A leitura digital dos papiros carbonizados permite recuperar textos sem desenrolar os originais.
O PHerc. 1667 é um núcleo de papiro carbonizado com cerca de oito centímetros de altura. Perdeu camadas nas tentativas de abertura realizadas depois da sua descoberta. Em 25 de junho de 2026, a equipa do Vesuvius Challenge anunciou a reconstrução digital de toda a superfície conservada desse remanescente, correspondente às zonas inferiores de cerca de 22 colunas de grego.
Foi apresentado como o primeiro dos papiros de Herculano desenrolado e lido virtualmente de uma ponta à outra. A expressão refere-se ao objeto sobrevivente. Não significa que o livro antigo tenha sido recuperado na íntegra, nem que todas as letras sejam legíveis. O estudo técnico reconhece que partes das três primeiras colunas continuam sem transcrição segura. Nos lugares onde o suporte desapareceu, a imagem não pode restituir a escrita.
O avanço permite acompanhar uma sequência de texto que permanecia inacessível dentro do rolo. O documento conserva os danos da erupção do Vesúvio, em 79 d.C., e das tentativas posteriores de abertura.
Como se recupera e verifica a escrita dos papiros de Herculano sem abrir os rolos carbonizados?
Uma biblioteca com interesses próprios
Os papiros começaram a aparecer em 1752, durante a exploração subterrânea de uma residência aristocrática junto de Herculano. O edifício viria a ficar conhecido como Villa dos Papiros. O engenheiro Karl Weber registou a planta e a localização dos achados, deixando informação que permite relacionar os objetos com os espaços onde foram encontrados.

Entre os textos identificados, muitos pertencem a Filodemo de Gádara, filósofo epicurista do século I a.C. A ligação de Filodemo a Lúcio Calpúrnio Pisão Cesonino, sogro de Júlio César, sustenta a hipótese de a residência ter pertencido a Pisão ou à sua família. A identificação do proprietário permanece uma hipótese.
O predomínio de tratados filosóficos dá à coleção um perfil particular. Os livros conservados resultam de escolhas de aquisição, leitura e trabalho. Não constituem uma amostra equilibrada do que se escrevia na Antiguidade.
O próprio PHerc. 1667 coloca esse problema. O seu vocabulário e os temas tratados apontam para um contexto estoico, diferente do epicurismo predominante nos textos conhecidos da coleção. A presença do nome de Aristócreon, sobrinho e discípulo de Crisipo, reforça essa interpretação. Contudo, não se recuperou o título nem uma indicação segura de autoria.
Quando ler implicava destruir
Os primeiros esforços de abertura expuseram o conflito entre conhecer o conteúdo e conservar o suporte. Camillo Paderni, responsável pelo museu real de Portici, cortou rolos longitudinalmente para alcançar a escrita. Depois de copiada uma camada, esta podia ser raspada para expor a seguinte.
Antonio Piaggio desenvolveu, no século XVIII, um sistema mecânico de desenrolamento mais eficaz. Foi possível estudar textos antes inacessíveis, mas a fragilidade dos papiros continuou a provocar perdas.

A investigação digital trabalha sobre esse legado. Alguns objetos chegaram aos laboratórios reduzidos a partes do que tinham sido. Um número de inventário pode designar apenas um remanescente. A leitura integral desse objeto não equivale à recuperação integral do livro.
No caso do PHerc. 1667, os registos antigos e as intervenções posteriores permitem acompanhar parte dessas alterações materiais. O núcleo hoje examinado conserva uma fração da altura e do comprimento originais. As palavras perdidas nas zonas destruídas não regressam com uma tomografia mais precisa.
As técnicas de imagem multiespectral já tinham melhorado a leitura de fragmentos abertos, ajudando a distinguir a tinta do fundo carbonizado. Os rolos fechados acrescentam uma dificuldade: é necessário localizar a superfície escrita dentro de um objeto comprimido e deformado.
Uma tomografia produz uma representação tridimensional do interior do rolo. Para obter uma imagem legível, os investigadores têm de reconhecer as camadas de papiro, seguir o seu percurso e reconstruí-las num plano.
Nos pontos esmagados ou dobrados, o programa pode confundir camadas vizinhas. Um desvio pode fazer a reconstrução passar de uma volta do papiro para outra, aproximando sinais que nunca estiveram lado a lado.
Há ainda o problema da tinta. Tanto o suporte carbonizado como muitas tintas antigas são ricos em carbono, o que reduz o contraste entre ambos. A resolução das imagens e as propriedades físicas dos materiais tornam-se essenciais para distinguir os traços.
A aprendizagem automática participa nessa identificação. A leitura e a transcrição exigem depois o trabalho dos especialistas em papiros, que avaliam os sinais e assinalam as incertezas.

O estudo técnico disponibilizado como preprint em junho de 2026 descreve uma forma de verificar a reconstrução: cada ponto da superfície digitalmente aplanada pode ser relacionado com a sua posição no volume tridimensional.
O trabalho apresenta também uma verificação noutro papiro, o PHerc. Paris 4. Uma aquisição de imagem de maior resolução tornou a tinta diretamente visível nos dados tridimensionais. Os investigadores puderam confrontar esses vestígios com o texto recuperado anteriormente.
Papiros de Herculano: de passagens isoladas a sequências de texto
No concurso Vesuvius Challenge de 2023, Youssef Nader, Luke Farritor e Julian Schilliger recuperaram passagens de um papiro fechado. O prémio, anunciado em fevereiro de 2024, demonstrou a possibilidade de obter texto legível dentro de um rolo. Grande parte desse documento permanecia por recuperar.
Em fevereiro de 2025, as bibliotecas Bodleian, de Oxford, anunciaram imagens do interior do PHerc. 172. A tinta surgia com maior clareza nos exames. A possibilidade de conter um componente mais denso, como chumbo, foi apresentada como hipótese que exigia testes adicionais.
Os resultados anunciados em 2026 alargaram o acesso aos textos. A Universidade do Kentucky comunicou a recuperação de mais de 70 colunas do PHerc. 172. No PHerc. 139, os investigadores identificaram uma indicação de autor, título e número de livro: Filodemo, Sobre os deuses, livro VIII.
O PHerc. 1667 oferece outro tipo de resultado: uma reconstrução contínua da superfície sobrevivente, acompanhada por uma transcrição que distingue letras legíveis, leituras incertas e lacunas.
Uma palavra isolada pode admitir várias interpretações. Colunas sucessivas permitem examinar o desenvolvimento de um argumento, reconhecer a retomada de um conceito ou avaliar uma proposta de leitura pelo que vem antes e depois.

Ler não encerra a interpretação
Os temas éticos, o vocabulário e a referência a Aristócreon favorecem o enquadramento estoico do PHerc. 1667. Federica Nicolardi, membro da equipa de papirologia, salientou, porém, que a proveniência de uma coleção predominantemente epicurista aconselha prudência. A autoria permanece desconhecida.
Há uma diferença entre conseguir ler um papiro e dispor de um procedimento aplicável a toda a coleção. O estudo técnico identifica obstáculos relacionados com a conservação dos rolos, a separação das camadas e a visibilidade da tinta. O resultado obtido num objeto não garante o mesmo desempenho noutro.
Para a História, o ganho depende da possibilidade de confrontar a transcrição com as imagens e de corrigir ambas. As edições críticas terão de continuar a distinguir o que o papiro conserva das letras ou palavras propostas para preencher uma lacuna.
O PHerc. 1667 permanece mutilado. A leitura digital permite estudar a escrita que conserva sem abrir o núcleo físico.
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Fontes
- Vesuvius Challenge, anúncio de 25 de junho de 2026.
- Giorgio Angelotti e outros, Complete virtual unwrapping and reading of a rolled Herculaneum papyrus, preprint depositado em 27 de junho de 2026.
- Universidade do Kentucky, The day the Herculaneum scrolls began speaking again, 25 de junho de 2026.
- Getty, Buried by Vesuvius: Treasures from the Villa dei Papiri.
- Getty, Reading Ancient Scrolls with Modern Technology.
- Vesuvius Challenge, anúncio do prémio de 2023, fevereiro de 2024.
- Bodleian Libraries, anúncio sobre o PHerc. 172, 5 de fevereiro de 2025.
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