A Europa Não Sabe Quanto de Taiwan Existe nas Suas Fábricas

Os semicondutores taiwaneses chegam à indústria europeia dentro de módulos, sistemas de controlo e peças compradas noutros países. Muitas empresas só conhecerão a dependência quando uma entrega falhar

Economia

Elian Morvane
Elian Morvanehttps://arcananews.com/author/elian-morvane/
Elian Morvane é analista do Arcana News, onde escreve sobre geopolítica, poder e relações internacionais. É autor de mais de trezentos artigos de análise e contexto, com foco nas dinâmicas europeias, na política institucional e nos processos de influência que raramente chegam às manchetes.
Guardados

Notícia – Geopolítica e Poder · União Europeia / Taiwan · Semicondutores, dependência industrial e soberania tecnológica

A Europa Não Sabe Quanto de Taiwan Existe nas Suas Fábricas

Uma fábrica europeia recebe do fornecedor habitual a informação de que a entrega prevista para a semana seguinte foi adiada. Não existe uma nova data confirmada.

A empresa não compra semicondutores diretamente em Taiwan. Compra um módulo eletrónico a uma empresa instalada na Alemanha, na República Checa ou noutro país próximo. O módulo faz parte de uma máquina, de um automóvel, de um aparelho médico ou de um sistema de energia. A origem registada nos documentos comerciais é europeia.

Ao pedir uma explicação, o fabricante descobre que o fornecedor aguarda uma placa montada na Ásia. Dentro dessa placa existe um circuito integrado produzido numa fundição taiwanesa. Não existe outra unidade já aprovada para o fabricar. O fornecedor alternativo mais próximo precisa de vários meses para adaptar a produção, testar a peça e obter a validação do cliente.

Taiwan não constava da lista de fornecedores diretos, embora o circuito integrado no módulo tivesse sido produzido na ilha.

A exposição industrial europeia não pode ser medida apenas pelas importações que atravessam diretamente a fronteira da União. Os semicondutores percorrem cadeias mais longas do que aquelas que os documentos utilizados pela maioria das empresas permitem acompanhar.

Receber o Despacho Semanal
Até onde quer aprofundar a sua visão do mundo? Receba o Despacho Semanal. Política, poder e mundo, com profundidade. Grátis. Semanal. Direto ao ponto.

Um processador pode ser desenhado nos Estados Unidos, fabricado em Taiwan, encapsulado na Malásia, montado numa placa na China e integrado num sistema eletrónico na República Checa. Quando esse sistema chega a uma fábrica alemã, é registado como uma compra a um fornecedor europeu.

A origem comercial do sistema não revela necessariamente onde foram fabricados todos os circuitos, sensores ou microcontroladores instalados no seu interior.

Uma guerra por Taiwan produziria também um choque comercial, financeiro e militar mais amplo sobre a Europa.

O essencial deste artigo

  • Muitos semicondutores fabricados em Taiwan chegam à Europa dentro de módulos e peças produzidos noutros países.
  • As estatísticas comerciais e as listas de fornecedores diretos não mostram toda a dependência industrial europeia.
  • Um componente de baixo custo pode parar uma linha inteira porque a substituição exige testes, capacidade produtiva e nova aprovação.
  • As novas fábricas europeias reduzem o risco, mas não reproduzem toda a capacidade, o conhecimento e a rede industrial existentes em Taiwan.

Como os semicondutores de Taiwan entram nas fábricas europeias

Em 2025, Taiwan foi o 13.º maior parceiro comercial da União Europeia. As importações europeias de mercadorias provenientes da ilha atingiram 45,3 mil milhões de euros. Cerca de 34 mil milhões correspondiam a maquinaria e equipamento de transporte.

São valores significativos, mas incompletos.

As estatísticas comerciais mostram o país de onde chega uma mercadoria. Não mostram necessariamente onde foram produzidos todos os componentes que a integram. Uma centralina automóvel importada da Ásia pode conter vários chips taiwaneses. O mesmo acontece com equipamento comprado dentro da Europa, se o fornecedor europeu tiver recorrido a placas, sensores ou microcontroladores produzidos noutros continentes.

A OCDE distingue entre dependência direta e indireta. A primeira existe quando uma empresa compra o semicondutor. A segunda surge quando o chip chega incorporado num bem intermédio adquirido a outro fornecedor. Quanto maior for o número de níveis da cadeia, mais difícil se torna identificar a fábrica que produziu o circuito original.

A maioria das empresas conhece bem o primeiro nível.

Sabe quem entrega o sensor, a unidade eletrónica, o equipamento de controlo ou a placa. Pode conhecer parte do segundo nível. A visibilidade diminui depois disso. Um fabricante final raramente acompanha todas as fundições, empresas de encapsulamento, distribuidores e montadores envolvidos em cada componente.

Nem todos os fornecedores estão dispostos a revelar essa informação. Preços, origens, volumes, contratos e alternativas disponíveis fazem parte da posição comercial de uma empresa. Identificar uma dependência exclusiva pode afetar negociações, concorrência e a confiança dos clientes.

O fornecedor direto pode igualmente desconhecer a origem completa das peças adquiridas por empresas situadas vários níveis abaixo.

Um estudo do Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia concluiu que quase 80% dos fornecedores de fatores de produção das empresas analisadas estavam fora da União. Entre os clientes, 63% situavam-se igualmente fora do espaço europeu. Os investigadores reconheceram dificuldades na elaboração de uma lista completa das dependências, sobretudo entre pequenas e médias empresas e utilizadores finais.

Perante uma interrupção em Taiwan, os fabricantes verificariam encomendas em trânsito, componentes já concluídos, inventários disponíveis e produtos que utilizassem circuitos provenientes da ilha. Os fornecedores diretos consultariam as empresas que montam as placas. Estas procurariam saber que encomendas tinham sido produzidas, que bolachas permaneciam em produção nas fundições e que mercadorias já tinham saído dos portos.

Em várias cadeias, a origem de determinados circuitos só seria confirmada depois destas consultas.

A escassez de 2021 chegou por componentes específicos

A indústria automóvel europeia já conhece o efeito de uma pequena falha dentro de uma cadeia muito maior.

Em 2021, a produção europeia de automóveis de passageiros caiu 5,7%. As matrículas na União diminuíram 2,4%, apesar de a comparação ser feita com o ano anterior, já marcado pela pandemia e por uma forte contração da procura. Várias fábricas suspenderam parcial ou totalmente a produção por falta de microchips.

A escassez incidiu sobre determinados circuitos utilizados em funções concretas. Um automóvel moderno contém centenas ou milhares de chips, consoante o modelo e a forma de contagem. Alguns controlam a injeção, os travões, a bateria ou os airbags. Outros regulam a iluminação, a climatização, a direção, as comunicações e a assistência à condução.

Uma unidade quase concluída não pode ser entregue se lhe faltar o circuito necessário para uma função obrigatória. O resto do veículo pode estar disponível. A fábrica pode ter motores, aço, vidro, cablagens, trabalhadores e capacidade logística. Um circuito de poucos euros pode continuar a impedir a conclusão e a homologação do automóvel.

Em outubro de 2025, a indústria automóvel europeia voltou a enfrentar uma ameaça semelhante devido à interrupção do fornecimento de chips da Nexperia. A Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis avisou que as existências disponíveis poderiam durar apenas algumas semanas. Havia produtores alternativos, mas a qualificação de novos fornecedores e o aumento da capacidade demorariam vários meses.

A Nexperia não é taiwanesa. O episódio mostrou, porém, por que motivo a existência de um componente semelhante não resolve imediatamente a escassez.

Um circuito substituto tem de ser testado na placa em que será instalado. O software pode precisar de alterações. É necessário verificar o seu comportamento perante diferentes temperaturas, vibração, consumo elétrico, interferência eletromagnética e utilização prolongada.

No setor automóvel, a alteração pode exigir uma nova validação e homologação. Em equipamentos médicos, na aeronáutica, na energia ou na defesa, os procedimentos podem ser ainda mais restritivos. A produção só pode retomar depois de o componente alternativo passar pelos testes e pelas aprovações exigidos para o produto final.

Uma fábrica afetada por uma interrupção em Taiwan tentaria utilizar os chips disponíveis nos modelos mais rentáveis ou nos contratos mais importantes. Determinadas linhas seriam suspensas para manter outras. Poderiam ser produzidos automóveis ou máquinas incompletos, armazenados até à chegada do módulo em falta e, posteriormente, devolvidos à linha.

Essas soluções ocupam espaço, imobilizam capital e aumentam os custos. Não evitam a redução da produção quando a escassez se prolonga.

Processos maduros, componentes específicos

A posição de Taiwan é frequentemente explicada através dos processadores mais avançados.

A concentração da fabricação na fronteira tecnológica é real. Essa concentração é particularmente visível na cadeia dos processadores usados em inteligência artificial. Os chips usados em inteligência artificial, centros de dados e computação de elevado desempenho dependem de um número muito reduzido de empresas e instalações.

A indústria europeia consome, porém, uma variedade muito maior.

Automóveis, máquinas, equipamentos médicos e infraestruturas utilizam sensores, microcontroladores, memórias, circuitos analógicos, semicondutores de potência e dispositivos discretos. Muitos são produzidos através de processos considerados maduros. Não precisam dos transístores mais pequenos disponíveis.

Precisam de funcionar durante anos e de suportar calor, vibração, humidade, variações de tensão e utilização contínua.

A maturidade do processo não elimina a especialização.

Uma fábrica capaz de produzir chips de 28 nanómetros não pode assumir automaticamente o fabrico de qualquer microcontrolador desenvolvido para esse processo. São necessários o desenho, as máscaras, as bibliotecas, o encapsulamento, os testes e a aprovação do cliente. As linhas disponíveis podem estar ocupadas com outros produtos.

A OCDE assinala que a capacidade mundial está fortemente concentrada e que a substituição entre fábricas é limitada. As unidades não são instalações genéricas capazes de mudar de produto assim que surge uma encomenda.

A cadeia taiwanesa inclui empresas de desenho, fundições, fabricantes de substratos, unidades de encapsulamento e teste, fornecedores de materiais e uma extensa rede de eletrónica. A interrupção dos portos, da energia, das comunicações ou do transporte afetaria este conjunto, mesmo que determinadas fábricas não fossem atingidas diretamente. A capacidade de Taiwan para manter essas infraestruturas dependeria da duração e permeabilidade do bloqueio.

O primeiro circuito a faltar numa empresa europeia poderia ser um microcontrolador automóvel, um sensor industrial ou um componente de gestão de energia produzido através de uma tecnologia disponível há vários anos.

A aprovação de um substituto continuaria a exigir testes, capacidade produtiva e tempo.

Equipamento e materiais: a posição europeia

A cadeia de semicondutores não está concentrada num único território.

Empresas europeias ocupam posições importantes nos produtos químicos e gases utilizados nas fábricas de chips. Em 2020, representavam cerca de 34% do volume de negócios mundial desse segmento. No equipamento de produção, a quota europeia rondava 27%, pouco abaixo da norte-americana.

A ASML fornece os sistemas de litografia mais avançados. A empresa depende de ótica, lasers, software, materiais e milhares de fornecedores distribuídos por vários países europeus.

A produção taiwanesa também depende dessa infraestrutura.

Infineon, STMicroelectronics, NXP e Bosch possuem competências relevantes em componentes automóveis e industriais, sensores, microcontroladores e semicondutores de potência. A Europa mantém centros de investigação avançada, produtores de materiais e empresas essenciais à construção e ao funcionamento das fábricas.

Uma interrupção prolongada das exportações europeias de equipamento, peças ou materiais atingiria a produção taiwanesa. Essa posição não forneceria, contudo, às fábricas europeias os chips necessários durante uma crise imediata.

A ASML vende máquinas utilizadas para fabricar semicondutores. Não produz os circuitos que entram num automóvel ou num equipamento médico. As máquinas já instaladas na Europa pertencem a fábricas configuradas para determinados processos, produtos e clientes. Não podem ser rapidamente transferidas para a produção do componente em falta.

O Centro Comum de Investigação considerou forte a posição europeia nos fatores de produção e no equipamento, mas negligenciável a presença das empresas da União entre as fundições independentes e as companhias dedicadas ao desenho de chips sem produção própria. A fabricação por contrato permanecia dominada por empresas de Taiwan e da Coreia do Sul.

As fábricas europeias existentes continuariam sem os processos, as máscaras, a capacidade livre ou as qualificações necessárias para produzir imediatamente toda a variedade de componentes fabricados por contrato na Ásia.

Dresden: capacidade europeia sob operação da TSMC

Nos arredores de Dresden, a European Semiconductor Manufacturing Company está a construir uma unidade destinada aos setores automóvel, industrial, das telecomunicações e da Internet das Coisas.

O investimento deverá ultrapassar 10 mil milhões de euros. A Alemanha foi autorizada a conceder 5 mil milhões em apoio público. A produção deverá começar no final de 2027 e atingir a capacidade plena em 2029, com 40 mil bolachas de 300 milímetros por mês, equivalentes a 480 mil por ano.

A fábrica utilizará processos de 28/22 e 16/12 nanómetros, adequados a muitos componentes automóveis e industriais.

A TSMC detém 70% da empresa. A Bosch, a Infineon e a NXP possuem 10% cada. A unidade será operada segundo os processos da companhia taiwanesa, e os engenheiros destinados a Dresden estão a receber formação nas instalações da TSMC em Taiwan.

O projeto responde a uma vulnerabilidade identificada durante a escassez de 2021. A capacidade fica próxima dos clientes europeus. Os tempos de transporte diminuem. Os fabricantes passam a poder encomendar produção dentro da União. Os fornecedores e técnicos especializados terão incentivos para se instalar na região.

O projeto não parte de um ecossistema europeu completo já instalado em seu redor.

Será necessário formar engenheiros, contratar empresas de manutenção, garantir materiais, organizar fornecedores e criar relações de trabalho com os clientes. Uma parte desse conhecimento chega através da TSMC e continuará integrada na estrutura global da empresa.

As decisões de investimento, a propriedade intelectual, o software interno, as equipas especializadas e determinadas operações de manutenção poderão manter-se ligadas à organização taiwanesa.

Dresden reduz o risco associado ao transporte e à concentração física da produção na Ásia. Também transfere para a Europa processos que, até agora, se encontravam noutras geografias.

A unidade não reproduzirá a capacidade total instalada em Taiwan. Ficará concentrada em processos automóveis e industriais e não incluirá todas as categorias de semicondutores, o conjunto das empresas de encapsulamento e teste ou os processos mais avançados usados nos aceleradores de inteligência artificial.

A capacidade estará localizada na Alemanha, enquanto parte do conhecimento operacional, da propriedade intelectual e das decisões empresariais continuará integrada na estrutura internacional da TSMC.

Quota de mercado e segurança de abastecimento

O Regulamento Circuitos Integrados estabeleceu como objetivo que a União Europeia represente 20% do valor da produção mundial de semicondutores até 2030.

A estratégia procura mobilizar investimento, apoiar novas fábricas, reforçar a investigação e o desenho e criar mecanismos de acompanhamento e resposta a crises.

Em 2025, o Tribunal de Contas Europeu concluiu que a meta dificilmente seria alcançada. As previsões da Comissão indicavam uma subida da quota europeia de 9,8% em 2022 para 11,7% em 2030. Os auditores consideraram lento o calendário de implementação e entenderam que os mecanismos de acompanhamento das cadeias ainda se encontravam numa fase inicial.

A quota mundial mede o valor da produção europeia. Não indica necessariamente se estarão disponíveis os componentes de que as fábricas necessitam durante uma crise.

A Europa pode aumentar o valor da produção através de chips avançados e dispendiosos sem assegurar todos os microcontroladores, sensores ou circuitos analógicos utilizados pela indústria. Pode também construir capacidade destinada a determinados setores e continuar dependente de Taiwan noutras categorias.

Uma fábrica de chips para inteligência artificial não substitui uma linha de componentes automóveis. Uma unidade especializada em sensores não produz todos os circuitos necessários à gestão de energia. As duas aumentam o valor da produção europeia, mas afetam dependências distintas.

O Tribunal de Contas observou que os principais problemas de abastecimento durante a pandemia não resultaram da falta dos chips mais avançados. Notou também que uma fábrica pode demorar quatro ou cinco anos a construir, limitando a contribuição dos projetos mais recentes para a meta de 2030.

Em junho de 2026, a Comissão apresentou um novo pacote de soberania tecnológica, incluindo um Regulamento Circuitos Integrados 2.0. A iniciativa pretende aumentar a capacidade, reforçar as tecnologias de ponta e estimular a oferta e a procura europeias.

A segurança do abastecimento dependerá da composição da capacidade instalada, das categorias produzidas, dos inventários e do tempo necessário para reconverter linhas. O aumento do valor da produção não permite, isoladamente, saber se esses componentes estarão disponíveis.

Os primeiros dias seriam gastos a localizar as falhas

Uma interrupção da produção em Taiwan não pararia todas as fábricas europeias na mesma manhã.

Os fabricantes começariam por verificar encomendas concluídas, mercadorias em trânsito e inventários existentes. Os distribuidores suspenderiam algumas cotações, reduziriam a validade dos preços e limitariam as quantidades por cliente.

As empresas com maior liquidez tentariam assegurar existências antes das restantes.

Os clientes contactariam os fornecedores diretos. Estes consultariam montadores de placas, fabricantes de módulos e distribuidores. Em vários casos, só depois dessas consultas seria possível identificar a fundição onde o circuito tinha sido produzido.

Alguns componentes continuariam disponíveis durante semanas. Outros poderiam desaparecer rapidamente do mercado. O prazo dependeria do inventário, da procura, das mercadorias já expedidas e da possibilidade de manter abertas as rotas comerciais.

As empresas começariam depois a redistribuir os chips.

Os produtos menos rentáveis perderiam prioridade. Algumas linhas seriam suspensas para preservar modelos mais importantes. Os contratos sujeitos a penalizações poderiam receber os últimos componentes disponíveis.

Uma fábrica com inventário para doze semanas continuaria a trabalhar quando outra, abastecida para três, já reduzisse turnos. Uma empresa poderia manter a produção de máquinas para construção e suspender uma versão destinada à rede elétrica. Outra teria todos os componentes necessários, exceto um sensor obrigatório.

Os fabricantes procurariam peças alternativas. O processo incluiria testes, alterações de software, validação da placa e, quando necessário, uma nova homologação. O fornecedor escolhido teria de encontrar capacidade numa altura em que empresas de vários países tentariam fazer a mesma substituição.

O volume global de semicondutores disponível não mostraria que modelos ou equipamentos conseguiriam continuar a sair das linhas.

O Estado teria de pedir dados que as empresas protegem

O Regulamento Circuitos Integrados criou mecanismos de acompanhamento e resposta a crises. A Comissão deverá mapear vulnerabilidades, desenvolver indicadores de alerta e coordenar medidas através do Conselho Europeu de Semicondutores.

O Tribunal de Contas verificou que o acompanhamento formal começou apenas depois da entrada em vigor do regulamento. A metodologia ainda estava a ser desenvolvida com apoio técnico externo.

Mapear uma cadeia exige dados empresariais que nem sempre estão disponíveis.

Os fornecedores, preços, inventários e volumes constituem informação comercial sensível. Uma empresa pode não querer revelar que depende de uma única fundição. Esse dado pode afetar clientes, negociações e a avaliação do risco.

A própria empresa pode desconhecer as fundições e os fornecedores utilizados vários níveis abaixo da sua relação contratual direta.

Um fabricante pode impor requisitos de informação ao fornecedor imediato. Tem menos poder sobre as empresas situadas nos níveis seguintes da cadeia. Esta muda com frequência: a montagem é transferida, uma empresa contrata uma nova fundição ou um distribuidor altera a origem do componente.

Uma base de dados construída num determinado momento pode deixar de refletir a cadeia antes de ocorrer uma crise.

Ainda assim, a preparação europeia exigiria identificar os circuitos sem alternativa qualificada, os inventários existentes e as linhas de produção que seriam afetadas primeiro. Seria necessário conhecer as fábricas europeias capazes de adaptar processos e o tempo exigido para essa mudança.

As autoridades poderiam ter de atribuir prioridade a determinados setores.

Equipamentos médicos, telecomunicações, redes elétricas, sistemas militares, automóveis e máquinas industriais podem utilizar chips iguais ou semelhantes. Uma decisão sobre a distribuição de componentes afetaria hospitais, energia, emprego, exportações e defesa.

Um componente de baixo custo instalado numa máquina-ferramenta pode ser necessário para fabricar peças destinadas à indústria militar. Um microcontrolador automóvel pode sustentar milhares de empregos. Um circuito de telecomunicações pode ser essencial para manter uma rede pública.

A decisão teria de considerar a função do produto final, o inventário disponível, o impacto económico e o tempo necessário para qualificar outra peça.

A dependência só é visível ao nível da peça

A Europa terá novas fábricas, maior capacidade de produção e mais instrumentos para acompanhar a cadeia. Mantém posições fortes na investigação, no equipamento e nos materiais. A instalação de Dresden acrescentará produção automóvel e industrial dentro da União.

As estatísticas do comércio continuarão a mostrar apenas uma parte.

Um módulo comprado a uma empresa alemã pode conter circuitos taiwaneses. Uma máquina importada da China pode depender de chips fabricados pela TSMC ou por outra fundição da ilha. Um equipamento montado na Europa pode incorporar placas produzidas em vários países.

A empresa que compra o produto final vê o fornecedor que emitiu a fatura. A vulnerabilidade pode estar três ou quatro níveis abaixo.

Enquanto as entregas decorrem normalmente, o fornecedor cumpre o contrato e a peça chega na data prevista. Há pouco incentivo para reconstruir a origem de cada circuito instalado no produto.

Quando uma entrega falha, a fábrica procura saber se ainda existe inventário, se o circuito já foi produzido, se há outro fornecedor e quanto tempo demorará a aprovação de uma alternativa.

Essa investigação pode identificar um circuito produzido numa instalação taiwanesa, integrado numa peça adquirida na Europa e sem substituto já testado.

Determinar a exposição real exigirá conhecer a referência do componente, a fundição de origem, o inventário existente, as linhas que o utilizam e o prazo necessário para aprovar outra solução.

Subscrever a Newsletter

Funcionalidade Google

Fontes preferidas disponíveis em Portugal.

A nova opção permite selecionar publicações para surgirem com maior frequência em pesquisas noticiosas relevantes.

Fonte preferida
- Advertisement -spot_img

Mais artigos

Edição Arcana Newsspot_img

Leitura Essencial