A Europa Está a Preparar-se para uma Guerra que Talvez Tenha de Travar Sozinha

A despesa militar europeia atingiu €418 mil milhões em 2025. A maior parte das aquisições continuou, ainda assim, a ser decidida fora de programas comuns

Economia

Alberto Carvalho
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Alberto Carvalho é cronista e editor convidado do Arcana News, onde escreve sobre política, cultura e vida pública. É autor de mais de setenta artigos, combinando rigor crítico e clareza jornalística, com uma atenção permanente ao impacto social das decisões coletivas.
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NOTÍCIA · Geopolítica e Poder · Europa / NATO · Defesa europeia e dependência estratégica dos Estados Unidos

Defesa Europeia sem os Estados Unidos: O Que Ainda Falta

Porque a defesa europeia ainda depende dos Estados Unidos

A União Europeia identificou cerca de 500 intervenções necessárias para permitir que as forças militares atravessem o continente com a rapidez exigida por uma guerra. Há pontes que não suportam determinados veículos, túneis ferroviários que precisam de ser alargados, portos sem capacidade suficiente e aeroportos por adaptar.

Os pontos críticos estão distribuídos por quatro corredores multimodais, concebidos para ligar estradas, ferrovias, portos e aeroportos. Desde 2021, o Mecanismo Interligar a Europa financiou 95 projetos de utilização civil e militar em 21 Estados-membros. A contribuição europeia aproximou-se de €1,7 mil milhões. Em novembro de 2025, onze estavam concluídos.

As obras não resolvem os procedimentos nacionais que continuam a condicionar a circulação de tropas e equipamento. As autorizações transfronteiriças, as formalidades aduaneiras e as regras administrativas variam entre países. Em novembro de 2025, a Comissão Europeia propôs uma zona de mobilidade militar com um procedimento único aplicável nos 27 Estados-membros.

Um veículo blindado comprado por um governo pode permanecer longe da frente porque uma ponte não foi reforçada ou porque a autorização para atravessar uma fronteira chegou tarde. Uma unidade mobilizada pode encontrar plataformas ferroviárias insuficientes, falta de locomotivas adequadas ou terminais sem capacidade para descarregar o equipamento.

Estas limitações coexistem com o maior aumento da despesa militar europeia em décadas.

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Os 27 Estados-membros gastaram €418 mil milhões em defesa durante 2025, mais 20% do que no ano anterior. Vinte e três atingiram ou ultrapassaram 2% do produto interno bruto. A aquisição de equipamento absorveu €115 mil milhões, e a Agência Europeia de Defesa prevê que a despesa conjunta suba para €454 mil milhões em 2026, o equivalente a 2,4% do produto interno bruto da União.

No mesmo ano, apenas 24% das aquisições de equipamento foram realizadas através de programas colaborativos, incluindo projetos com países terceiros.

O essencial deste artigo

  • A despesa militar dos Estados-membros atingiu €418 mil milhões em 2025.
  • Apenas 24% das aquisições de equipamento foram realizadas através de programas colaborativos.
  • A Europa continua dependente dos Estados Unidos em capacidades como o comando, a vigilância, o transporte estratégico e o reabastecimento aéreo.
  • A União Europeia identificou cerca de 500 intervenções necessárias para melhorar a mobilidade militar no continente.
  • O aumento dos orçamentos ainda não produziu uma força europeia capaz de substituir rapidamente as funções militares americanas.

Desde 2007, os membros da Agência Europeia de Defesa mantêm uma meta coletiva de 35% para as compras colaborativas. O compromisso foi integrado na Cooperação Estruturada Permanente, criada em 2017. Em 2025, os resultados nacionais variaram entre zero e 55%. Apenas 19 Estados-membros comunicaram valores relativos à colaboração estritamente europeia.

O dinheiro entrou nos orçamentos nacionais e foi distribuído por contratos decididos segundo necessidades militares próprias, interesses industriais, prazos políticos e equipamentos já em serviço. Grande parte do material terá depois de funcionar dentro da mesma aliança, em operações conduzidas por forças que não participaram nas decisões de aquisição umas das outras.

O compromisso de Haia

Na cimeira da NATO realizada em Haia, em junho de 2025, os aliados comprometeram-se a aplicar anualmente 5% do produto interno bruto em defesa e segurança até 2035. Pelo menos 3,5% serão destinados às necessidades militares essenciais e aos objetivos de capacidades da Aliança. Até 1,5% poderá financiar infraestruturas críticas, a proteção de redes, a preparação civil, a inovação e a indústria de defesa. A trajetória será revista em 2029.

A referência anterior de 2% tinha sido ignorada durante anos por vários países europeus. A nova meta obriga cada aliado a apresentar planos anuais que demonstrem uma progressão considerada credível.

Na cimeira de Ancara, em julho de 2026, a NATO anunciou que os aliados europeus e o Canadá tinham aumentado em mais de 139 mil milhões de dólares os investimentos nas necessidades militares essenciais durante 2025. Foram também anunciadas aquisições superiores a 50 mil milhões de dólares e novos compromissos industriais.

A Agência Europeia de Defesa calcula que a aquisição de equipamento, a investigação e o desenvolvimento representaram mais de 32% da despesa militar dos Estados-membros em 2025. A proporção poderá atingir 36% em 2026. Os governos estão a repor existências, a modernizar unidades e a recuperar capacidades que foram reduzidas durante anos de desinvestimento.

As metas financeiras não esclarecem quantos sistemas estarão operacionais, quanto tempo durarão as reservas ou se os equipamentos adquiridos por países diferentes conseguirão comunicar e combater sob o mesmo comando. Também não medem a disponibilidade de peças, o número de guarnições treinadas ou o tempo necessário para projetar uma unidade até à fronteira oriental.

Um governo pode cumprir a percentagem definida pela NATO comprando sistemas que reforçam as suas próprias forças. A defesa coletiva exige que essas compras correspondam às lacunas identificadas pela Aliança e possam ser utilizadas com os meios existentes noutros países.

O que falta entre a ordem e o alvo

O Livro Branco para a Defesa Europeia — Prontidão 2030 identificou insuficiências em sete áreas: defesa aérea e antimíssil; artilharia e ataque de precisão a longa distância; munições e mísseis; drones e sistemas antidrones; mobilidade militar; inteligência artificial, computação quântica, guerra cibernética e eletrónica; e meios estratégicos. Neste último grupo estão o transporte aéreo pesado, o reabastecimento em voo, a vigilância, as comunicações seguras, as capacidades espaciais e as infraestruturas militares de combustível.

Algumas dessas capacidades atingem ou protegem alvos. Outras permitem que as armas cheguem ao local, recebam informação, permaneçam abastecidas e sejam integradas numa operação.

Os Estados Unidos fornecem uma parte desproporcionada dos meios de comando, inteligência, vigilância, transporte estratégico, reabastecimento aéreo, comunicações por satélite e ataque de longo alcance utilizados pela NATO. A presença americana no continente não se resume às tropas estacionadas em bases europeias.

A França, o Reino Unido, a Alemanha, a Polónia, a Itália, a Turquia, os países nórdicos e outros aliados possuem unidades capazes de defender território e causar perdas elevadas. Alguns detêm parcelas importantes das capacidades estratégicas identificadas pela Comissão. Nenhum país europeu dispõe isoladamente da escala americana, e esses meios não foram reunidos sob uma cadeia política e operacional europeia única.

Uma redução substancial do envolvimento dos Estados Unidos deixaria os exércitos nacionais no terreno. A dificuldade apareceria na condução de uma campanha prolongada: coordenar operações terrestres, aéreas, navais, espaciais e cibernéticas, substituir perdas, distribuir inteligência, defender infraestruturas e deslocar meios entre teatros.

A quantidade total de veículos ou aeronaves não indica quantos podem ser empregues no mesmo momento. Parte estará em manutenção, a formar tripulações ou à espera de componentes. Outra poderá não chegar ao teatro de operações dentro do prazo previsto.

€132 mil milhões contra €418 mil milhões

A Rússia terá gasto cerca de €132 mil milhões em defesa em 2025, aproximadamente um terço da despesa conjunta dos Estados-membros. Os valores agregados colocam a Europa muito acima de Moscovo.

A Agência Europeia de Defesa considera que uma comparação direta pode induzir em erro. A despesa russa poderá estar subestimada devido à falta de transparência, à classificação de custos noutros orçamentos e à existência de fundos regionais e incentivos ao recrutamento difíceis de contabilizar. Ajustado à paridade do poder de compra, o esforço russo poderá aproximar-se dos €282 mil milhões. A agência apresenta o cálculo com reservas e não o trata como uma equivalência automática de força militar.

O Livro Branco europeu descreveu a Rússia, em 2025, como uma economia de guerra assente na mobilização industrial e na inovação tecnológica. Parte importante da produção substitui perdas sofridas na Ucrânia. As fábricas, os contratos, o recrutamento e as decisões públicas estão, porém, orientados para uma guerra já em curso.

Os países da União Europeia mantêm prioridades civis concorrentes e tomam decisões militares através dos governos nacionais. A dimensão económica europeia permite sustentar um esforço superior ao russo, mas a vantagem só se torna operacional quando produz equipamento disponível, reservas suficientes e unidades que podem ser deslocadas e comandadas em conjunto.

Os €418 mil milhões europeus não constituem um orçamento único. A Rússia não precisa de negociar entre 27 governos para decidir que fábrica produz determinado sistema, que especificação deve ser usada ou para onde será enviado o equipamento.

Comprar agora

Os Estados-membros gastaram €17 mil milhões em investigação e desenvolvimento militar durante 2025, cerca de 4% da despesa total. O valor deverá subir para €20 mil milhões em 2026. No mesmo período, a aquisição de equipamento atingiu €115 mil milhões.

A diferença responde a necessidades imediatas. Os sistemas de defesa aérea, os projéteis e os mísseis, os veículos e os drones têm de entrar ao serviço antes de muitos programas europeus de longo prazo estarem concluídos.

Os governos continuarão a adquirir equipamento americano, sul-coreano, israelita e de outros fornecedores quando esses sistemas estiverem disponíveis mais depressa ou corresponderem melhor às necessidades das forças. Substituir todas as importações por projetos europeus ainda incompletos atrasaria o rearmamento.

A compra de uma plataforma não termina com a sua entrega. Durante décadas, serão necessárias peças, munições, atualizações, manutenção e conhecimento técnico. As condições contratuais e o controlo sobre o software podem limitar a possibilidade de modificar ou sustentar o sistema quando uma cadeia de fornecimento é interrompida.

A origem estrangeira não elimina automaticamente a autonomia do utilizador. Essa autonomia depende do acesso a componentes, da capacidade de integração e dos direitos concedidos pelo fabricante. O volume das compras urgentes pode, contudo, reduzir os recursos disponíveis para desenvolver os sistemas que substituirão esse equipamento.

A guerra na Ucrânia combina o consumo industrial em massa com alterações tecnológicas rápidas. A artilharia, as minas, os blindados e os explosivos são usados a par de drones comerciais, sistemas de guerra eletrónica, comunicações por satélite, sensores e modelos de inteligência artificial.

Muitas linhas europeias foram organizadas para séries curtas e encomendas descontínuas. A contratação de trabalhadores, a compra antecipada de matérias-primas e a integração de novos fornecedores exigem compromissos que cubram vários anos. Uma fábrica ampliada para responder a uma crise não se mantém aberta se as encomendas desaparecerem assim que os primeiros stocks forem repostos.

O equipamento enviado para a Ucrânia

Na declaração de Ancara, os aliados comprometeram-se a disponibilizar à Ucrânia €70 mil milhões em equipamento militar, assistência e formação durante 2026. Os aliados europeus e o Canadá passaram a financiar a maioria desse apoio. Foram ainda assumidos compromissos soberanos para manter, em 2027, um nível pelo menos equivalente.

Cada transferência retira equipamento ou munições às reservas nacionais que ainda estão a ser reconstruídas. O intervalo entre a entrega à Ucrânia e a reposição pelo fabricante reduz a disponibilidade imediata do país fornecedor.

O equipamento enviado mantém forças e meios russos ocupados na frente ucraniana. As unidades de Kiev destroem sistemas que poderiam ser utilizados noutros pontos da Europa e recolhem informação sobre as formas de combate russas.

A Ucrânia testa armas, comunicações, drones e doutrinas num ambiente que os exercícios da NATO não reproduzem. Os resultados chegam aos estados-maiores e aos fabricantes europeus, embora os contratos já assinados e os processos de aquisição longos possam atrasar a incorporação dessas lições.

A pressão sobre os stocks só diminui quando as fábricas produzem à mesma velocidade a que os governos transferem material. Enquanto essa capacidade não existir, os países terão de escolher a quantidade que enviam, a reserva que mantêm e o risco que aceitam durante o período de reposição.

A União Europeia adotou 2030 como horizonte para corrigir as lacunas mais importantes. O Livro Branco não afirma que uma guerra começará nessa data. Regista que as insuficiências atuais não devem manter-se até lá.

Os programas industriais, as obras de mobilidade e as reformas administrativas foram organizados segundo esse calendário. A guerra na Ucrânia pode mudar de escala antes de os projetos estarem concluídos. A recuperação das forças russas e as decisões militares de Washington também não dependem dos prazos definidos pelas instituições europeias.

Sem os Estados Unidos não significa sem aliados

Uma defesa europeia com menor participação americana incluiria países que não pertencem à União Europeia.

O Reino Unido é uma potência nuclear, membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas e um dos principais contribuintes militares da NATO. O Livro Branco da Comissão classificou-o como um aliado europeu essencial. A Noruega participa em programas de defesa da União através da sua contribuição para o orçamento europeu e mantém uma parceria formal de segurança e defesa.

A Turquia, o Canadá e outros aliados continuariam dentro da estrutura atlântica. A NATO conservaria o planeamento, o comando e o compromisso de defesa coletiva, caso os Estados Unidos reduzissem as forças estacionadas na Europa ou transferissem meios para outro teatro.

O Livro Branco registou que Washington considerava estar excessivamente comprometido no continente e pretendia reduzir o papel histórico de principal garante da segurança europeia. O mesmo documento declarou que o vínculo transatlântico continuava a ser crucial.

Uma alteração da participação americana não exige a saída dos Estados Unidos da NATO. A garantia nuclear pode manter-se enquanto diminuem as forças convencionais. Os meios de transporte, vigilância ou reabastecimento podem ser deslocados para o Indo-Pacífico. Numa crise europeia, Washington pode participar sem disponibilizar todas as capacidades consideradas nos atuais planos.

A declaração de Ancara reafirmou o artigo 5.º e o vínculo transatlântico. Registou também que os aliados europeus e o Canadá estavam a assumir uma responsabilidade crescente pela defesa da Aliança.

O continente não está a construir uma força destinada a substituir os Estados Unidos em todos os teatros. Procura assumir funções que continuam a depender dos meios americanos quando a ameaça se encontra no próprio território europeu.

As encomendas não corrigem uma ponte

Os aumentos orçamentais permitiram lançar contratos, reabrir linhas de produção e adquirir sistemas que estavam ausentes ou existiam em número insuficiente. As compras colaborativas continuam abaixo da meta de 35%. As obras nos quatro corredores militares não estão concluídas, e grande parte dos cerca de 500 pontos críticos identificados ainda precisa de intervenção.

As reservas de munições têm de corresponder às armas em serviço. As unidades de países diferentes precisam de sistemas de comunicação compatíveis. As fábricas necessitam de encomendas suficientemente longas para manter a capacidade de produção. Os estados-maiores terão de treinar para operações em que alguns meios americanos não estejam disponíveis.

Os governos tendem a anunciar plataformas visíveis: aeronaves, navios, blindados e sistemas de defesa aérea. Os depósitos, os oleodutos militares, o transporte pesado, as peças sobresselentes, as comunicações e as reservas de combustível recebem menos atenção pública, embora determinem quanto tempo uma unidade permanece operacional.

Uma plataforma sem manutenção ou peças pode sair de serviço após as primeiras operações. Um míssil armazenado num país não reforça uma frente se não houver transporte, autorização e informação para o empregar.

Até que os corredores, os stocks, os sistemas de comando e os meios estratégicos estejam operacionais, uma redução do apoio americano continuará a produzir insuficiências imediatas na deslocação de forças, no reabastecimento, na vigilância e na defesa aérea.

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