Tapeçaria de Bayeux deixa França e foi para o British Museum

Setenta metros de linho bordado e mil anos de idade: como a Tapeçaria de Bayeux atravessa o Canal da Mancha sem que ninguém lhe toque.

Economia

Alberto Carvalho
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Alberto Carvalho é cronista e editor convidado do Arcana News, onde escreve sobre política, cultura e vida pública. É autor de mais de setenta artigos, combinando rigor crítico e clareza jornalística, com uma atenção permanente ao impacto social das decisões coletivas.
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Como se transporta uma obra de 70 metros com mil anos sem lhe tocar

O empréstimo da Tapeçaria de Bayeux a Londres é um caso de contexto em que se cruzam direito patrimonial, engenharia de conservação e diplomacia.

O pano vai ficar no British Museum, deitado, dentro de uma caixa feita à medida, numa sala de grandes dimensões. É a primeira vez que, na história contemporânea, o Estado francês autoriza a sua deslocação para Inglaterra.

Para perceber o que está em causa é preciso separar três planos que o debate público tende a misturar: a quem pertence, em que estado está e por que agora.

Secção da Tapeçaria de Bayeux a Londres, o bordado medieval que narra a conquista normanda de 1066
Secção da Tapeçaria de Bayeux. Foto: gov.uk, Open Government Licence v3.0

1. Um bem do Estado que viveu séculos sem fama

A peça tem cerca de setenta metros de comprimento e narra a conquista normanda de Inglaterra, em 1066. O termo tapeçaria é tecnicamente incorreto: trata-se de um bordado sobre linho, não de um tecido em tear.

A sua origem inicial permanece pouco documentada. O que está estabelecido é que permaneceu em Bayeux durante centenas de anos sem grande notoriedade pública, até ser identificada por antiquários no início do século XVIII. A partir daí a sua visibilidade cresceu e passou a ser reivindicada por duas histórias nacionais distintas.

Essa dupla pertença explica utilizações políticas posteriores. Quando Napoleão preparava uma invasão de Inglaterra, mandou expô-la no Louvre. Depois do desembarque aliado na Normandia, a mesma iconografia foi usada para ilustrar a capa de uma revista norte-americana. Em ambos os casos, o objecto serviu como instrumento de mobilização simbólica, não apenas como documento.

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Juridicamente, a situação actual é clara e foi essa clareza que tornou o empréstimo possível. A tapeçaria pertence ao Estado francês. Em 2018, Emmanuel Macron reactivou a ideia de um empréstimo, que até então tinha esbarrado em recusas. A curadoria do Museu de Bayeux considerou, nessa altura, que mover um têxtil com características arqueológicas seria inconcebível do ponto de vista da conservação. Há cerca de dezoito meses, a prefeitura de Calvados, departamento onde Bayeux se situa, chegou a publicar um vídeo que sublinhava esse risco. O vídeo foi depois retirado.

A contestação manteve-se. No Verão passado, o jornalista Didier Rykner lançou uma petição contra a deslocação que reuniu mais de setenta mil assinaturas. A posição de Rykner, assumida publicamente, é que a peça tem maior importância cultural para o lado inglês do que para o francês, e que isso não atenua o risco, antes o agrava.

Do lado britânico, o enquadramento é inverso. O governo designou um enviado especial para o dossier, Peter Ricketts. A leitura oficial é que 1066 marca o início da narrativa nacional inglesa, com impacto nas instituições religiosas, jurídicas e na própria língua, e que o bordado terá sido produzido em Inglaterra, por e para pessoas que viveram a conquista. A expectativa anunciada pelo British Museum é de pelo menos setecentos mil visitantes em dez meses, com filas digitais de nove horas quando os bilhetes foram colocados à venda.

2. O estado material que obrigou a repensar a exposição

A tapeçaria tem séculos, apresenta milhares de rasgos e cede ao mínimo contacto. Durante décadas esteve exposta num carril em U, numa câmara segura do Museu de Bayeux, fixada a um forro moderno de linho com centenas de quilos.

Investigações realizadas na década de 2010 mostraram que esse modo de exibição estava a provocar distorção. Independentemente de qualquer empréstimo, o museu teria de a retirar e de redesenhar o suporte. Essa necessidade prévia é central para perceber a operação que se seguiu.

Por razões de fragilidade, a peça tem de ser conservada na horizontal e não pode ser manipulada directamente com as mãos. Colocou-se então um problema prático: como rodar e armazenar um têxtil com mais de uma centena de quilos sem lhe tocar.

A resposta veio de uma empresa de engenharia de arte, a SMACH. A equipa concebeu um suporte articulado em ziguezague, que se fecha até formar um cubo compacto.
Em francês, o objecto foi baptizado de le paravent.

O procedimento definido foi mecânico e colectivo. A tapeçaria é presa a um carril e alimentada para dentro do paravent centímetro a centímetro, entre camadas de protecção. Quando a transferência termina, o conjunto dobra-se e pode ser colocado de lado.

A extracção ocorreu em Setembro passado. Noventa pessoas com luvas de látex azul alinharam-se atrás do pano. Um funcionário ditava a cadência – un, deux, tac tac, stop – e a cada terceiro tempo o conjunto avançava mais um centímetro. A operação demorou sete horas.

3. De trezentos metros para trezentas milhas

Na fase inicial de projeto, a SMACH trabalhava com a premissa de que o paravent iria percorrer cerca de trezentos metros, até um espaço de armazenamento em Bayeux. A meio do processo foi informada de que o percurso seria de cerca de trezentas milhas, até Londres. A co-fundadora da empresa, Cécilia Gauvin, descreveu o momento como de apreensão generalizada dentro da equipa, com a indicação de que a decisão vinha de cima.

Foi então chamada uma empresa neerlandesa especializada em transporte de arte, a Hizkia. O seu fundador, Hizkia van Kralingen, encontrou em Bayeux reuniões com trinta participantes, entre técnicos franceses e britânicos, tradutores e representantes da Presidência francesa.

O plano logístico aprovado previa três níveis de proteção: uma caixa interior construída à volta do paravent já dobrado, uma estrutura exterior em alumínio, e um sistema de suspensão entre ambas. Em Julho, no norte de França, esse conjunto foi colocado numa jaula, carregado num camião especial e escoltado por um dispositivo policial até ao Canal da Mancha.

O ponto mais sensível do caderno de encargos era a vibração. O acordo de empréstimo fixou um limite de dois milímetros por segundo.

4. A métrica que gerou um impasse técnico

Para avaliar o cumprimento desse limite foi integrada no projeto a cientista alemã Kerstin Kracht, especialista em tecnologia de vibrações. O método de trabalho que descreve é o estudo isolado de cada subsistema: camião, caixa interior, isoladores de cabo de aço, caixa exterior, paravent e objeto – e depois o estudo do comportamento combinado.

Durante um ensaio realizado em Fevereiro, verificou-se que o paravent estava a amplificar a vibração em vez de a atenuar, ultrapassando largamente o valor contratual.

Kracht contestou a suficiência do critério. Milímetros por segundo mede amplitude e velocidade, mas não mede frequência, ou seja, quantas vezes por segundo a direcção muda. Segundo a análise que apresentou em videoconferências com as partes, a amplitude estava acima do limite, mas o movimento era de oscilação longa e estável, não de solavancos curtos, o que alterava a avaliação de risco.

A explicação foi transmitida com a imagem de um berço: para um mesmo deslocamento, um balanço contínuo é menos agressivo do que sacudidelas breves. Nem todos os interlocutores aceitaram de imediato a reinterpretação, mas o grupo acabou por validar a conclusão. No transporte final, os níveis registados ficaram abaixo daqueles que muitos objectos experimentam apenas com o pisar do público num museu movimentado.

O valor segurado da operação, através do regime de indemnização do governo britânico, foi estimado em mil milhões de dólares, o que reflecte menos um preço de mercado do que o carácter insubstituível do bem. Há muito pouco material têxtil narrativo com esta extensão e com esta preservação cromática que tenha chegado até nós de há cerca de mil anos. Nas últimas três décadas surgiram apenas fragmentos de comparação: uma descrição num poema antigo, alguns têxteis escandinavos raros e que ajudam a enquadrar a peça, mas não a duplicar.

5. O empréstimo num momento de desgaste franco-britânico

A comparação curatorial mais citada para medir o risco é o empréstimo da Mona Lisa aos Estados Unidos, em 1963. Na altura, o gesto surgia depois do desembarque da Normandia e do Plano Marshall.

O contexto actual é diferente. A deslocação acontece depois de dez anos de arrefecimento nas relações franco-britânicas. Em 2016, o Reino Unido votou a saída da União Europeia. Pouco depois, aumentou o número de travessias de migrantes em pequenas embarcações entre França e Inglaterra, criando um ponto de pressão política na fronteira marítima.

Foi nesse quadro que Macron apresentou o empréstimo como forma de os dois países fazerem, nas suas palavras, uma nova tapeçaria em conjunto. Do ponto de vista britânico, a leitura é de gesto deliberadamente magnânimo num período de fricção.

Isso não elimina a tensão entre duas lógicas que coexistem no dossier. De um lado, a lógica patrimonial francesa, que tem de garantir a integridade física de um bem único e que já tinha concluído que a exposição permanente teria de ser revista. Do outro, a lógica simbólica britânica, para quem receber o bordado tem um peso identitário desproporcionado em relação à sua presença museológica habitual em Bayeux.

A operação de julho tornou visível essa sobreposição. Não foi apenas o movimento de um têxtil. Foi a montagem de um sistema: paravent, caixa, jaula, camião, escolta, sensores, protocolos de medição, para permitir que um objeto que não pode ser tocado atravesse uma fronteira que, nos últimos anos, se tornou politicamente sensível.

É por isso que a discussão sobre a Tapeçaria de Bayeux a Londres mistura argumentos que não se respondem entre si: o estado de conservação, a propriedade jurídica, o impacto público e o uso diplomático. O empréstimo não resolve nenhum deles. Apenas os coloca, pela primeira vez em muitos séculos, no mesmo espaço físico, em Londres, durante dez meses.

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