Menos de 1% das forças disponíveis dos Estados Unidos está hoje destacado em missões de segurança do território nacional. É esse o número que fica depois de o Pentágono ter publicado em janeiro a nova Estratégia Nacional de Defesa de 2026 e ter dito, pela primeira vez em quase uma década, que proteger o território e o hemisfério ocidental — não a China, não a Europa — é agora a prioridade número um.
No documento, a China deixa de ser nomeada como ameaça central como era há dois anos. Surge a fórmula «impedir que qualquer um, incluindo a China, consiga dominar os Estados Unidos» — dissuasão como objetivo, não confronto como expectativa. Às potências europeias pede-se que assumam a dissuasão da Rússia, à Coreia do Sul que lidere a resposta à Coreia do Norte, o apoio à Ucrânia passa a ser descrito como «crítico mas mais limitado». A Gronelândia, o Canal do Panamá e o Golfo do México, rebatizado no próprio texto Golfo da América, são classificados como «terreno-chave» ameaçado por «influência de adversários».

Cerca de 11 mil militares foram levados para as Caraíbas até dezembro de 2025, oito vezes mais que a presença anterior. Cerca de 10 mil ficaram estabilizados na fronteira sudoeste, com poderes limitados de aplicação da lei. Na Coreia do Sul continuam 24 mil — uma divisão do Exército e duas alas da Força Aérea — um número que permanece praticamente inalterado, com a estratégia a falar apenas de futura «transferência de responsabilidade» para a defesa antimíssil, sem redução anunciada.

O que a Estratégia Nacional de Defesa 2026 ainda não mostra em números
O Congresso já aprovou 150 mil milhões de dólares adicionais para o Departamento de Defesa e mais 6 mil milhões para outras atividades de segurança nacional através da One Big Beautiful Bill Act. O programa antimíssil Golden Dome recebeu 24,4 mil milhões. O Presidente falou num orçamento de 1,5 biliões para o ano fiscal de 2027. Segundo a análise do Center for Strategic and International Studies, o documento contém poucos números e nenhum detalhe orçamental para os anos seguintes. Não há indicação de como as forças hoje distribuídas para um cenário no Indo-Pacífico vão cobrir, ao mesmo tempo, as novas exigências no hemisfério ocidental.
A modernização do arsenal nuclear mantém-se, apoiada por administrações sucessivas sem interrupção. O reforço da base industrial de defesa continua como prioridade bipartidária, tal como o orçamento das armas autónomas, que o Pentágono já trata como parte central da guerra futura. O dispositivo militar construído ao longo de uma década no Indo-Pacífico para um cenário de confronto com a China não tem plano público de reconversão. A estratégia soma uma prioridade nova sem tocar nestes três pilares.
Taiwan não aparece uma única vez. Noutros textos estratégicos americanos continua a ser tratada como prioridade de dissuasão face à China. Numa estratégia que declara como objetivo central impedir que «qualquer um, incluindo a China» domine os Estados Unidos, a ausência de um dos cenários onde essa dissuasão seria testada de forma mais direta não é esquecimento.
O hemisfério ocidental é a prioridade número um e recebe menos de 1% das forças. A Europa deve dissuadir a Rússia e a Coreia do Sul liderar contra o Norte, mas os 24 mil americanos na Coreia não se mexeram. O dinheiro já foi votado, o plano que diria para onde vai continua por escrever. Uma Estratégia Nacional de Defesa muda de vocabulário num documento. Só muda de facto quando as tropas, os orçamentos plurianuais e os aliados começam a confirmá-la com números próprios.
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