Revista · Ensaio · Fronteiras · Elian Morvane
A ICE Matou o Alvo Errado — Duas Vezes em Poucas Semanas
- Nenhum dos dois homens que a ICE matou recentemente — no Texas e no Maine — era o alvo da operação em que morreu.
- As duas mortes aconteceram em paragens de trânsito, com semanas de diferença.
- Nenhum dos dois casos tem, até hoje, um vídeo de câmara corporal do momento do disparo.
- O ensaio não decide se as mortes foram justificadas: explora o que desapareceu do encontro entre o Estado e o corpo, agora que acontece dentro de um carro e não à porta de casa.
A mão entra primeiro pelo vidro aberto. Um braço atravessa um espaço que ninguém desenhou para ser atravessado assim: o vão de uma janela de automóvel, uns vinte centímetros de ar entre o caixilho de metal e o corpo sentado do outro lado. Ali está ela, a meio de uma manhã comum, a decidir por um homem que ainda respira o que vai acontecer ao resto do dia.
Isto aconteceu duas vezes em poucas semanas, no Texas e no Maine, a dois homens que, no rigor do plano operacional da ICE (americana) que os matou, não eram sequer quem se tinha ido procurar. Um empreiteiro de construção, pai de três filhos nascidos no país, não parou a carrinha de trabalho: os filhos viriam a dizer que teria pensado estar a ser roubado das ferramentas com que sustentava a família. Um pai colombiano saía de casa a caminho do emprego quando um carro sem qualquer sinal distintivo o cercou na estrada; nenhum dos dois sobreviveu à manhã.
Não é este o lugar para decidir se as mortes foram justificadas. Essa pergunta pertence aos tribunais, às comissões de inquérito, aos relatórios que hão-de vir e que provavelmente hão-de deixar meia dúzia de pessoas satisfeitas e todas as outras não. O que interessa aqui é mais antigo do que qualquer inquérito: o que aconteceu à ideia de soleira.
As sociedades humanas erguem, há milénios, rituais à volta do limiar de entrada. A porta é talvez a fronteira mais antiga que o direito reconhece: entrar sem convite é uma transgressão que a lei quase sempre nomeia antes de perguntar o motivo. As culturas que não deixaram nenhum outro vestígio escrito deixaram quase sempre um costume sobre como se recebe quem chega à porta; e sobre o que é imperdoável fazer a quem a atravessa sem ser chamado. Mesmo hoje, um mandado judicial não é mais do que uma chave cerimonial: a autorização formal para atravessar um limite que, de outro modo, permanece intransponível. A porta tem dobradiças, fechadura, uma campainha que anuncia a chegada antes de o corpo chegar. Tem, sobretudo, uma regra que ninguém precisa de explicar: entra-se depois de se pedir, não antes.
A porta também falha, convém dizê-lo: forçam-se as fechaduras, arrombam-se as casas com mandado ou sem ele, e a soleira nem sempre protegeu quem estava do lado de dentro. Mas mesmo quando falha, falha contra uma regra que existia para ser cumprida; e é essa regra, não a porta em si, que continua completamente ausente da janela de um carro.
O vidro de um automóvel não herdou nada disto. É transparente, mas a transparência nunca foi sinónimo de permissão: ver o interior de um carro não é ser convidado a entrar nele. E, no entanto, é exatamente nesse vão sem autorização nenhuma que uma parte cada vez maior do encontro entre o cidadão comum e o Estado americano passou a acontecer; não à porta de casa, onde ainda resta, ténue, a memória do mandado, mas na estrada, onde não há soleira nenhuma a defender.
Este deslocamento tem uma razão prática, e não é preciso simpatia nem indignação para a descrever: entrar numa casa continua, tecnicamente, a exigir permissão ou ordem judicial, e cada vez mais gente aprendeu a não abrir a porta a um desconhecido, por mais insígnia que este traga ao peito. A estrada não tem essa memória institucional a proteger ninguém. Não há uma fechadura a forçar, não há um segundo de deliberação em que alguém decide se abre ou não abre. Há apenas velocidade e a decisão de travar ou não travar, tomada em menos tempo do que se demora a formulá-la em palavras.
Nada disto é exclusivo de uma política de imigração em particular, e seria um erro tratá-lo como se fosse. Há décadas que a vida contemporânea se organiza cada vez mais em trânsito : trabalha-se a caminho do trabalho, discute-se ao telefone entre semáforos, vive-se uma boa parte do dia dentro de uma cápsula com rodas que nunca foi pensada como espaço jurídico nenhum. Foi por aí, silenciosamente, que o automóvel se tornou um dos poucos lugares onde a vida privada e a autoridade pública se cruzam sem qualquer ritual a mediar o encontro: simplesmente porque nenhuma outra fronteira ficou tão desguarnecida enquanto todas as outras, lentamente, se reforçavam.
É aqui que o problema deixa de ser sobre tática policial americana e passa a ser sobre outra coisa, mais funda: o que resta de um encontro humano quando se lhe retira todo o ritual de aproximação. As luzes a piscar, a sirene, as cores certas na lataria não são decoração: transformam um veículo desconhecido a aproximar-se depressa por detrás numa frase que o corpo consegue ler antes de pensar: isto é a lei, pára. Retire-se essa tradução e o que resta ao corpo é apenas o que sempre teve, muito antes de existirem leis: o alarme puro, sem sintaxe, o mesmo que sentiria diante de qualquer veículo desconhecido a aproximar-se depressa por trás, símbolo estatal ou não.
Nenhum dos dois homens mortos era, sequer, quem a operação tinha ido procurar. É este o pormenor que a maior parte das crónicas relata de passagem, um detalhe entre outros, e que este ensaio recusa deixar cair. Ambos morreram dentro de um sistema desenhado para encontrar outra pessoa; um nome que nunca chegou a ser divulgado, um rosto que não era o deles. Escrever aqui o nome que um deles tinha — Lorenzo Salgado Ajo — é uma insistência mínima em que era uma pessoa determinada, e não uma categoria que a operação tinha saído a caçar.
A imaginação humana tem, para isto, uma figura muito antiga: o homem apanhado por um mecanismo que, propriamente, não andava à sua procura. É a história de um homem encontrado por engano: no lugar errado, à hora errada, dentro de uma carrinha de trabalho ou de um carro a caminho do emprego — que descobre, tarde demais, que a máquina que o intercepta não distingue entre o alvo certo e o corpo que calhou estar ali, e a isso não chega chamar azar. É antes uma propriedade estrutural de qualquer sistema que atua por categoria: reconhece estatutos administrativos, nunca a pessoa concreta que os carrega. Dentro dessa lógica, qualquer corpo que sirva à categoria é, por um instante, substituível pelo alvo verdadeiro. E é precisamente nesse instante de substituição que o pânico, de ambos os lados do vidro, deixa de ter tempo para se corrigir a si próprio.
A lei exige, depois do facto consumado, uma palavra que o próprio pânico nunca soube pronunciar: razoável. Um agente só pode disparar se conseguir, mais tarde, articular um receio razoável de dano iminente — a si, aos colegas, ao público. É uma exigência sensata, no papel: pede-se que a violência do Estado se explique em linguagem, que não seja gesto puro e mudo. Mas há uma fenda entre o que a lei pede e o que um corpo em pânico é capaz de produzir no instante em que o pânico acontece. Ninguém, a acelerar um carro por reflexo ou a premir um gatilho por reflexo, está a articular coisa nenhuma — está a reagir antes de haver tempo para qualquer razão, e só depois, no relatório, na sala de audiências, na entrevista concedida a um jornalista meses mais tarde, é que esse instante sem palavras é traduzido, à força, para uma linguagem que nunca teve.
Dois pânicos, portanto, frente a frente através de um vidro: o de um homem que pensa estar a ser roubado das ferramentas com que sustenta os filhos, e o de um agente recém-contratado, com meses em vez de anos de formação — o tipo de treino que, em geral, não chega para aprender a distinguir um fugitivo de um homem assustado. A ambos se pede, depois, que expliquem racionalmente o que se passou num tempo demasiado curto para conter qualquer raciocínio. É uma exigência que a lei tem de fazer, ainda que chegue, estruturalmente, sempre tarde ao instante que devia explicar.
Pedir composição instantânea a quem foi treinado às pressas para uma função que decide vidas é pedir a um novato aquilo que normalmente se reserva a quem já viveu o suficiente da mesma situação para a reconhecer sem pensar. A formação longa serve, sobretudo, para dar ao corpo um repertório de respostas que a razão não tem tempo de escolher no calor do momento, de modo a que o reflexo, quando chega, já venha filtrado por milhares de repetições anteriores. Encurtar essa formação encurta também o intervalo entre o estímulo e a resposta letal, e transfere para o acaso de cada encontro individual um trabalho que devia ter sido feito, com calma, muito antes de qualquer um dos dois corpos chegar àquele cruzamento.
Entre as várias imagens que sobreviveram a estes dois casos, uma persiste mais do que as outras. No Maine, depois de os disparos atravessarem o para-brisas, o carro continuou em movimento — já sem condutor consciente, sozinho na física do impulso que ainda lhe restava — a descrever voltas dentro de um cruzamento, como se procurasse ainda um destino que já ninguém lá dentro podia decidir. Um automóvel a girar sozinho, depois de a vontade que o guiava se ter apagado, é uma imagem que nenhum relatório oficial vai conseguir conter inteiramente. Continua ali, a girar, muito depois de a intenção humana que o guiava já não existir — o corpo material a demorar mais tempo a parar do que a vontade que o habitava.
Até hoje, nenhuma das duas mortes tem um vídeo de câmara corporal que mostre o instante exato do disparo — as câmaras que deviam existir, prometidas e orçamentadas há mais de um ano, continuam por distribuir, e cada instituição atira a responsabilidade da ausência para a instituição vizinha. O que resta, em vez disso, é um arquivo involuntário: a câmara de vigilância de um estabelecimento próximo, o telemóvel de um transeunte que filmava sem saber bem porquê, o testemunho dos filhos de um dos homens, dito à imprensa dias depois, ainda com a voz presa. Fragmentos que ninguém escolheu gravar com essa intenção e que agora têm de fazer sozinhos o trabalho que a instituição prometeu e não cumpriu.
Memória de arquivo e memória de família são coisas antigas e diferentes, e estes dois casos vão acabar do lado errado dessa diferença. O arquivo institucional é estável — é para isso que serve uma câmara corporal, para transformar um instante em prova que sobrevive a quem o viveu. A memória de família não tem essa estabilidade: muda a cada vez que é contada, e um dia deixa de ser sobre o que aconteceu exatamente para passar a ser sobre o que aquela ausência significou para quem ficou. É essa memória mais frágil, contada pelos filhos e não gravada por nenhuma instituição, que vai ter de fazer sozinha, ao longo dos próximos anos, o trabalho de lembrar. Daqui a uma geração, é provável que sejam estes fragmentos soltos — e não nenhum relatório oficial — a única coisa que reste de ambas as manhãs.
O que se passou dentro daqueles poucos segundos, atrás daqueles vidros, provavelmente nunca se vai saber com exatidão. A soleira desapareceu de um lugar onde existiu durante muito tempo, sem que houvesse decreto nenhum nem reforma legal nenhuma — simplesmente porque o encontro entre o Estado e o corpo se mudou para um sítio que nunca teve porta para bater. Fica por decidir quem tem autoridade sobre o que acontece do outro lado de um vidro que ninguém, ao certo, desenhou para ser essa fronteira.
Leia também: Imigração nos Estados Unidos: detenção, deportação e vigilância · Quando a força aparece de máscara | Minnesota
Funcionalidade Google
Fontes preferidas disponíveis em Portugal.
A nova opção permite selecionar publicações para surgirem com maior frequência em pesquisas noticiosas relevantes.


