CONTEXTO · Geopolítica e Poder · Austrália / Indo-Pacífico · Submarinos e dissuasão sobre Taiwan
Perth é, para efeitos práticos, uma das cidades grandes mais isoladas do planeta — mais perto de Jacarta do que de Sydney, cercada por milhares de quilómetros de deserto e de oceano Índico. Durante décadas, essa distância funcionou como o principal argumento estratégico da Austrália Ocidental, um argumento que a mantinha fora dos grandes confrontos entre potências. A uma hora de carro a sul de Perth, numa ilha ligada ao continente por uma ponte, fica a base naval de HMAS Stirling. Até há pouco tempo, era uma instalação relativamente discreta da marinha australiana.
Washington planeia agora destacar até quatro submarinos de propulsão nuclear para Stirling nos próximos anos, com o primeiro previsto para 2027. Camberra está a investir milhares de milhões de dólares na base e num complexo de manutenção nas proximidades. O objetivo declarado é dissuadir a China de avançar sobre Taiwan. O custo político, dentro da própria Austrália, está longe de ser consensual.
A Austrália Pode Ficar Sem os Submarinos Americanos: o Preço do AUKUS em Stirling
O essencial deste artigo
- Os EUA vão basear até quatro submarinos nucleares na HMAS Stirling, Austrália Ocidental, a partir de 2027.
- A escolha responde à vulnerabilidade de Guam a um ataque chinês de mísseis logo no início de um conflito.
- Camberra investe milhares de milhões de dólares em Stirling e num complexo de manutenção em Henderson, incluindo a doca seca.
- A Austrália não permite bases estrangeiras em solo próprio; os destacamentos americanos são por isso classificados como rotativos.
- O acordo AUKUS pressupõe que os EUA vendam submarinos Virginia-class à Austrália a partir do início da década de 2030; a indústria naval americana está atrasada e essa venda não está garantida.
Os EUA já detém submarinos em Guam, no Pacífico, mas Guam é solo americano — e um alvo relativamente fácil para uma primeira vaga de mísseis chineses no início de qualquer confronto sobre Taiwan. Grande parte da manutenção de submarinos é feita hoje em Guam, em Pearl Harbor ou no território continental dos EUA, e os estaleiros americanos têm dificuldade em acompanhar a procura. Stirling fica mais longe do alcance imediato de Pequim do que Guam, ainda dentro de alcance razoável do mar do Sul da China e do estreito de Taiwan.
Em outubro de 2025, o USS Vermont — um submarino de ataque Virginia-class, o mais avançado da marinha americana — visitou Stirling durante cerca de quatro semanas. As equipas australianas e americanas trabalharam em conjunto em dezenas de tarefas de manutenção, naquela que o vice-primeiro-ministro australiano Richard Marles descreveu como a manutenção mais extensa alguma vez feita a um submarino nuclear americano fora dos Estados Unidos. O contra-almirante Lincoln Reifsteck, que comanda um grupo submarino americano, resumiu a lógica: ter esta geografia disponível permite à marinha regressar ao combate mais depressa.
O investimento australiano em Stirling ronda os 5,6 mil milhões de dólares — centro de treino, habitação, melhorias no cais para submarinos, uma instalação para resíduos radioativos e reforço de energia. A poucos quilómetros, no continente, um subúrbio chamado Henderson recebe outros 8,4 mil milhões de dólares para um complexo de manutenção e construção naval, que deverá incluir docas secas, indispensáveis para reparações de maior escala.
Essa doca seca, porém, ainda não existe. Os responsáveis australianos admitem que uma capacidade de contingência: uma doca flutuante capaz de reparações de emergência, ainda que não do nível mais extenso, só deverá estar pronta no início da década de 2030.
A Austrália não autoriza bases estrangeiras em solo próprio, por isso, oficialmente, os destacamentos americanos são descritos como rotativos. Cerca de 1.200 militares dos EUA e do Reino Unido — que também planeia operar um submarino a partir de Stirling — deverão mudar-se para a região, com obras de mil milhões de dólares e milhares de famílias a instalarem-se à volta da base.
O pilar um do AUKUS depende desta mesma promessa: que a Austrália comece a adquirir os seus próprios submarinos Virginia-class, de propulsão nuclear, a partir do início da década de 2030. Hoje, a frota australiana é inteiramente diesel-elétrica. Em dezembro de 2025, em Washington, os ministros da Defesa dos três países reafirmaram o compromisso de avançar “a todo o vapor” com o programa, depois de revisões internas em cada um dos governos.
A indústria naval americana, no entanto, tem estado lenta, e persistem dúvidas sobre se os Estados Unidos conseguirão mesmo vender esses submarinos à Austrália a tempo. Malcolm Turnbull, antigo primeiro-ministro australiano pelo Partido Liberal, questionou publicamente se serve o interesse da Austrália ter uma base submarina americana em Stirling sem garantia de vir a ter submarinos próprios, e descreve o AUKUS como um sacrifício considerável da soberania australiana.
Sophie McNeill, do Partido Verde e deputada no parlamento da Austrália Ocidental, alerta para os resíduos radioativos, a pressão sobre o mercado imobiliário e o risco de a região se tornar um alvo mais evidente por albergar submarinos americanos. Descreve o litoral sudoeste do país como prestes a transformar-se numa base gigantesca da marinha dos EUA, numa parte do país que a maioria dos australianos mal nota.
A China consegue atingir Stirling com mísseis, mas a base fica mais longe do que outras instalações americanas na região, o que dificulta esse alcance.
Os submarinos estacionados mais longe de Pequim conseguem patrulhar pontos de estrangulamento marítimo a norte da Austrália e, em caso de conflito, ajudar a bloquear rotas comerciais chinesas, sem depender inteiramente de Guam ou do Havai, ambos mais expostos a um primeiro golpe. Para um país que depende do comércio marítimo tanto quanto a Austrália, essa capacidade tem valor próprio, independentemente do que aconteça a Taiwan.
Fica por resolver a pergunta que atravessa todo o acordo: vale a pena hospedar, desde já, uma peça central da dissuasão americana contra a China, numa base cada vez maior e cada vez mais permanente, apostando que os submarinos prometidos à própria Austrália cheguem, de facto, a tempo?
Cronologia mínima
- Setembro de 2021 — Anúncio do acordo AUKUS entre os Estados Unidos, Reino Unido e Austrália.
- Outubro de 2025 — O USS Vermont visita a HMAS Stirling durante cerca de quatro semanas para a manutenção conjunta.
- 10 de dezembro de 2025 — Reunião dos ministros da Defesa do AUKUS em Washington; compromisso de avançar “a todo o vapor”.
- 2027 — Data prevista para a chegada do primeiro submarino americano permanente a Stirling.
- Início da década de 2030 — Prazo previsto para a entrega dos primeiros submarinos Virginia-class à Austrália.
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