Vance: a paz com o Irão e o livro “Communion”

Numa janela de 24 horas, o vice-presidente validou à distância o fim da guerra com o Irão e lançou "Communion", livro sobre uma "morte civilizacional" do Ocidente

Economia

Elian Morvane
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Elian Morvane é analista do Arcana News, onde escreve sobre geopolítica, poder e relações internacionais. É autor de mais de trezentos artigos de análise e contexto, com foco nas dinâmicas europeias, na política institucional e nos processos de influência que raramente chegam às manchetes.
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A 15 de junho, o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, assinou digitalmente, à distância, um memorando de entendimento que pôs fim ao bloqueio norte-americano aos portos iranianos, reabriu o Estreito de Ormuz e deu início a sessenta dias de negociações sobre o programa nuclear do Irão. O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, assinou do lado de Teerão. No dia seguinte, 16 de junho, a editora HarperCollins publicou “Communion: Finding My Way Back to Faith“, a segunda autobiografia de Vance — um livro que descreve o Ocidente como uma civilização cristã em risco daquilo a que chama “morte civilizacional“, perante o avanço do secularismo. As duas datas não têm relação formal entre si.

Vance: a paz com o Irão e o livro “Communion”

Vance encontrava-se nos Estados Unidos; Trump, em França, na cimeira do G7, hesitou publicamente em comparecer a uma cerimónia formal, chegando a dizer a jornalistas que o memorando “pode não ser o tipo de documento” que devesse assinar pessoalmente — e brincou que, se o acordo falhasse, a culpa seria de Vance. Dois dias depois, a 17 de junho, Trump acabou por assinar uma cópia física durante um jantar de Estado no Palácio de Versalhes; Vance participaria depois numa cerimónia própria na Casa Branca, a primeira aparição conjunta dos dois desde o início da guerra. Netanyahu, questionado sobre o acordo, respondeu apenas que ele e Trump “nem sempre veem os assuntos da mesma forma” — e, no mesmo dia, Israel e o Hezbollah, apoiado pelo Irão, mantinham confrontos no sul do Líbano, com ambos os lados a reivindicar os ataques.

Vinte e quatro horas depois da assinatura, Vance publicou o segundo livro da sua carreira — sendo, ao mesmo tempo, o rosto público, incómodo e hesitante, do fim de uma guerra que privadamente questionava. “Communion” é uma sequela de “Hillbilly Elegy” (2016), o livro que o tornou conhecido antes de entrar na política, e é raro: poucos vice-presidentes em funções publicam livros pessoais a meio do mandato. O livro reconstrói a evolução religiosa de Vance — do cristianismo evangélico da infância ao ateísmo, e deste à conversão ao catolicismo em 2019.

Por detrás da autobiografia está uma tese sobre civilização. Para Vance, o Ocidente atravessa uma transição entre dois modelos de sociedade, do que chama “cristianismo ocidental” para o “liberalismo secular global”, e é essa transição que, no livro, explica de fundo a tensão racial, a erosão do casamento e a quebra da natalidade nos países ricos. Ao pior cenário possível chama “morte civilizacional” — não a morte de uma pessoa, escreve, mas de tudo aquilo que dava sentido à vida dessa pessoa. Como modelo cita a geração que combateu na Segunda Guerra Mundial, a quem atribui não a defesa de “liberdade” ou “democracia” enquanto ideias abstratas, mas a defesa de um conjunto concreto de heranças que associa especificamente à tradição cristã ocidental: direitos naturais, liberdade de expressão, dever para com o próximo.

Esta ideia de um Ocidente ancorado numa herança cristã específica, e não em princípios universais e abstratos, não nasce com o livro. Já a tinha usado, por exemplo, na Convenção Republicana de 2024, quando recusou definir os Estados Unidos apenas como um conjunto de ideias e apontou antes para um cemitério de família no Kentucky como prova de que a nação é, antes de mais, um território herdado — dizendo então que ninguém luta por uma abstração, mas sim por um lar. Um ano depois, num discurso no Claremont Institute, foi mais longe, questionando se os Estados Unidos podem sequer ser definidos como uma nação assente apenas na adesão a princípios.

O livro cruza-se, sem o admitir de forma explícita, com o acordo que Vance tinha acabado de assinar. Numa intervenção anterior na Conferência de Segurança de Munique, tinha definido a imigração em massa, e não a Rússia ou a China, como a principal ameaça à Europa, descrevendo-a como um perigo que vem “de dentro”. Em “Communion”, essa mesma preocupação aparece ligada à fé: a diversidade demográfica, escreve, avançou ao mesmo tempo que se perdeu o que descreve como o principal fator de coesão cultural do Ocidente — o cristianismo. Na mesma semana, Vance validava um acordo de paz com uma república islâmica xiita, mediado por dois países de maioria muçulmana.

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A receção crítica a “Communion” foi, na generalidade, desfavorável. O Wall Street Journal descreveu-o como o progresso do vice-presidente; a New Yorker foi mais direta, classificando-o como uma autobiografia de conversão desdenhosa. O New York Times já tinha noticiado o anúncio do livro em março: a publicação, previa-se, alimentaria a especulação sobre uma candidatura de Vance em 2028.

No início de 2020, perante as primeiras notícias de um vírus na China, Vance foi a uma loja de artigos desportivos comprar mil munições e depois a um Walmart abastecer-se de arroz, farinha e carne. Segundo o “Regime Change”, dos jornalistas do New York Times Maggie Haberman e Jonathan Swan sobre o segundo mandato de Trump, Vance descrevia-se a si próprio, em privado, como alguém com tendência para antecipar sempre o pior cenário. O mesmo livro relata que, depois do assassínio do ativista Charlie Kirk, chegou a explorar de forma intensa teorias sobre uma conspiração por detrás do crime, ao ponto de a mulher, Usha, lhe manifestar preocupação.

No espaço de vinte e quatro horas, o mesmo homem geriu à distância o desfecho de uma guerra que evitava publicamente assumir como sua, e apresentou-se ao país como defensor da sobrevivência espiritual do Ocidente cristão — uma imagem bem mais distante do pragmatismo transacional de Trump do que qualquer memorando assinado num ecrã. Se isso ajuda Vance rumo a 2028 é outra pergunta, ainda sem resposta.

Nota de atribuição: As citações do livro “Communion: Finding My Way Back to Faith” (HarperCollins, 16 de junho de 2026) são de JD Vance. As citações de discursos são da Convenção Nacional Republicana de 2024, do Claremont Institute (2025) e da Conferência de Segurança de Munique.

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