CONTEXTO · Geopolítica e Poder · Israel · Eleições e representação
Onze dias depois de Rosh Hashaná e a seis semanas das eleições Israel 2026, Jerusalém ainda parece reabrir a meio. As montras das pastelarias não recuperaram o movimento habitual, sobram garrafas de vinho nas prateleiras dos merceeiros e, antes mesmo de outubro começar, as primeiras bandeiras de campanha já pendem dos candeeiros. Algumas continuam dobradas dentro do plástico.
O que está em causa nas eleições Israel 2026
A notícia chega ao fim da tarde sem dinâmicas de manchete. Um telemóvel vibra na mesa ao lado, alguém lê uma frase em voz alta. Às sete e cinco, um grupo de defesa dos direitos religiosos apresentou uma petição para desqualificar um candidato do Shas por este não ter abandonado, dentro do prazo, o cargo público que ocupava.
Não há crime nem escândalo. Há uma formalidade incumprida, daquelas que noutro país talvez ficassem perdidas nas páginas interiores.
Esta não foi a primeira petição da campanha e dificilmente será a última. Dias antes, um pequeno partido da direita religiosa tentara impedir a candidatura de uma força rival. Já regressara também o movimento quase ritual de cada ciclo eleitoral israelita: procurar excluir listas árabes antes de os eleitores poderem votar nelas.
Alguém tenta decidir, antes da abertura das urnas, quais são as escolhas que nelas poderão ser feitas. Por trás dos prazos, das incompatibilidades e dos critérios de elegibilidade permanece uma questão que o país nunca resolveu: quem tem o direito de representar quem quando não há acordo sobre os limites da própria comunidade política?
Em julho, na última sessão antes da dissolução do Knesset, a coligação aprovou, por 58 votos contra 54, uma lei que suspendia durante pelo menos seis meses as detenções de jovens ultraortodoxos que recusassem cumprir o serviço militar. O primeiro-ministro entrou no plenário, assistiu ao confronto entre as bancadas e saiu antes da votação. Não permaneceu para votar a lei da sua coligação.
Dias antes, o chefe do Estado-Maior avisara que o exército corria o risco de ceder sob o défice de efetivos se a medida fosse aprovada. Uma vice-ministra dos Negócios Estrangeiros demitiu-se depois da votação. Dois deputados do Likud anunciaram que abandonariam o partido. Um deles já fora afastado, meses antes, da presidência da comissão parlamentar de defesa por insistir no recrutamento dos haredim.

No dia seguinte, o Supremo Tribunal suspendeu a lei antes de esta entrar em vigor. O Estado não poderia suspender as detenções por incumprimento do serviço militar apenas para uma parte da população.

Bnei Brak fica a poucos minutos de Ramat Gan. Um jovem ultraortodoxo de dezoito anos poderia beneficiar da suspensão da ordem de alistamento; outro rapaz da mesma idade, em Ramat Gan, continuaria sujeito a prisão militar se recusasse apresentar-se. A diferença estaria na identidade religiosa de cada um.

Às sete e cinco, a petição contra o candidato do Shas voltou a expor uma das fronteiras das eleições Israel 2026: a que separa quem pode concorrer de quem pode ser afastado antes do voto. O incumprimento de um prazo para abandonar um cargo público não tem o peso de um aviso do comando militar sobre a falta de soldados. Ainda assim, ambos obrigam o Estado a determinar quem pode participar nas suas decisões e quem fica sujeito às obrigações que delas resultam.
A isenção dos jovens ultraortodoxos tornou essa tensão impossível de circunscrever ao recrutamento. Os partidos haredim participam nas maiorias parlamentares, negociam leis e condicionam governos. A suspensão das detenções permitia que os jovens das comunidades que representam permanecessem dispensados de um dever exigido a outros cidadãos.
Um grupo de cidadãos pode pedir que um candidato seja retirado da corrida. O Parlamento pode aprovar uma exceção por quatro votos. O Supremo pode suspendê-la antes de produzir efeitos. Nenhuma destas intervenções possui a mesma origem ou o mesmo poder, embora todas possam decidir quem chega às urnas e quem recebe uma ordem de alistamento.
As eleições Israel 2026, marcadas para 27 de outubro, serão as primeiras desde 7 de outubro de 2023. Até lá, a Comissão Central de Eleições e os tribunais continuarão a decidir sobre candidaturas. No Knesset, a disputa sobre o recrutamento haredi permanecerá por resolver, apesar dos avisos do exército, das demissões e das ruturas dentro do Likud.
Hoje, o nome em causa pertence ao Shas. Antes dele, estiveram sob ameaça listas árabes e um partido da direita religiosa. Outros pedidos poderão ainda chegar.
A esplanada esvazia-se devagar. As bandeiras continuam suspensas nos candeeiros, algumas dentro do plástico. Nem todos os nomes que esperam pelo mês de outubro sabem ainda se chegarão ao boletim de voto.
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