A Grande Ruptura: Miguel Monjardino e a crise da ordem internacional

Em Cadernos de Geopolítica, Monjardino regista o momento em que a ordem internacional deixou de ser uma promessa e passou a ser um problema.

Economia

Alberto Carvalho
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Alberto Carvalho é cronista e editor convidado do Arcana News, onde escreve sobre política, cultura e vida pública. É autor de mais de setenta artigos, combinando rigor crítico e clareza jornalística, com uma atenção permanente ao impacto social das decisões coletivas.
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Linha editorial: Review · Geopolítica e Poder · Global · Ordem internacional e ruptura sistémica

A Grande Ruptura e o colapso da ordem internacional

O essencial

  • A pandemia não criou a ruptura na ordem internacional — acelerou-a.
  • Monjardino identifica o encontro de Pequim de 2020 como momento-chave, subavaliado pelo Ocidente.
  • Trump, Putin e Xi Jinping surgem como atores racionais, não como anomalias.
  • O papel da Europa é preservar o que resta da ordem liberal até ao final desta década.
  • O formato de diário geopolítico é uma vantagem analítica, não uma concessão.

Miguel Monjardino escreve dos Açores, durante a pandemia, com a disciplina de quem sabe que o momento vai passar antes de o podermos nomear com rigor. O diário geopolítico tem uma vantagem que o ensaio retrospectivo não tem — a textura do presente, a incerteza real, a consciência de que o que está a acontecer ainda não tem nome definitivo.

A pandemia não criou a ruptura, acelerou-a. O que estava a organizar-se desde 2008, desde a entrada da China na OMC, desde o primeiro mandato de Trump, desde as guerras do Médio Oriente e a afirmação de Putin como ator revisionista, encontrou na crise sanitária o catalisador que lhe faltava. Não se trata de uma crise dentro da ordem internacional, mas de uma crise da própria ordem.

Monjardino descreve o que vê, interroga o que não sabe, distingue com cuidado entre tendência estrutural e contingência. A análise da China é particularmente consistente: o encontro de Pequim, no final de 2020, onde pela primeira vez se afirma abertamente que a distribuição do poder mundial está a mover-se a favor de Pequim, surge aqui como momento-chave, subavaliado pela imprensa ocidental.

Trump aparece no livro não como anomalia, mas como sintoma. As forças estruturais que o tornaram possível — a desindustrialização, o ressentimento das classes médias, a erosão da confiança nas instituições — não desapareceram com nenhum resultado eleitoral. Putin e Xi Jinping surgem com a mesma lógica: atores racionais a aproveitar uma janela histórica que percebem estar aberta.

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A dimensão europeia é das mais interessantes. Monjardino não tem ilusões sobre a Europa como ator unitário — a história do continente é uma história de competição entre Estados. A pressão externa pode criar condições para formas de integração antes consideradas impossíveis, como aconteceu na área da saúde durante a pandemia e está a acontecer na defesa após a invasão da Ucrânia. O papel da Europa, na sua leitura, é tentar preservar o que resta da ordem liberal e construir algo novo até ao final desta década.

As entradas mostram um analista a pensar em tempo real, a corrigir, a hesitar, a reconhecer que não tem toda a informação. Numa época em que a certeza excessiva domina o comentário público, essa modéstia é ela própria uma forma de rigor.

A Grande Ruptura obriga o leitor a ver o momento histórico em que vive sem as anestesias do otimismo fácil nem as do catastrofismo paralisante. Num panorama editorial em que a geopolítica é frequentemente reduzida a narrativa de conflito ou a manual de sobrevivência, isso é suficiente.

Avaliação AN

Critério Descrição Nota
Força simbólica e imaginativa Capacidade de criar imagens duradouras e um quadro mental próprio 4/5
Rigor e qualidade da prosa Precisão do argumento, clareza da escrita, consistência do tom 5/5
Coerência da visão do mundo Solidez interna da análise e coerência entre diagnóstico e método 5/5
Originalidade formal e conceptual Singularidade da abordagem, formato de diário geopolítico 4/5
Potência crítica e relevância contemporânea Capacidade de interpelar o presente e produzir leitura útil do mundo 5/5

Classificação final AN: 4,6/5


Ficha bibliográfica da edição recenseada

A Grande Ruptura: Miguel Monjardino e a crise da ordem internacional
A Grande Ruptura: Miguel Monjardino e a crise da ordem internacional

Miguel Monjardino escreve dos Açores, durante a pandemia, com a disciplina de quem sabe que o momento vai passar antes de o podermos nomear. Em A Grande Ruptura, regista a crise da ordem internacional sem alarme e sem ilusões.

URL: https://www.wook.pt/livro/a-grande-ruptura-miguel-monjardino/33045862

Autor: Miguel Monjardino

Avaliação do editor:
4.6

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Recensão de A Grande Ruptura, de Miguel Monjardino: um diário geopolítico sobre a crise da ordem internacional, Trump, China, Putin e o papel da Europa na transição sistémica.A Grande Ruptura: Miguel Monjardino e a crise da ordem internacional