Estreito de Ormuz: o fim da ordem americana no Golfo

Trinta e cinco anos depois de prometer segurança total no Golfo, Washington descobriu em Ormuz o preço de uma garantia que nunca foi posta à prova.

Economia

Elian Morvane
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Elian Morvane é analista do Arcana News, onde escreve sobre geopolítica, poder e relações internacionais. É autor de mais de trezentos artigos de análise e contexto, com foco nas dinâmicas europeias, na política institucional e nos processos de influência que raramente chegam às manchetes.
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A 15 de setembro de 2020, na Casa Branca, o Bahrein e os Emirados Árabes Unidos assinaram os Acordos de Abraão com Israel. A promessa por detrás da cerimónia era simples: mostrar ao Irão que dois Estados do Golfo estavam dispostos a colocar-se, em público e por escrito, do lado americano, sem esperar por uma solução para a questão palestiniana. Cinco anos e meio depois, quando a guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão chegou à sua fase de retaliação, em fevereiro de 2026, foi sobre esses dois países que caiu o essencial dos mísseis iranianos.

As primeiras semanas de bombardeamento recaíram sobretudo sobre bases no Bahrein e nos Emirados. Omã e o Qatar, que, até ao início dos combates, tinham mediado as negociações entre Washington e Teerão, sofreram ataques pontuais. Houve ataques noutros Estados do Golfo, mas a concentração dos danos no Bahrein e nos Emirados foi maior.

Os dois países tinham tornado particularmente visível a sua escolha política. Assinaram um tratado público que os colocava ao lado de Israel, aceitaram bases permanentes no seu território e deixaram que essas instalações fossem fotografadas, visitadas por secretários da Defesa e mencionadas durante anos em comunicados oficiais. Omã e o Qatar não tinham assinado os Acordos de Abraão.

Edifício do quartel-general da NAVCENT, da 5.ª Frota dos EUA e das Forças Marítimas Combinadas, na Naval Support Activity Bahrain
Quartel-general da 5.ª Frota dos EUA, na Naval Support Activity Bahrain. Foto: 2.º Sargento Adelola Tinubu, US Navy / DVIDS (domínio público)

Essa publicidade fazia parte do próprio valor político dos acordos. Teerão precisava de saber quem os tinha assinado e até que ponto Washington estava disposto a comprometer-se com esses países para que o sinal tivesse efeito. Quando a dissuasão deixou de impedir os ataques, a mesma informação continuava disponível.

As baterias Patriot instaladas em bases como Al Dhafra abateram parte dos mísseis e drones lançados contra o Bahrein e os Emirados. Outros atravessaram as defesas. Passadas poucas semanas, algumas bases tinham sido atingidas diretamente; noutras, as pistas ficaram inutilizáveis ou os radares foram postos fora de serviço, limitando a utilização militar das instalações.

Militares da Força Aérea dos EUA a validar um lançador do sistema antimísseis Patriot na Base Aérea de Al Dhafra, Emirados Árabes Unidos
Validação de um lançador Patriot na Base Aérea de Al Dhafra, Emirados Árabes Unidos. Foto: Sgt. Jocelyn A. Ford, US Air Force / DVIDS (domínio público)

O regime iraniano não foi removido por esta guerra. Sobreviveu com uma estratégia que vinha a desenvolver desde que perdeu acesso à tecnologia militar ocidental: drones e mísseis baratos, capazes de saturar defesas construídas para intercetar ameaças muito mais caras, e uma rede de aliados não estatais que continua a encontrar espaço onde décadas de guerras na região deixaram vácuos de autoridade. Esse conjunto deu a Teerão margem para concentrar os ataques em determinados alvos, em vez de distribuir indiscriminadamente o fogo por toda a região.

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O fecho de Ormuz, com os petroleiros parados desde agosto, é a consequência mais visível da guerra para quem a observa de fora. No Bahrein e nos Emirados, a experiência foi diferente. O compromisso público com Washington, apresentado durante anos como uma garantia adicional de segurança, tornou também mais identificáveis os países e as instalações associados a essa presença americana quando começaram as retaliações.

O Bahrein e os Emirados avaliam agora o custo de reparar ou reconstruir algumas dessas bases. Os restantes Estados do Golfo continuam sem qualquer tratado equivalente com Washington e não sofreram, até agora, danos da mesma dimensão nas instalações que estiveram no centro dos ataques.

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