O Congresso dos Estados Unidos fixou por lei, para o corrente ano, níveis mínimos de tropas na Europa. A medida foi aprovada para impedir que a próxima tentativa de redução avance sem obstáculo.
A lei não surge isolada. É o fecho, até agora, de um ciclo em que cada anúncio de retirada foi anunciado em grande, executado em pequeno e depois travado ou revertido.
Washington promete sair da Europa. A lei americana não deixa
Em 2020, a ordem foi para retirar 12.000 militares da Alemanha. Chegou às manchetes e nunca se executou. No ano seguinte, com outra administração, houve a única revisão formal de postura desse período. A conclusão foi que o arranjo existente estava, no essencial, correto. A revisão cancelou o plano de consolidação de bases na Alemanha e na Bélgica que a administração anterior deixara em curso. As bases ficaram abertas. Para a Alemanha, anunciou-se o envio de uma nova unidade multidomínio, com mísseis de longo alcance.

Um corte anunciado tinha dado lugar a um reforço anunciado.
O mesmo padrão volta no mandato seguinte, quando a retórica de rutura regressa. Perto de mil militares saem da Roménia. Esta primavera é anunciado um corte adicional de cinco mil, com contornos que continuam por esclarecer. Um envio de mísseis de longo alcance planeado pela administração anterior é cancelado.

No terreno, o número que interessa a quem planeia do lado europeu mantém-se. Cerca de 80.000. O próprio histórico disponível descreve-o como aproximadamente igual ao herdado no início do primeiro mandato da mesma presidência que fez da devolução da defesa à Europa o centro do discurso. Oito anos de anúncios deixam o efetivo no ponto de partida.
A explicação mais ouvida em Washington é que falta vontade política, que a Casa Branca hesita, que o Pentágono está capturado. O que aconteceu entre 2020 e o piso legal deste ano mostra outra coisa.
Há uma primeira velocidade, que é a da retórica presidencial. Fala de saída da NATO, exige que a Europa assuma a responsabilidade primária. Move-se depressa e produz manchetes no mesmo dia em todas as capitais.
Há uma segunda, que é a da ação executiva. Move-se devagar. Mil na Roménia, cinco mil anunciados agora. Fica sempre aquém da escala anunciada e raramente completa um ciclo antes de uma nova revisão intervir. Foi assim com os 12.000 da Alemanha. É assim agora.
E há uma terceira, mais lenta, que é a do travão legislativo. Quando o Congresso fixa um mínimo, transforma o que ainda não foi cortado numa decisão que só pode avançar com nova batalha política. Não discute se o corte é conveniente. Impede-o preventivamente.
Nenhuma destas forças, sozinha, asseguraria continuidade. Combinadas, com esta ordem, têm assegurado. A primeira promete rutura, a segunda entrega frações, a terceira fixa o que falta entregar como limite legal. O resultado líquido é a estabilização nos 80.000.
Para um dirigente europeu, a leitura deste encadeamento não é ideológica. É prática. Desde pelo menos a última década, cada ameaça séria de retirada seguiu o mesmo percurso. Anunciada, parcialmente iniciada, travada ou revertida antes de se completar. Quem observa essa sequência, mandato após mandato, retira uma conclusão simples sobre a probabilidade de a próxima ameaça seguir o mesmo caminho.
É por isso que esperar passou a ter fundamento. Não porque a Europa duvide de que um presidente americano possa querer sair, mas porque aprendeu que querer sair não basta para sair na escala e no prazo que a obrigariam a mudar de modelo. O custo de aguardar e ver a ameaça ser absorvida pelo sistema tem sido menor do que o custo de reestruturar a defesa com base num anúncio que, historicamente, não se concretiza na dimensão anunciada.
A revisão em curso este ano tenta responder a essa aprendizagem. Segundo quem a defende, propõe um calendário de cortes que se estenderia para além do atual mandato, precisamente para sobreviver a uma mudança de administração. É o reconhecimento de que o problema não é só executar, é impedir a reversão no ciclo seguinte.
Só que um calendário que vai além do mandato depende de dois fatores que a revisão não controla. Que um Congresso futuro não volte a legislar um novo piso. Que um sucessor não reverta, num único documento, o que demorou anos a construir. Foi o que a revisão de 2021 fez à ordem dos 12.000. Foi o que fez ao plano de consolidação na Alemanha e na Bélgica.
Enquanto essa relação entre retórica rápida, execução parcial e piso legal se mantiver, cada nova promessa de rutura definitiva entra para a série que ensinou a Europa a geri-la como ruído. O planeamento continua a fazer-se com 80.000.
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