotões inteiros. As missões que determinaram a mobilização continuariam por cumprir.
Para cada um destes reservistas de Israel, o custo começou antes da entrada no quartel. Um negócio encerrado pode ter perdido clientes e receitas. Um trabalhador que anunciou uma ausência prolongada pode ter deixado funções ou projetos entregues a outras pessoas. Famílias alteraram férias, viagens e rotinas para responder a uma ordem que esperavam cumprir durante mais de três meses.
As fontes da brigada contestam também a escolha das áreas afetadas. Defendem que qualquer redução deveria começar nas estruturas de comando, na retaguarda ou em funções não combatentes, poupando as unidades empregadas na linha da frente. Não existem dados públicos sobre a distribuição dos cortes.
Em julho, os ministérios das Finanças e da Defesa anunciaram uma transferência adicional imediata de 15 mil milhões de shekels para as forças armadas. A Defesa pedira 40 mil milhões. O acordo previa ainda um mecanismo conjunto de controlo das despesas e deixava para mais tarde uma decisão sobre novas verbas.

No mês seguinte, o Governo preparava outro reforço, próximo dos 40 mil milhões de shekels. O orçamento de defesa aprovado para 2026 subiria para cerca de 184 mil milhões, mas a medida continuava dependente de decisões governamentais e legislativas. Os dois ministérios discutiam há meses as necessidades militares e o controlo da despesa.
Entretanto, as unidades precisavam de saber que verbas podiam utilizar, quando estariam disponíveis e que operações poderiam financiar. As ordens de mobilização já estavam a ser cumpridas.
Numa reunião realizada em agosto, o chefe do Estado-Maior, Eyal Zamir, descreveu a situação das forças armadas:
«Estamos a lidar com cofres vazios.»
Foi neste contexto que a Brigada Karmeli convocou reservistas para cem dias.
Quem recebe uma ordem de mobilização não pode aguardar pelo fim das negociações entre ministérios. Tem de decidir o que fazer ao emprego, ao negócio, aos filhos e aos compromissos já assumidos.
Uma das fontes da brigada formulou assim a pergunta:
«Ao soldado comum não interessa a discussão entre dois ministérios. Interessa-lhe saber por que razão foi chamado a deixar a família, o emprego e o negócio, se não havia dinheiro para o manter ao serviço.»
Desde outubro de 2023, muitos reservistas de Israel foram mobilizados repetidamente e por períodos prolongados. Continuam, fora das forças armadas, a ter profissões, empresas e responsabilidades familiares. O próprio chefe do Estado-Maior já advertiu para o risco de não suportarem a pressão acumulada.
O desgaste chegou também à campanha para as eleições israelitas de 2026. O partido fundado pelo antigo comandante de batalhão da reserva Yoaz Hendel colocou entre as suas prioridades a defesa dos reservistas e uma distribuição mais ampla do serviço militar. Não é possível antecipar qualquer efeito eleitoral a partir do que aconteceu na Brigada Karmeli.
De acordo com as fontes, a unidade tinha missões operacionais em curso quando começaram as dispensas. Alguns dos reservistas de Israel regressam agora aos negócios que fecharam, aos empregos onde anunciaram uma ausência de cem dias e às famílias que reorganizaram a vida para os ver partir.
A disputa orçamental continua.
Funcionalidade Google
Fontes preferidas disponíveis em Portugal.
A nova opção permite selecionar publicações para surgirem com maior frequência em pesquisas noticiosas relevantes.



Comentar como Convidado