O silêncio nuclear nas negociações com Washington
Em 5 de setembro, Vladimir Putin recebeu em Moscovo Steve Witkoff e Jared Kushner durante quase três horas para discutir a proposta de paz apresentada por Washington. Um assessor do Kremlin classificou a conversa como «substantiva, muito franca e construtiva». Nos três dias seguintes, a Rússia suspendeu os ataques a Kiev e a Ucrânia suspendeu os ataques a Moscovo, preservando o espaço negocial. Putin não abrandou as exigências territoriais. Continuou a reclamar o resto do leste ucraniano e a apresentar a situação militar no terreno como razão para não ceder. Houve, porém, uma palavra que desapareceu por completo: nuclear. A doutrina nuclear russa, revista havia menos de um ano, não entrou no discurso apresentado aos enviados norte-americanos.
Moscovo dizia estar numa posição militar favorável e foi essa posição que levou para a mesa. Território, avanço das forças russas, capacidade para continuar a guerra. O arsenal nuclear não entrou na argumentação perante os enviados norte-americanos.
Em 9 de maio, o desfile do Dia da Vitória realizou-se pela primeira vez sem veículos militares, perante o receio de ataques com drones ucranianos. A 12 de maio, a Rússia testou o míssil intercontinental Sarmat. Cinco dias depois, centenas de drones penetraram as defesas aéreas de Moscovo e atingiram diretamente a capital. Entre 19 e 21 de maio, as forças russas realizaram um dos maiores exercícios nucleares estratégicos dos últimos anos: 64 mil militares, 200 lançadores, 140 aeronaves, 73 navios de superfície e 13 submarinos, oito deles portadores de armamento nuclear estratégico.

Segundo o Ministério da Defesa russo, o exercício simulou «o lançamento de armas nucleares em resposta a um ataque externo hipotético, incluindo de natureza convencional». A 24 de maio, um ataque massivo contra Kiev recorreu ainda a um número invulgar de sistemas capazes de transportar ogivas nucleares, usados nessa ocasião com cargas convencionais, no contexto mais amplo da corrida entre produção de mísseis russos e de interceptores ocidentais que sustenta a guerra no terreno.
O teste do Sarmat precedeu o grande ataque de drones de 17 de maio, pelo que esta cronologia não permite transformar todos esses acontecimentos numa cadeia causal. O que ficou concentrado naquele período foi outra coisa: a vulnerabilidade da capital russa tornou-se particularmente visível e, durante os mesmos dias, sucederam-se demonstrações de sistemas e forças associados ao arsenal estratégico.
Um exercício nuclear prepara forças, testa procedimentos e tem utilidade militar própria. Um míssil de duplo uso não deixa de ser uma arma por transportar uma carga convencional. Mas estes atos também são observados fora das forças armadas russas. Chegam aos governos que decidem que armas entregar à Ucrânia, que ataques aceitar contra território russo e até onde estão dispostos a aumentar a exposição ao risco.
Em outubro de 2025, Putin anunciou testes bem-sucedidos do Burevestnik, míssil de propulsão nuclear que apresentou como «um produto único, que mais ninguém no mundo tem». Pouco depois, descreveu o drone submarino Poseidon com outra garantia: «não há forma de o intercetar». A 5 de novembro, ordenou aos serviços russos que se preparassem para uma eventual retoma de testes nucleares.

Nenhum desses anúncios, tal como foram apresentados, demonstrou uma alteração correspondente na frente ucraniana. O Burevestnik e o Poseidon passaram, contudo, a ocupar o discurso público num momento em que Moscovo podia voltar a obrigar os seus adversários a considerar não apenas o curso da guerra, mas também aquilo que poderia acontecer fora dos limites convencionais em que ela continuava a ser combatida.
Dmitri Medvedev já o tinha feito de maneira menos indireta em setembro de 2024. O vice-presidente do Conselho de Segurança russo avisou que Kiev poderia transformar-se numa «mancha cinzenta e derretida» se o Ocidente autorizasse a Ucrânia a atacar território russo com armas de longo alcance. Washington e Londres discutiam então essa possibilidade. A autorização ainda nem sequer tinha sido formalmente concedida.
A ameaça apareceu, portanto, enquanto a decisão estava a ser tomada. Não era necessário que uma ogiva estivesse prestes a ser usada para que a referência ao nuclear pudesse interferir no cálculo de quem decidia.
Os gestos relacionados com a Bielorrússia e as referências a eventual armamento nuclear destinado a Cuba ou à Venezuela permaneceram, nos episódios descritos, sobretudo no domínio da sinalização política e estratégica, sem demonstração de uma preparação operacional completa para um teatro nuclear. Ainda assim, colocavam perante os destinatários uma possibilidade que estes tinham de considerar. A incerteza fazia parte do efeito.
Em 2024, porém, a Rússia fez mais do que ameaçar. Reviu formalmente a doutrina nuclear russa e alargou as circunstâncias em que admite recorrer a esse armamento. Uma doutrina oficial integra o quadro em que dirigentes e militares avaliam cenários de emprego. Não pode ser reduzida a propaganda nem tratada como se não tivesse consequências.
O que a doutrina nuclear russa mostra na prática
Desde então, a Rússia enfrentou ataques convencionais em larga escala contra o seu território, penetrações das defesas aéreas e episódios que expuseram vulnerabilidades consideradas estratégicas. A arma nuclear não foi empregada.
A prática destes dois anos não permite concluir que nunca o será. Permite verificar que a revisão formal do limiar não tornou o emprego automático perante situações que se aproximavam das circunstâncias que Moscovo decidira incluir na própria doutrina. Entre aquilo que o documento admite e aquilo que o Kremlin efetivamente ordenou continua a existir uma distância.
Enquanto essa distância existir, Moscovo conserva uma capacidade que desapareceria no instante em que a ameaça se transformasse em emprego: pode repetir o sinal. Exercícios, testes, anúncios tecnológicos e advertências políticas voltam a colocar a mesma hipótese perante governos adversários, que têm de decidir de cada vez se estão perante mais uma manifestação de pressão ou perante uma alteração real do risco.
Na mesa com Witkoff e Kushner, nada disso foi necessário. Putin sustentou as exigências territoriais na vantagem que os responsáveis russos diziam possuir no terreno. Não houve referências a ogivas, novos sistemas estratégicos ou consequências nucleares para uma recusa norte-americana.
Noutros momentos, sobretudo quando estavam em discussão decisões ocidentais suscetíveis de ampliar a capacidade militar ucraniana ou quando vulnerabilidades russas se tornavam visíveis, regressaram as ameaças, os testes e os exercícios ligados ao arsenal nuclear.
O risco que decorre desse arsenal continua a existir, e a revisão da doutrina nuclear russa em 2024 impede que seja tratado como mera encenação. Mas os próprios atos do Kremlin mostram que a ameaça já produz utilidade antes de qualquer emprego. Em setembro, quando Moscovo considerava suficiente a posição que tinha no terreno, não precisou de a convocar. Nos episódios em que quis alterar o cálculo dos adversários, voltou a pô-la diante deles.
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