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Ataques ucranianos à Wildberries e a pressão sobre a logística russa
Pelo menos 20 instalações foram atacadas desde 18 de julho. Kiev diz atingir logística ligada ao esforço de guerra russo; a empresa nega fornecer o Exército, enquanto vendedores, pontos de recolha e bancos começam a absorver as consequências.
O incêndio no centro logístico da Wildberries, em Ecaterimburgo, foi controlado na sexta-feira, 7 de agosto, e a empresa afirmou que a maior parte da mercadoria ali armazenada não ficou danificada. Desde 18 de julho, porém, pelo menos 20 instalações da maior plataforma russa de comércio eletrónico tinham sido atingidas por ataques ucranianos. Uma análise da Reuters a imagens de satélite contabilizava 1,18 milhões de metros quadrados de armazéns danificados ou destruídos — mais de um quinto da capacidade total da empresa.
Pelo menos 13 pessoas morreram nos ataques aos armazéns. A Wildberries começou, entretanto, a procurar parceiros que disponham de espaço para receber mercadorias desviadas das instalações afetadas. Ecaterimburgo fica a cerca de 1400 quilómetros a leste de Moscovo.
O essencial deste artigo
- Pelo menos 20 instalações da Wildberries foram atacadas desde 18 de julho.
- Uma análise de imagens de satélite contabilizou 1,18 milhões de metros quadrados de armazéns danificados ou destruídos — mais de um quinto da capacidade da empresa.
- A Wildberries opera uma rede de cerca de 98 mil pontos de recolha e afirma que 95% das encomendas são levantadas nesses locais.
- Kiev afirma atingir logística usada para fornecer equipamento ao esforço militar russo; a Wildberries e o Kremlin negam que a empresa forneça as Forças Armadas.
- As fontes abertas não permitem estabelecer, instalação por instalação, que utilização militar existia no momento de cada ataque.
A Wildberries depende de grandes centros de armazenagem para alimentar uma rede de cerca de 98 mil pontos de recolha na Rússia e em países vizinhos. A empresa afirma que 95% das encomendas são levantadas nesses locais. Quando um centro deixa de poder receber ou expedir normalmente, a mercadoria tem de ser transferida, é necessário encontrar outro espaço e mudam os percursos até aos pontos de recolha.
Vasily Klimov, proprietário de um desses pontos em Moscovo e ouvido pela Reuters, disse que recebia cerca de 400 encomendas por dia antes da campanha e que o número tinha descido para aproximadamente 150. Calculou também uma queda de cerca de 50% nas vendas durante um mês. No início desta semana, mais de 3100 pontos franchisados da Wildberries estavam anunciados para venda na plataforma Avito. O caso de Klimov não permite medir o comportamento de toda a rede; a Wildberries continua a funcionar e centenas de milhares de encomendas continuam a circular.
A redução do fluxo, onde ocorre, chega a operadores que não tiveram qualquer instalação atingida.
Quem suporta as perdas dos vendedores
Muitos dos produtos guardados nos armazéns pertencem a comerciantes independentes. Antes dos primeiros grandes ataques de julho, a Wildberries tinha alterado as condições aplicáveis a esses vendedores. Ataques com drones, operações militares e situações semelhantes passaram a constar entre os casos de força maior que poderiam afastar a responsabilidade da plataforma por mercadoria perdida.
Depois dos ataques, a empresa adotou medidas de apoio que não resultavam dessa responsabilidade contratual. Segundo informação fornecida pela Wildberries à Reuters, mais de 97 mil vendedores afetados tinham recebido pagamentos iniciais, descontos ou adiamentos.
O edifício e a operação logística pertencem à rede; grande parte do inventário, não. Um comerciante pode perder produtos num armazém que não controla e ficar depois dependente das condições definidas pela empresa que os recebeu.
Cerca de 300 empresas procuraram o Sberbank para reestruturar empréstimos depois de os ataques terem agravado a situação financeira de comerciantes e retalhistas online. O Governo russo discutiu mecanismos de apoio, entre eles empréstimos através de bancos estatais, benefícios fiscais ou subsídios.
Moscovo continua a rejeitar a acusação de que a Wildberries funcione como fornecedora das Forças Armadas. Ao mesmo tempo, os prejuízos sofridos por empresas que operam através da plataforma já chegaram aos bancos e à discussão de apoio público.
O que Kiev diz estar a atingir
Em 18 de julho, Volodymyr Zelensky afirmou que forças ucranianas tinham atingido, perto de Moscovo e na região de Tambov, armazéns utilizados para distribuir sistemas de navegação, componentes destinados à produção de drones e outros fornecimentos para o Exército russo. Não identificou a Wildberries pelo nome, embora os locais e a data coincidissem com os primeiros grandes ataques sofridos pela empresa.
A Wildberries tem vendido artigos suscetíveis de utilização militar. Entre os produtos encontrados na plataforma estiveram coletes táticos, capacetes, rádios, drones FPV e componentes. No final de julho, as pesquisas diretamente associadas à chamada “operação militar especial” deixaram de devolver resultados na plataforma. Meios russos independentes verificaram, porém, que vários desses artigos continuavam acessíveis através de outras pesquisas e categorias.
O catálogo confirma que esses produtos podiam ser comprados através da Wildberries. Não identifica o destino das unidades vendidas, não mostra que quantidade foi adquirida pelas forças russas e não permite saber que mercadoria estava em cada um dos armazéns quando foi atacado.
A Wildberries e o Kremlin negam que a empresa forneça as Forças Armadas russas.
As informações públicas conhecidas até agora também não estabelecem, instalação por instalação, se existiam produtos destinados a utilização militar nem em que quantidade.
Cronologia
- 18 jul 2026 — Começa a série de grandes ataques contra instalações da Wildberries. Zelensky anuncia ataques a armazéns que Kiev diz estarem ligados à distribuição de material para o Exército russo.
- Final de jul 2026 — Pesquisas diretamente associadas à chamada “operação militar especial” deixam de apresentar resultados na Wildberries, embora vários produtos continuem acessíveis por outras pesquisas.
- 7 ago 2026 — Um centro logístico da Wildberries em Ecaterimburgo é atingido. A empresa diz ter controlado o incêndio e preservado a maior parte da mercadoria.
O que o direito exige de cada alvo
Um objeto civil pode perder proteção contra um ataque quando, pela sua natureza, localização, finalidade ou utilização, contribui efetivamente para a ação militar e quando a sua destruição oferece, nas circunstâncias daquele momento, uma vantagem militar definida. A importância económica de uma empresa, por si só, não satisfaz esses requisitos.
Se, num centro específico, estiverem armazenados componentes destinados às forças russas, esse facto é relevante para a avaliação do alvo. Se a informação disponível se limitar à presença, entre milhões de produtos, de artigos que também podem ser adquiridos por militares ou pelos seus familiares, não é possível fazer a mesma avaliação. As fontes abertas não permitem essa distinção para cada uma das instalações já atingidas.
Também não permitem declarar lícita ou ilícita toda a campanha contra a Wildberries como se os armazéns tivessem necessariamente a mesma função. Uma instalação pode ter uma utilização diferente da de outra.
Na mesma semana, a Rússia atingiu armazéns comerciais em Kiev e nos arredores e alegou que neles eram guardados drones e outros produtos de dupla utilização. Segundo informação recolhida pela Reuters, morreram pelo menos 17 pessoas.
Um armazém comercial pode conter simultaneamente bens civis e produtos com possível uso militar. Para avaliar o ataque, continua a ser necessário estabelecer que utilização concreta tinha a instalação.
Uma rede dependente de grandes centros
Até à campanha contra a Wildberries, muitos dos alvos mais visíveis dos ataques ucranianos de longo alcance eram refinarias, depósitos de combustível, instalações militares ou componentes da indústria de defesa. A Ucrânia tem procurado atingir também a logística e as infraestruturas económicas que considera relevantes para sustentar a capacidade militar russa.
Nos circuitos da Wildberries passam bens de natureza muito diferente. Um rádio, um drone ou um componente eletrónico pode utilizar a mesma rede de distribuição que roupa, brinquedos, cosméticos e produtos domésticos. A presença simultânea desses artigos é uma das dificuldades para determinar, a partir de informação pública, que função desempenhava cada instalação atacada.
Os grandes centros permitem concentrar inventário e abastecer muitos pontos de recolha a partir do mesmo local. Depois de um ataque, parte dessa mercadoria tem de encontrar rapidamente outro destino, enquanto continuam a chegar novos produtos e encomendas.
A Wildberries está a transferir mercadorias, a procurar capacidade alternativa e a reorganizar a distribuição. Uma rede mais dispersa pode depender menos de alguns dos maiores centros, mas exige espaço adicional, redundância e alterações nas rotas. Ainda não é possível calcular quanto custará essa reorganização ou que efeito duradouro terá sobre a quota de mercado da empresa. O facto de mais de um quinto da capacidade ter sido afetado também não equivale à perda da mesma proporção das vendas, porque parte dos produtos pode ser deslocada e novo espaço pode ser contratado.
Alguns custos, contudo, já aparecem nas contas de terceiros. Comerciantes perderam mercadoria, há pontos de recolha com menos encomendas, empresas pediram reestruturações de crédito e a Wildberries começou a fazer pagamentos voluntários. O Governo russo discute apoio financeiro e fiscal.
No centro logístico de Ecaterimburgo, a empresa conseguiu controlar o incêndio e disse ter preservado a maior parte dos produtos. Noutras instalações, a capacidade deixou de estar disponível. Se os ataques prosseguirem, mais mercadoria terá de ser distribuída por instalações alternativas, enquanto a empresa tenta manter os prazos e o volume de entregas da rede que já tinha construído.
Ilustração: Arcana News / IA
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