O Corredor de Lobito e a disputa entre os EUA e a China pelos minerais críticos do Congo
O essencial deste artigo
- A República Democrática do Congo possui mais de 70% das reservas mundiais de cobalto, mineral crítico para baterias de veículos elétricos e telemóveis.
- A Ferrovia de Benguela foi construída em 1903 por Portugal e reconstruída entre 2006 e 2014 pela China, com um investimento de 1,83 mil milhões de dólares.
- Em 2023, os EUA, Angola e o Congo assinaram um memorando para reativar a ferrovia como eixo de exportação de minerais — o Corredor de Lobito.
- A China controla a maioria das minas e das fábricas de processamento de cobalto e cobre no Congo.
- Até ao início de 2025, o corredor tinha movimentado cerca de 125.000 toneladas de carga. O transporte por estrada continua dominante.
Corredor de Lobito: a ferrovia que os EUA e a China disputam
Em 1903, Portugal mandou construir uma ferrovia para ligar o interior de Angola ao Atlântico. A linha servia o império — escoava minerais, consolidava rotas comerciais, afirmava a presença num território que Lisboa administrava há séculos. Ninguém imaginava, então, que aquela infraestrutura colonial se tornaria, mais de um século depois, o centro de uma disputa geopolítica entre as duas maiores potências do século XXI. Portugal saiu de Angola em 1975. A ferrovia ficou. E o que ficou tornou-se, com o tempo, mais valioso do que qualquer um dos seus construtores previa.
O cobalto do Congo e a ferrovia que dois impérios querem controlar
A República Democrática do Congo possui mais de 70% das reservas mundiais de cobalto — o metal sem o qual as baterias de veículos elétricos e telemóveis não funcionam. Tem também cobre em abundância e lítio em quantidade crescente. Na prática, a esmagadora maioria desses minerais sai do país por estrada, em camiões, através da Zâmbia, até aos portos da África do Sul. É uma rota lenta, cara, perigosa e controlada por interesses locais que se instalaram ao longo de décadas.
É neste ponto que começa a disputa pela ferrovia de Lobito.
Como se chegou aqui
A Ferrovia de Benguela foi construída em 1903 por iniciativa colonial britânica, belga e portuguesa para ligar o interior do continente ao porto angolano de Lobito. Portugal administrava Angola e tinha interesse direto em escoar os minerais da região para os mercados europeus. A linha atravessava mais de 1.300 quilómetros de savana e mato e foi durante décadas a principal artéria de exportação de minerais do que é hoje o sul do Congo e o norte da Zâmbia.
Com a independência de Angola em 1975 — após o processo de descolonização que se seguiu à Revolução de Abril em Portugal — o país entrou em guerra civil. A ferrovia foi bombardeada e encerrou. Ficou paralisada por trinta anos.
Entre 2006 e 2014, a China reconstruiu-a. O investimento foi de 1,83 mil milhões de dólares, financiado por crédito chinês e executado por empresas chinesas. Mais de vinte trabalhadores morreram durante as obras. Quando a linha reabriu, a China tinha já adquirido a maioria das minas de cobalto e cobre no Congo e instalado a maior parte das fábricas de processamento na região. A ferrovia que Portugal ajudara a construir para servir o império colonial tornava-se um ativo estratégico chinês.
Em 2023, os governos dos Estados Unidos, de Angola e do Congo assinaram um memorando de entendimento para reativar a ferrovia como eixo de exportação de minerais críticos — o Corredor de Lobito. Em dezembro de 2024, Biden visitou Benguela — a única deslocação do seu mandato ao continente africano.
Os atores e os seus interesses
Os Estados Unidos chegaram tarde ao Congo. O envolvimento americano no setor mineiro congolês foi durante anos marginal — não por falta de interesse declarado, mas por falta de investimento real. O Corredor de Lobito foi a primeira iniciativa concreta da administração Biden em África com escala suficiente para ser levada a sério. O objetivo era duplo: garantir acesso a minerais críticos para a transição energética e as indústrias de semicondutores, e reduzir a dependência de cadeias de abastecimento controladas pela China.
A China não tem um papel passivo. Reconstruiu a ferrovia que o corredor pretende utilizar. Controla a maior parte das minas cujos produtos o corredor pretende transportar. Mantém presença financeira e empresarial profunda em Angola — o segundo maior destino de investimento externo chinês em África, com negociações em curso sobre as reservas petrolíferas offshore.
O Congo é o território onde os minerais estão, mas não controla o processo de forma determinante. O governo de Félix Tshisekedi apoiou publicamente o corredor. Mantém ao mesmo tempo relações económicas extensas com a China, que financia e opera grande parte da infraestrutura mineira do país. As rotas de exportação por estrada estão há décadas sob o controlo de interesses políticos e económicos locais que não têm incentivo para as abandonar.
Angola ocupa uma posição ambígua. O país que Portugal colonizou durante cinco séculos e abandonou abruptamente em 1975 tornou-se terreno de disputa entre potências com interesses opostos. Beneficia da atenção americana — investimento e visibilidade diplomática — mas a ferrovia que serve de eixo ao corredor foi construída com dinheiro e trabalho chineses. Mantém laços financeiros profundos com Pequim e depende de exportações de petróleo para as quais a China é o principal comprador.
A administração Trump herdou o projeto com uma orientação diferente. A prioridade não é o transporte de minerais — é o controlo da sua extração. O conselheiro sénior para África, Massad Boulos, visitou Kinshasa em abril de 2025 com foco no investimento privado americano no setor mineiro, sem menção à ferrovia. Um consórcio americano ligado a ex-funcionários de serviços de informações e forças especiais comprou a Chemaf, empresa com licenças mineiras no Congo, depois de um comprador chinês ter sido bloqueado pelo governo congolês.
O que está por resolver
O volume de minerais que efetivamente saiu do Congo via Lobito permanece modesto. Até ao início de 2025, a ferrovia tinha movimentado cerca de 125.000 toneladas de carga, incluindo aproximadamente 40.000 toneladas de minério de cobre congolês. O transporte por estrada continua a ser a rota dominante.
A extensão da ferrovia até às zonas de extração mais importantes — como Manono, onde a empresa americana KoBold, apoiada por Bill Gates e Jeff Bezos, estuda uma mina de lítio — implicaria novas infraestruturas cuja execução mais rápida envolveria empresas chinesas como a CREC-7. Os interesses instalados nas rotas de camião não têm incentivo para ceder. O empréstimo de 550 milhões de dólares comprometido pelos EUA continua em vigor, mas o contexto de cortes orçamentais da administração Trump torna a sua execução menos previsível.
Angola mantém o corredor como prioridade declarada. O Congo mantém o apoio público. Os Estados Unidos mantêm o compromisso financeiro. A China mantém o controlo das minas, das fábricas de processamento e da ferrovia que transporta o que sai delas.
A questão de fundo — quem controla efetivamente o fluxo de minerais críticos entre o coração do continente africano e os mercados globais — não tem resposta clara. O Corredor de Lobito existe, funciona parcialmente e representa uma aposta real. Mas a infraestrutura que utiliza, os minerais que pretende transportar e as empresas que os extraem continuam, em grande medida, dentro da órbita que o corredor foi criado para contrariar. A ferrovia que Portugal construiu para servir o seu império acabou por se tornar, um século depois, o palco de uma disputa entre potências que Portugal nunca foi.
Imagem:- Devalcir Santos / Pexels
Cronologia
- 1903 — Ferrovia de Benguela construída por iniciativa colonial britânica, belga e portuguesa.
- 1975 — Independência de Angola. Guerra civil. Ferrovia bombardeada e encerrada.
- 2006–2014 — China reconstrói a ferrovia com investimento de 1,83 mil milhões de dólares.
- 2023 — EUA, Angola e Congo assinam memorando para o Corredor de Lobito.
- Dezembro de 2024 — Biden visita Benguela — única deslocação ao continente africano do seu mandato.
- Janeiro de 2025 — Trump toma posse. Foco desloca-se do transporte para o controlo da extração.
- Abril de 2025 — Massad Boulos visita Kinshasa. Consórcio americano compra a Chemaf.
- Situação atual — Transporte por estrada continua dominante. Corredor funciona parcialmente.
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