Daughters of the Sun and Moon

Lisa See dá voz a três mulheres chinesas na Los Angeles de 1871 e reconstrói o quotidiano que antecedeu um dos episódios mais violentos da história da cidade.

Economia

Alberto Carvalho
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Alberto Carvalho é cronista e editor convidado do Arcana News, onde escreve sobre política, cultura e vida pública. É autor de mais de setenta artigos, combinando rigor crítico e clareza jornalística, com uma atenção permanente ao impacto social das decisões coletivas.
Guardados

Calle de los Negros, 24 de outubro de 1871

Em Daughters of the Sun and Moon, Lisa See procura nos arquivos as mulheres que a história do massacre da comunidade chinesa de Los Angeles quase não deixou falar

Chee Long “Gene” Tong tratava pacientes brancos, vestia-se à maneira ocidental e mantinha relações com habitantes influentes de Los Angeles. Era um médico de medicina tradicional chinesa respeitado fora da pequena comunidade imigrante. Na noite de 24 de outubro de 1871, foi arrastado e enforcado por uma multidão.

Tong foi uma das 18 vítimas do massacre da comunidade chinesa de Los Angeles. Quinze homens e rapazes foram enforcados; três morreram a tiro. Alguns corpos foram arrastados pelas ruas. A multidão, calculada em aproximadamente quinhentas pessoas, saqueou negócios chineses e espancou quem encontrou. Numa cidade com cerca de 5700 habitantes, quase um residente em cada dez participou na violência.

Em Daughters of the Sun and Moon, Tong aparece através de Moon, a mulher que Lisa See colocou no centro da casa e da prática médica. Moon fala inglês, prepara medicamentos e serve de intérprete entre o marido, os pacientes e as autoridades. Conta a história em 1926, quando já pode olhar para os acontecimentos de 1871, conhecendo as consequências que escapam às outras duas protagonistas.

Dove e Petal não dispõem dessa distância. Dove tem 17 anos e os pés atados desde criança. Viaja da China para se tornar a segunda esposa de um comerciante muito mais velho, num casamento negociado em que o seu valor depende da beleza, da obediência e do estatuto que pode conferir ao marido. Petal foi vendida pela família, transportada para a Califórnia e novamente vendida para exploração sexual.

As três mulheres vivem na mesma cidade, mas ocupam posições que raramente permitem um encontro. Moon consegue entrar em espaços frequentados por habitantes brancos e falar com as autoridades. Dove permanece dependente do homem que pagou pela sua vinda. Petal procura oportunidades imediatas de fuga numa casa de prostituição controlada por uma associação criminosa.

See explicou, durante a apresentação pública do livro, que as três personagens quase nunca estão juntas na mesma divisão. Imaginou-as como corpos que permanecem em órbita e apenas se alinham em momentos decisivos.

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Petal narra na primeira pessoa e no presente. Não conhece o desfecho da história nem sabe se a tentativa seguinte lhe permitirá escapar. Moon, em 1926, organiza recordações com a informação adquirida ao longo de 55 anos. Dove surge na terceira pessoa, embora a ação decorra no presente.

A escolha da terceira pessoa para Dove nasceu da forma como os documentos tratavam Yut Ho, a jovem que inspirou a personagem. Pouco depois de chegar a Los Angeles como esposa de um comerciante, Yut Ho foi raptada. O seu desaparecimento provocou uma disputa prolongada entre associações chinesas e é, por vezes, incluído entre os acontecimentos que antecederam o massacre.

Yut Ho aparece em processos judiciais e notícias, mas quase sempre como objeto de uma disputa masculina. Os documentos identificam o marido, os alegados raptores e os homens envolvidos nas tentativas de resgate. Sobre a jovem, dizem sobretudo a quem pertencia e para onde foi levada. See manteve em Dove essa distância inicial através da terceira pessoa.

Petal reúne elementos das histórias de Sing Ye e Sing Yu. Ambas foram vendidas pelas famílias na China, levadas para a Califórnia e submetidas a novas vendas. Os registos das suas tentativas de fuga deram a See matéria para construir uma personagem que não pode planear a liberdade como um objetivo distante.

As quatro mulheres encontradas pela escritora nos arquivos deram origem a Dove, Moon e Petal. Os documentos conservaram fragmentos das suas vidas porque houve raptos, processos, fugas ou contactos com instituições. A informação disponível começa, em grande parte, quando um homem reclama uma mulher, quando uma associação disputa a autoridade de outra ou quando um tribunal é chamado a decidir.

Em 1871, Los Angeles tinha pouco mais de cinco mil habitantes, mais de uma centena de tabernas e seis polícias. A população chinesa não chegava a duzentas pessoas; apenas 34 eram mulheres. Grande parte da comunidade vivia e trabalhava junto da Calle de los Negros, uma rua curta, com casas de adobe, lojas, tabernas e casas de prostituição, próxima da atual Los Angeles Plaza.

Nos tribunais, os chineses tinham direitos limitados, enquanto a imprensa local dava regularmente espaço ao preconceito racial. As associações chinesas rivais competiam entre si numa cidade em que a capacidade policial era reduzida. A disputa em torno do rapto de Yut Ho envolveu essas associações e chegou aos tribunais e aos jornais.

O massacre só surge na quarta das cinco partes do romance. Antes dele, See acompanha casamentos negociados, tratamentos médicos, pagamentos, tentativas de fuga e contactos com as autoridades. O leitor vê quem podia recorrer a um tribunal, quem podia testemunhar e até onde chegava a proteção concedida pelo estatuto individual.

Oito homens foram condenados por homicídio involuntário. As condenações acabaram anuladas em recurso e não houve novos julgamentos.

Os edifícios em torno da Calle de los Negros foram demolidos poucos anos depois. A rua desapareceu na atual Los Angeles Street. Já no século XX, a antiga Chinatown sofreu novas demolições durante a construção da Union Station e da autoestrada 101. Em 2001, uma pequena placa colocada no passeio tornou-se o principal reconhecimento público das mortes.

Los Angeles atravessava então uma expansão imobiliária. As autoridades pretendiam que os grandes investidores ferroviários escolhessem a cidade como terminal da linha destinada ao sul da Califórnia. Um massacre cometido por centenas de residentes contrariava a imagem de segurança usada para atrair novos habitantes e capitais.

Lisa See nasceu em Paris, cresceu em Los Angeles e passou parte da infância com a família paterna em Chinatown. O trisavô trabalhara na construção do caminho de ferro transcontinental. Em 1897, o bisavô Fong See e a sua companheira branca, Letticie Pruett, instalaram-se em Los Angeles, quando o casamento entre chineses e brancos continuava a ser ilegal na Califórnia. Criaram os filhos e desenvolveram o negócio familiar perto do local onde o massacre começara.

See publicou essa história familiar em On Gold Mountain, em 1995. A avó mostrava-lhe os lugares onde os parentes tinham vivido e trabalhado, mas nunca lhe falou das mortes de 1871. A escritora não sabe se ela desconhecia o episódio ou se preferia não o recordar.

Na Huntington Library, See consultou processos judiciais, mapas, registos municipais e jornais escritos à mão.

Para testar se Petal conseguiria cultivar ervas medicinais num parapeito durante o inverno, plantou as mesmas sementes no recanto menos favorável do jardim, usando terra de má qualidade. Metade não germinou. As restantes cresceram e a cena permaneceu no livro.

See começa por colocar no manuscrito grande parte do que descobriu e retira depois a informação que interrompe a história. Compara o processo à remoção de peças de uma torre de Jenga. Também lhe chama o “desafio Michener”, lembrando os romances em que a ação podia parar durante dezenas de páginas para explicar a geologia de um vulcão. Mesmo depois dos cortes, a editora ainda encontra, por vezes, longas passagens de história nas quais as personagens deixaram de avançar.

Daughters of the Sun and Moon nem sempre resolve esse problema. Algumas personagens masculinas permanecem próximas da função histórica que representam. Há diálogos que precisam de transmitir costumes, leis ou conflitos ao leitor e deixam perceber o trabalho de investigação que os sustenta. Em certas passagens, a quantidade de informação reduz o espaço concedido às protagonistas.

Petal recebe os factos como ameaças imediatas. Moon consegue avaliá-los depois de ter sobrevivido às consequências. Com Dove permanece, durante mais tempo, a distância de uma mulher descrita pelos interesses dos outros. A documentação chega assim ao romance através de personagens que não sabem nem podem saber as mesmas coisas.

Um leitor português encontrará aqui um processo conhecido: acontecimentos que permanecem fora da narrativa pública durante gerações, enquanto as transformações urbanas eliminam os lugares que ainda os poderiam recordar. Na Calle de los Negros, a demolição dos edifícios seguiu-se à anulação das condenações. Durante mais de um século, o massacre não teve reconhecimento público relevante.

Os arquivos permitem a See recuperar ações, deslocações, processos e tentativas de fuga. Onde essa documentação termina, a autora recorre à ficção. A investigação pesa em algumas personagens secundárias e nos diálogos encarregados de transportar informação histórica. O livro é mais convincente quando as regras impostas à comunidade chinesa aparecem dentro de um casamento, de uma consulta ou dos preparativos de uma fuga.

A pequena placa instalada em 2001 assinala hoje o massacre no passeio. No romance, a multidão só entra depois de Dove, Moon e Petal terem ocupado a maior parte da narrativa.

Nota editorial: esta recensão resulta da leitura da obra e foi complementada pela apresentação pública do livro com Lisa See, pelos materiais disponibilizados pela autora e pela editora e pela documentação histórica do 1871 Memorial Project.

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Ficha e avaliação Arcana News

4,2/5

Lisa See reconstrói a Los Angeles de 1871 através de Dove, Moon e Petal, três mulheres inspiradas em vidas que os documentos históricos conservaram apenas de forma fragmentária. O romance distingue-se pelo rigor da investigação e pela conjugação das três vozes narrativas, embora o peso da documentação se faça sentir em algumas personagens secundárias e em certos diálogos. A chegada tardia do massacre permite compreender a violência como resultado de um quotidiano marcado pela discriminação e pela desproteção.

TipoLivro
TítuloDaughters of the Sun and Moon
Autor / criadorLisa See
EditoraScribner
PaísEstados Unidos
IdiomaInglês
Data9 de Junho, 2026
Formato / duraçãoCapa dura, 384 páginas
Identificador9781982117054
Página oficialConsultar

Critérios (book-v1)

CritérioO que avaliaNota
Força simbólica e imaginativaCapacidade de criar imagens, símbolos e uma visão literária própria.4,0/5
Rigor e qualidade da prosaPrecisão da linguagem, qualidade estilística e domínio da escrita.4,0/5
Coerência da visão do mundoConsistência interna das ideias, personagens e universo construído.4,0/5
Originalidade formal e concetualInovação da forma, da estrutura e da proposta intelectual.4,0/5
Potência crítica e relevância contemporâneaForça crítica da obra e capacidade de iluminar o presente.5,0/5
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Leitura Essencial

Lisa See reconstrói a Los Angeles de 1871 através de Dove, Moon e Petal, três mulheres inspiradas em vidas que os documentos históricos conservaram apenas de forma fragmentária. O romance distingue-se pelo rigor da investigação e pela conjugação das três vozes narrativas, embora o peso da documentação se faça sentir em algumas personagens secundárias e em certos diálogos. A chegada tardia do massacre permite compreender a violência como resultado de um quotidiano marcado pela discriminação e pela desproteção.Daughters of the Sun and Moon