CONTEXTO · GEOPOLÍTICA E PODER · ISRAEL · IDENTIDADE E SERVIÇO MILITAR
A primeira pedra de um memorial aos cristãos árabes nas IDF transforma uma escolha militar ainda disputada numa afirmação pública de pertença a Israel.
O memorial aos cristãos árabes nas IDF dá forma pública a uma identidade que a própria comunidade continua a discutir.
O Cruzamento de Golani não é sítio para se parar. É um dos nós rodoviários mais movimentados do Norte de Israel, onde as estradas 65 e 77 se cruzam a caminho de Tiberíades ou de Haifa. Ao lado da estrada fica o memorial da Brigada Golani, com o seu museu e a subida a pé até ao topo de uma colina de pinheiros. Foi ali, na floresta de Lavi, que esta manhã se lançou a primeira pedra de um memorial aos cristãos árabes nas IDF.
Será dedicado aos soldados cristãos de língua árabe que morreram a servir nas Forças de Defesa de Israel. Não recordará uma brigada nem uma guerra específica. Dará existência pública a uma identidade que continua a ser discutida entre aqueles que o monumento pretende representar.
Lavi recebeu o nome de uma comunidade judaica que floresceu naquele lugar durante a época talmúdica, cerca de mil e quinhentos anos antes da cerimónia de hoje. O memorial ficará nessa floresta, junto de um monumento militar já consolidado e à margem de uma estrada por onde quase todos passam sem parar.
O primeiro-ministro esteve presente, acompanhado pela mulher. Apresentou a cerimónia como resposta à acusação de que Israel persegue os cristãos. Chamou-lhe uma mentira e afirmou que Israel é o único lugar do Médio Oriente onde a comunidade cristã cresce, em vez de fugir ou ser perseguida. Depois inverteu o argumento habitual: Israel não se limita a proteger os cristãos; há cristãos que protegem Israel.
A presença dos cristãos árabes nas IDF sustentava essa resposta. Dentro da comunidade a que pertenciam, porém, o alistamento nunca deixou de ser discutido.
Cristãos árabes nas IDF: uma pertença ainda disputada
Ao contrário do que acontece com judeus, drusos e circassianos, o serviço militar dos cristãos de língua árabe não é obrigatório. Durante décadas, grande parte da comunidade viu essa decisão como uma rutura difícil de justificar. A maioria dos cerca de 1,7 milhões de árabes israelitas identifica-se historicamente com o povo palestiniano. Os cristãos, uma pequena fração dessa população, encontraram nessa identificação um lugar político e comunitário. Entrar no exército israelita podia significar escolher um lado.
Em 2012, um padre ortodoxo grego de Nazaré, Gabriel Nadaf, começou a desafiar abertamente esse entendimento. Com veteranos cristãos das forças armadas, criou um fórum destinado a incentivar o alistamento. Defendia que a integração plena na sociedade israelita, no emprego, nas oportunidades e no reconhecimento público, passava também pelo serviço militar, como já sucedera com drusos e beduínos.
Os números mantiveram-se reduzidos: de 35 recrutas num ano para cerca de uma centena no seguinte e, depois, talvez algumas centenas por ano em períodos considerados normais.
A reação foi muito maior. Vozes da comunidade árabe acusaram Nadaf de participar numa estratégia destinada a separar os cristãos dos restantes árabes israelitas e a criar para eles uma identidade política própria. Consideravam que isso enfraquecia a coesão de uma minoria que se reconhecia, em grande medida, como palestiniana. Nadaf recebeu ameaças. O filho adolescente foi agredido.
Nadaf apresentava o serviço militar como um caminho para ocupar plenamente um lugar na sociedade israelita. Os seus opositores viam nesse caminho a exigência de abandonar outra pertença. O debate não se limitava à entrada de algumas dezenas ou centenas de jovens nas forças armadas. Abrangia o nome político de toda a comunidade e a relação desta com a maioria árabe de Israel.
Desde 7 de outubro de 2023, o alistamento voltou a aumentar. Quem acompanha o fenómeno atribui parte dessa subida ao que muitos cristãos árabes viram acontecer aos seus correligionários do outro lado da fronteira, na Síria, sob o regime que sucedeu a Assad. Para alguns, a vulnerabilidade dos cristãos na região tornou-se um argumento a favor de servir o Estado israelita.
Mesmo depois desse aumento, o número de cristãos mortos ao serviço das IDF ao longo dos anos não se conta às centenas. São esses homens que o novo memorial reunirá pelo nome.
Na cerimónia, a escolha de servir apareceu como prova de que os cristãos também participam na defesa de Israel. Ficaram de fora as ameaças, a agressão ao filho de Nadaf e os anos de oposição dentro da comunidade. Não porque fossem desconhecidos, mas porque o memorial atribui um sentido nacional comum a decisões individuais que continuam a não ter um significado comum para todos os cristãos de língua árabe.
A primeira pedra foi lançada junto do memorial da Brigada Golani. Quando a construção estiver concluída, os nomes dos soldados terão um lugar naquela paisagem. A discussão sobre o que os levou a servir, e sobre quem representam, continuará fora dele.
Funcionalidade Google
Fontes preferidas disponíveis em Portugal.
A nova opção permite selecionar publicações para surgirem com maior frequência em pesquisas noticiosas relevantes.



Comentar como Convidado