Em dezembro de 1973, Donald Trump convocou a imprensa no New York Hilton com o pai e um advogado que já tinha passado pelo processo Rosenberg e pelas investigações de Joseph McCarthy. Anunciaram um pedido de indemnização de 100 milhões de dólares contra o Governo federal, que os acusara de discriminar candidatos negros ao arrendamento. O tribunal rejeitou o pedido. O processo de discriminação terminou em 1975 com obrigações impostas à empresa, mas sem admissão de responsabilidade.
A forma como o desfecho foi apresentado importa tanto como o próprio resultado. Trump descreveu-o publicamente como uma vitória. O processo tinha começado dois anos antes, em outubro de 1973, quando o Departamento de Justiça invocou a Lei dos Direitos Civis de 1968 para acusar a Trump Management de tratar de forma diferente candidatos negros e brancos em circunstâncias comparáveis. Investigadores federais reuniram testemunhos e fizeram testes em 39 edifícios, com mais de 14 mil apartamentos.
Roy Cohn, então com 46 anos, aconselhou o jovem empresário de 27 anos a responder com agressividade e a deslocar a disputa dos tribunais para a arena pública. Procurou inverter as posições de acusador e acusado e tratou a defesa como uma questão de reputação.
Trump conheceu-o num momento de transição entre o negócio familiar, concentrado em Brooklyn e Queens, e a tentativa de entrada nos projetos mais expostos de Manhattan. Foi aí que o advogado se tornou útil. Conhecia pessoas, abria portas, conduzia negociações e sabia como criar publicidade em torno de um conflito. O jornalista Wayne Barrett, que investigou os negócios de Trump durante décadas, descreveu-o como alguém cuja importância ultrapassava largamente a função de advogado. Roger Stone, que conheceu Trump através de Cohn, referiu-se a ele como uma espécie de guia nos círculos de influência da cidade.
Trump reconheceu a importância profissional de Cohn, mas recusou a ideia de que tivesse aprendido com ele a atacar adversários. Numa entrevista ao The Washington Post, em 2016, atribuiu esse comportamento ao próprio instinto. A relação está documentada. Já a medida exata em que Cohn moldou o comportamento político posterior de Trump não pode ser estabelecida apenas pela semelhança entre os seus métodos.

Roy Cohn, de McCarthy aos tribunais de Nova Iorque
Antes de regressar à advocacia privada em Nova Iorque, Cohn tinha integrado a equipa da acusação no processo de Julius e Ethel Rosenberg, condenados à morte e executados em 1953. Fora também conselheiro jurídico principal da subcomissão de investigações presidida pelo senador republicano Joseph McCarthy. Participou num sistema de audiências em que suspeitas, associações pessoais e exigências de lealdade política podiam ter consequências profissionais graves, mesmo sem condenação criminal.
As investigações atingiram também funcionários federais suspeitos de homossexualidade, num contexto em que a orientação sexual era apresentada pelas autoridades como uma potencial vulnerabilidade para a segurança nacional. A carreira de McCarthy entrou em declínio depois das audiências sobre o Exército, em 1954. Cohn deixou o Senado e regressou à advocacia privada.
A experiência teria importância no trabalho posterior de Roy Cohn. Uma acusação podia afetar reputações, afastar aliados e obrigar adversários a gastar recursos para se defenderem, independentemente do resultado judicial. Cohn trabalhou num ambiente em que a publicidade dada a uma suspeita ganhava relevância própria. Quando passou a representar clientes privados, levou consigo a experiência dos tribunais, o conhecimento dos mecanismos políticos e uma extensa rede de contactos.
Para parte da clientela, o trabalho não consistia apenas em obter uma decisão favorável. Tratava-se também de tornar o conflito dispendioso para a outra parte e de preservar a própria posição perante a imprensa. Trump encontrou esse tipo de advogado quando procurava afirmar-se como empresário autónomo em relação ao pai.
O processo que consolidou a relação
A contraofensiva de 100 milhões de dólares não afastou o processo federal. Em 10 de junho de 1975, a empresa celebrou um acordo que a proibia de discriminar candidatos por motivos raciais e estabelecia mecanismos destinados a facilitar o acesso de pessoas negras aos apartamentos. A assinatura não constituía uma admissão de violação da lei.
O acordo não pode, por isso, ser apresentado como uma condenação judicial por discriminação após julgamento. Também não foi uma vitória judicial que confirmasse a improcedência das acusações federais. A iniciativa de Cohn permitiu apresentar publicamente um resultado mais favorável do que a sequência processual sugeria.
A partir daí, consolidou-se um padrão que reapareceria em muitos conflitos de Trump: contestar a legitimidade de quem acusa, deslocar a atenção para a resposta do acusado e procurar manter uma imagem pública de força, independentemente das concessões efetuadas.
A documentação não permite atribuir esse padrão exclusivamente a Cohn. Trump já trabalhara com Fred Trump, experiente na negociação imobiliária e no confronto comercial. A relação com o advogado acrescentou uma ligação direta aos instrumentos políticos e mediáticos de Nova Iorque.

O poder também se construía fora dos tribunais
Na Nova Iorque das décadas de 1970 e 1980, a rede de Cohn incluía figuras do Partido Democrata e do Partido Republicano, empresários do imobiliário, responsáveis municipais, jornalistas, proprietários de meios de comunicação e pessoas ligadas ao crime organizado. Representou personalidades do espetáculo e dos negócios, mas também membros de famílias mafiosas da cidade.
A utilidade dessa posição estava na diversidade. Conhecia os mecanismos formais do poder e mantinha relações com pessoas capazes de influenciar decisões fora dos circuitos administrativos habituais.
No final da década de 1970, quando Trump preparava a construção da Trump Tower, na Quinta Avenida, Cohn ajudou a desenvolver contactos políticos e institucionais relevantes para o projeto. Ambos fizeram contribuições para campanhas eleitorais e cultivaram relações com responsáveis públicos. Uma investigação do The Washington Post documentou essa circulação entre negócios, política e advocacia, sem concluir que Trump tivesse participado nas atividades criminosas investigadas em torno de alguns clientes de Cohn.
Numa disputa, a capacidade de obter acesso a decisores, exercer pressão, mobilizar apoios e influenciar a perceção pública podia alterar as condições em que se desenvolvia um negócio. Para um empresário que procurava notoriedade nacional, isso tinha um valor que ultrapassava a representação judicial.
Roy Cohn também sabia trabalhar com publicações de grande circulação. Mantinha relações com jornalistas e responsáveis editoriais, incluindo Rupert Murdoch. Roger Stone descreveu episódios em que o advogado telefonava a redações para tentar influenciar a cobertura noticiosa.
A exposição negativa nem sempre era considerada prejudicial. Podia reforçar a imagem de alguém com quem seria difícil entrar em confronto. Trump desenvolveu uma estratégia própria de notoriedade através dos jornais populares, das revistas e, mais tarde, da televisão, mas encontrou em Cohn um profissional que tratava a comunicação social como parte integrante das disputas jurídicas e comerciais.
A correspondência privada e as relações políticas
Os testemunhos publicados permitem conhecer aspetos da relação que não ficaram registados nos processos judiciais. Em 2017, a jornalista Jane Mayer, da revista The New Yorker, examinou apontamentos preservados por Christine Seymour, antiga operadora telefónica e colaboradora de Cohn.
Os documentos descreviam contactos frequentes entre o advogado, Trump e diferentes figuras políticas. Incluíam referências aos esforços de Cohn para favorecer a nomeação de Maryanne Trump Barry, irmã de Donald Trump, para um tribunal federal durante a administração Reagan.
São apontamentos privados, não decisões administrativas ou documentos judiciais que permitam reconstruir integralmente as cadeias de influência. Ainda assim, fornecem informação sobre a proximidade dos intervenientes e os assuntos tratados.
A mesma investigação abordou a participação de Roger Stone em atividades políticas relacionadas com Cohn. Décadas mais tarde, o consultor tornar-se-ia uma figura recorrente na carreira política de Trump.
A relação proporcionou ao empresário contactos com pessoas que já conheciam técnicas de campanha, negociação política e intervenção mediática. Essa continuidade de relações pessoais é identificável, embora não autorize concluir que a política presidencial de Trump resultou de um plano concebido por Cohn.
Roy Cohn morreu em 1986, três décadas antes da primeira vitória presidencial do antigo cliente. Não conheceu as condições políticas, tecnológicas e institucionais em que Trump viria a exercer o poder.
O fim de Cohn e a fidelidade de Trump
Em 23 de junho de 1986, um tribunal de Nova Iorque retirou a Roy Cohn a autorização para exercer advocacia, na sequência de um processo disciplinar que apreciou declarações falsas, irregularidades financeiras e a sua intervenção na alteração de disposições testamentárias de um cliente gravemente doente. O tribunal considerou provadas infrações profissionais graves e determinou a sua exclusão.
Donald Trump esteve entre as personalidades que testemunharam favoravelmente sobre Cohn durante o processo disciplinar.
Pouco mais de um mês depois, em 2 de agosto de 1986, Cohn morreu aos 59 anos, devido a complicações associadas à SIDA. Terminava uma relação profissional e pessoal de cerca de treze anos.
Trump continuou a referir-se publicamente ao advogado. Em The Art of the Deal, publicado em 1987, recordou a amizade e a admiração que sentia por ele. Anos depois, continuava a descrevê-lo como um advogado particularmente combativo e leal.
Essa referência persistente não prova concordância com todas as práticas de Cohn, mas indica que a decisão disciplinar e as controvérsias que marcaram a sua carreira não eliminaram a importância que Trump lhe atribuía.

O que chegou à Casa Branca
Em 2017, já Presidente dos Estados Unidos, Trump terá perguntado onde estava o seu Roy Cohn, quando enfrentava investigações sobre a interferência russa nas eleições de 2016.
O episódio foi relatado por jornalistas que acompanharam a primeira administração e não constitui um registo público direto da conversa. Ainda assim, ganhou relevância pelas circunstâncias em que teria ocorrido.
A pergunta, a ter sido reproduzida corretamente, podia traduzir menos a saudade de uma pessoa do que a procura de alguém que defendesse os interesses presidenciais com a agressividade e a lealdade associadas ao antigo advogado.
Ao longo da carreira política, Trump recorreu repetidamente a processos judiciais, ameaças de ação judicial, ataques a adversários e confrontos com órgãos de comunicação social. Em 2026, a Associated Press documentou a continuidade desse recurso aos tribunais, recuando às ações da década de 1970.
Há, porém, uma diferença que a análise histórica precisa de manter. Um empresário utiliza processos judiciais para defender interesses comerciais ou procurar vantagens negociais. Um Presidente exerce poderes constitucionais que envolvem a administração federal, a nomeação de responsáveis, a aplicação da lei e as relações internacionais.
O mesmo tipo de comportamento público pode produzir consequências diferentes conforme a posição institucional de quem o pratica.
A semelhança entre os métodos usados na advocacia de Cohn e na atividade política de Trump não explica, por si só, o funcionamento da presidência. Para compreender essa passagem, é necessário examinar decisões concretas e os instrumentos de poder utilizados em cada circunstância.
Uma biografia que voltou a abrir o arquivo
Em setembro de 2026, os historiadores Kai Bird e Susan Goldmark publicaram American Scoundrel, uma investigação biográfica sobre o percurso de Cohn desde as perseguições anticomunistas até à sua relação com Trump. A obra retomou documentação histórica, testemunhos e episódios que ajudam a compreender a circulação do advogado entre diferentes centros de poder. A discussão sobre poder informal e responsabilidade institucional mantém relevância noutros domínios da política norte-americana.
Numa entrevista à revista The New Yorker, em agosto de 2026, Bird descreveu a frequência dos contactos entre Cohn e Trump e defendeu que a relação ajuda a compreender aspetos da posterior carreira política do antigo cliente.
A investigação recoloca uma questão histórica: como pôde um advogado que ganhou notoriedade nas perseguições políticas dos anos 1950 continuar a exercer influência junto de empresários, figuras políticas e responsáveis institucionais nas décadas seguintes?
Parte da resposta encontra-se nas relações que construiu, nos serviços que prestava e na utilidade que diferentes clientes encontravam na sua forma de exercer advocacia.
Trump foi um desses clientes. Tornou-se depois uma figura com uma capacidade de influência pública incomparavelmente superior à do próprio Cohn.
A herança que não cabe numa biografia
Roy Cohn não inventou a utilização da imprensa como instrumento de poder, a litigância agressiva ou as relações entre dinheiro e política. Essas práticas já existiam. A sua particularidade esteve na combinação desses instrumentos e na facilidade com que transitava entre ambientes institucionais com regras e interesses distintos.
Trump conheceu-o quando procurava construir uma identidade empresarial própria. Beneficiou da sua representação jurídica, dos seus contactos e da experiência acumulada em conflitos públicos.
Outras influências, desde Fred Trump até às transformações da televisão, do Partido Republicano e da comunicação política norte-americana, também contribuíram para o seu percurso.
Um advogado formado no ambiente das investigações anticomunistas do pós-guerra tornou-se conselheiro de um empresário que, décadas depois, chegaria à Presidência. Entre ambos circularam contactos, práticas profissionais e uma determinada compreensão do valor político dos conflitos públicos.
Cohn morreu sem assistir à chegada do antigo cliente à Casa Branca. Trump continuou a recorrer a métodos de confronto que já utilizava quando o advogado ainda vivia.
A relação entre os dois não explica toda a carreira política de Trump. Explica, porém, uma parte documentada da formação do empresário que viria a ser Presidente dos Estados Unidos.
Funcionalidade Google
Fontes preferidas disponíveis em Portugal.
A nova opção permite selecionar publicações para surgirem com maior frequência em pesquisas noticiosas relevantes.



Comentar como Convidado